CÃO


O cão da minha alma sempre uivou preto, com orgulho e glórias concentradas, e ranger de dentes
que guardados na boca oca seguravam pedaços de exprimidas esperanças. Entre os risos e os frisos
sonhou com esse dito:
“_ Tome leite e seja feliz, foi uma loba quem amamentou os civis.”.
Maldição, porque hoje, devido a ela, o cão da minha alma amanheceu na noite negra ressoando uivos brancos, claros, lapidados, alvos como flashes espocados, parecendo diamantes cuspidos da boca e nascidos dos dentes, vertidos pelas gengivas.
E eram tantos, de tão intensa gramatura que tORnou-se difícil à minha modesta humildade, contornar o ascendente de minha própria ruína. Do mais prolífico dos sete vícios capitais. Aquele com poder de reinação, do controle de dominar, fez minha alma também sonhar:
“construir fachadas, impressões, torrentes, falácias, falésias, fossos, buracos, muros, postes, antenas, frações, conectividades, armações, estruturas, concretudes, pontos, pontes, sítios e domínios.”.
Minha alma reinou cegamente solitária. E o cão dela se pôs a dormir. E então sonhou-se acordado: sonhou.
Sonhou com um breu mais orgulhoso ainda, que produzia no fundo de si. Desconsolado pôs-se sonâmbulo, a uivar dúvidas.
Minha alma compadecida, sem saber o por fazer. Não sabia se meu cão uivava de alegria ou dor, se estava cego ou enxergava, se estava louco ou rábico, se estava escuro ou muito claro, se o que encontrava era :
_____________-vestígio da linha tênue que corta o real ( entre o mundo de fora)______________-_____________com o real ( entre o muro de dentro) ____________________________________ .
E eis que o uivou da dúvida ressoante da realidade tomou a forma leitosa de um eco transmutado em palavras. Era o uivo do cão da minha alma, engolido pelo orgulho. Sem saber o que haver, o que era saber, o que era sabido. Era seu reinado se perdendo. E que mesmo estando nú, não mais podia deixar-me.

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