INVENÇÃO


Definição de invenção.
“Não se trata de ficar nas idéias. Não existe idéia separada do objeto, nunca existiu, o que existe é a invenção. Não há mais possibilidade de existir estilo, ou a possibilidade de existir uma forma de expressão unilateral como a pintura, a escultura departamentalizada. Só existe o grande mundo da invenção” (Hélio Oiticica, 1979)
O termo invenção, presente nesse ante-programna maquinicomovel, é prisma chave na constituição estratégica de construção de nossas práticas. Tendo como perspectiva ética - estética - política, o “programa in progress” de Hélio Oiticica.
Antes mesmo de dar início ao invento de definir invenção, gostaríamos de deixar claro o que referimos como “perspectiva ético-estético-política”. Rolnik (1993) assim a define
“...ético porque não se trata do rigor de um conjunto de regras tomadas como um valor em si (um método), nem de um sistema de verdades tomadas como um valor em si (um campo de saber): ambos são de ordem moral. O que estou definindo como ético é o rigor com que escutamos as diferenças que se fazem em nós e afirmamos o devir a partir dessas diferenças... estético porque não é o rigor do domínio de um campo já dado (campo de saber), mas sim o da criação de um campo que encarna as marcas no corpo do pensamento, como uma obra de arte. Político porque esse rigor é o de uma luta contra as forças que em nós obstruem as nascentes do devir.” ( Rolnik,1993,p.245)
Pois bem, Oiticica deixou manuscrito em 23 de outubro de 1973, no seu caderno: “Inventar: processo in progress q não se resume na edificação de OBRA mas no lançamento de mundos q se simultaneiam. Simultaneidade em vez de mediação.” ( grifo de Hélio).
Inventar a invenção permite-nos lançar mundos que estão em relação, em processo. Processos relacionais de expansão de forças e não de criação de coisas. Não são mundos simultâneos que se inventam como numa colagem de fragmentos de cada um para obtenção de um todo, uma inteireza. Mas sim, mundos que se simultaneiam através de experimentações, apropriações, relações, realizações, estar em jogo, etc.
Inventar efetua uma mudança de valores, visto que é primordial o envolvimento das pessoas, suas disposições a construir e não apenas criar. “o papel do artista não era criar, mas mudar o valor das coisas. Inventar efetua a mudança de valores; o ato de criar, se não se fizer parceiro da invenção, não necessariamente transforma.” (Carneiro, 2004,p.167).
O que diz respeito a esse estado de invenção permanente, extrapola os limites da arte, invadindo outras dimensões como a saúde. Um trabalho feito pela experimentação, pelo processo “programa in progress”, como Hélio Oiticica nomeou.
Algo que se efetua como “numa espécie de montagem, recriando-se e adicionando-se outras significações, porque a própria proposição-processo permite isso. Precisamente por se tratar de um programa aberto, cada realização é uma nova obra. Os signos oscilam, trocam de lugar e de sentido. Cada momento de seu programa é um fragmento de outro que se segue. Cada montagem de um projeto faz aparecer um outro trabalho. O mesmo projeto pode proporcionar resultados diferentes, elaborando novas significações. (Justino, 1998,p.6.7)
Ou seja, estar em estado de invenção implica numa decisão de explorar esses mundos, começando pela possibilidade individual, por meio do exercício experimental da liberdade de cada um, exercício do qual emerge o coletivo. E, nesse coletivo “não há renúncia das individualidades em nome de um todo, nem este consiste em uma reunião de indivíduos intermediados por um contrato de convivência. Há a simultaneidade dos níveis do experimentalismo levados a efeito por cada um em um jogo de corpos...” (Carneiro, 2004, p.169.)

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