A invenção cotidiana



A invenção cotidiana.

Um dia. Eram três horas no rádio relógio quando ele chegou em casa. Havia caminhado três quilômetros madrugadadentro até que conseguisse retornar. Abre-se a portaria que o eu quer entrar .E a porta de vidro disparou a tramela permitindo o ingresso do corpo.
Despiu-se das roupagens que carregou durante o transcorrer do tempo no qual esteve envolvido com universos vários. Fechou a porta do apartamento com pega-ladrão e travas. Sentou-se defronte da máquina e se internou. Três horas de virtualidades identitárias. Por fim caiu nas redes do sono.Sonhou raso. Mas sonhou.
...sonhei que era vigilante de catracas que permitiam ou não o ingresso de pessoas a um corredor branco comprido perguntando a elas qual virtude traziam em si...Dois dias. Acordou depois do meio era tarde na cidade cinza hoje. Arrumou os objetos jogados no chão. Livros. Papéis. Sapatos. Bitucas.
Ingeriu comprimidos e cafés. Lançou roupas sujas para o interior da máquina. Ouviu música vinda das imaginadas solidões das vizinhas idosas. Elis Regina cantava band-aid. Sua garganta arranhava a letra. Sem ter mais o que fazer se internou. Ave – Maria chegou na hora que diariamente se encontra na rádio AM que ainda escuta. Tamanha fé o fez voltar do virtual. Fumou cigarros que enfim acabaram. A garganta não parou de arranhar. Pendurou as vestes limpas.Cantarolou. Acendeu as luzes. O tom do cinza era mais escuro agora. Quase preto. Ante-breu. Eram dez pra madrugadadentro. Saiu de casa. Caminhou pelas ruas da cidade quase deserta. O mar barulhava ondulações.Maré vai. Maré volta. Dormiu.
... sonhei que desenhava uma família de traços finos a beira de um precipício onde o pai (mais alto de todos) impedia suas crias de saltar no vazio como fim...Três dias. Se abrir o olho é sinal de despertar, então assim o fez. A tinta azul celeste das paredes do quarto pareciam não ter fim pois integravam-se ao colorido vindo de fora da janela que dava vistas ao céu. Olha o copo de corpo com água. Pasta aos dentes que pastaram ruminações a noite inteira. A noite tem, a noite é de tamanha falta. A noite é sempre por completar, que padece do fardo de ser pardo madrugadadentro. Queria tanto ser só noite. Dormir-sonhar o dia. E despertar de olhos fechados noite afora. Sonhar-sonhou.
... sonhei que caminhava pelas ruas de uma cidade-infância vestindo um coberto xadrez. Os senhores e senhoras que encontrava meneavam suas cabeças cumprimentando em silêncio. Deitado em chão de ardósia ouvia crianças cantando super-fantásticos-sons...Quatro dias. Era barulho. Ruído vindo da rua. Ruído estava com a orelha arrebentada. Um flautim e grito: _ AMOLADOR! AMOLO FACAS, TESOURAS E ALICATES DE CUTICULAS. E roia as unhas na tentativa de gastar gasturas. A mão era povoada de cicatrizes oficiosas (Labor em meio à cólera) e bitucas que amarelaram o indicador. Esse produto (aqui) contém mais de 4.700 substâncias tóxicas, e N. que causa dependência física ou psíquica. Não existem níveis seguros para consumo destas substâncias. Era somente mais uma dentre as 4.699 desconhecidas. Seu vício é vontade de insônia. Mas como residir na resistência? Por fim, só resta dormir.
... sonhei que entrava numa fila de mercado onde casais compravam sacos e sacos de gelo que as poucos derretiam. Transformando o chão numa poça gigantesca.O que atrapalhava a velocidade da caixa registradora era o fato do troco para os casais serem minuciosamente calculado. E sempre faltavam notas...Cinco dias. Acende um cigarro. Que trouxe da rua madrugadadentro. Desceu as escadarias do prédio que guardava seus pertences. Ao pisar no asfalto lembrou-se de uma frase que numa tarde ouviu de um sábio usuário. “O mundo não é um quitinete!”. Realmente concordava. O mundo é um penetrável de Oiticica – bob/pai – bob/filho – espírito santo -amém. Com o senhor me deito, com o senhor me levanto, com a graça de D. e do espírito-santo.
... sonhei um sonho sem igual. sem imagens, sem som, sem cheiro, sem sabor, sem toque algum. parecia uma voz, mas não era audível, parecia uma visão, mas não era visível, parecia um sabor mas não era sem gosto,era algo diferente que me fez sentir. Algo que fazia com que eu entendesse que não havia vias para a captura do entendimento do vivo. Viver nesse sentido estava próximo ao inexplicável que vem de D.Seis dias, Hillé. Sexto dia que assim seja. D. de Derrelição. Obsceno a cena de hoje. Por tudo que há de mais sagrado nesse transcorrer do quinto ao sexto, os sentidos não se perdem. Não se perdem, Hillé. “Desperdícios sim, tentar compor o discurso sem saber do seu começo e do seu fim ou o porquê da necessidade de compor o discurso, o porquê de tentar situar-se, é como segurar o centro de uma corda sobre o abismo e nem saber como é que se foi parar ali, se vamos para a esquerda ou para a direita, ao redor a névoa, abaixo um ronco, ou acima?”. (H.H.Obscena senhora D. pg 72).
... sonhei que atirava tijolos pela boca. De dentro de meu cuspe eles brotavam em cor vermelho-carne-viva. Cor de barro quando rompe o invólucro da semente...Sete dias. Genésico. Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados. Havendo D. acabado no sétimo a obra que fizera, descansou nesse dia de todo labor que tinha feito em ocupações. E abençoou D. o sétimo dia, e o santificou, porque nele descansou de toda obra de criação que fizera.
... sonhei espectros, sonhei raios, sonhei relâmpagos, sonhei Luz...

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