O QUE VC QUER PARTE 1


O que você quer...
É que tudo na vida foi feito para ser simples. Porém a gente cisma de complicar pra ver se a experiência ganha gramatura e colorido mais intenso. Eu vivo arrependido, “por ter que viver uma vida que não é aquela que eu gostaria de estar vivendo”, também.
Eu vivo frustrado por olhar a vida simples que é, e não aceitar os fatos como são. Eu vivo assim. Existe algum erro nisso tudo? Olha, se sofro nessa vida? Quem não sofre nessa vida? Já vi que o negócio é não ficar reclamando, se guardar, e poupar os outros disso. Que é único e exclusivo problema seu. Ei vivo isolado. Eu vivo isolado, e minha auto-estima não é baixa. Porque faz algum tempo que eu deixei de acreditar nessa idéia de auto-estima. Pensando bem eu me pergunto: pra que serve essa idéia de auto estima?
Não serve pra nada. Poque você então se diz: “_ Como eu gosto de mim. Eu me amo. Eu me aceito. Tenho os olhos voltados pra mim. Eu me enxergo. Eu estou aqui...”. E o mundo passa a girar em torno de você, única e exclusivamente. Eu te pergunto, quem está a seu lado? Quem está com você nessa empreitada de vida? Eu repito, eu vivo isolado, mas não quer dizer que eu estou sozinho. Compreende? É, porque a maioria das pessoas acha que você só pode estar feliz quando está amando, quando está com alguém. E sempre te perguntam pelo amor, pelo dinheiro, o que está fazendo com a vida... o que se faz com a vida? Se vive e pronto. Não tem mistério algum, é simples mesmo.
Mas como eu já disse antes, acaba-se elaborando um plano de gramatura e colorido mais intenso pra ver se a experiência fica mais viva. “ Mais Viva.”!!!! Onde já se viu tamanho absurdo!? Levantar da cama e calçar chinelos é de uma intensidade que beira o indescritível.
Hoje eu acordei e tirei os pés da cama onde por tempo habitava esse ser inerte de mim mesmo. Hoje eu despertei com um gosto amargo de entranhas. Hoje parecia que ia ser um daqueles dias em que uma simples sirene de ambulância te perturba a alma porque mostra á você que a vida urge e que viver é perigoso por demais.
Calcei chinelos como quem planta nos pés a certeza de estar vivendo um estado letárgico tal qual uma árvore que beira os cem anos e cotidianamente leva, lentamente, alimento a todas as muitas partes que a compõem.
Eu levantei da cama e olhei tudo que havia ao meu redor. Eu olhei os móveis, as paredes, a janela, a torneira, a pasta de dente, a privada, a toalha, o ventilador, o sofá, o relógio piscando, a louça suja de ontem, a meia embolada dentro do sapato, as roupas molhadas a secar, o espelho, o cabelo despenteado,a unha por cortar... ei vi tudo isso, e tudo era tão familiar, que eu estranhei por inteiro. Eu reconhecia tudo isso, mas nada disso tinha sentido algum. Era como se as coisas tivessem ido embora e só houvesse ficado o que sobrou da idéia das coisas.
O que eu estava fazendo aqui? Nada disso aqui tinha a ver comigo. Não é que eu não gostava dessas coisas ao meu redor, nem que elas adentraram minha vida como uma força estranha. Não, eu via isso tudo, sabia que tinha ido atrás dessas coisas até o dia de hoje, mas é que hoje essas coisas não faziam sentido algum.
Pra que essa cama onde deitado escrevo? Pra que esse caderno verde onde essa caneta escreve? Pra que esse troco de dinheiro embolado com uma nota velha do mercado da esquina?
Isso não trazia garantia alguma para minha vida. Esse conforto não é segurança. Ficar nesse estado de conforto não servia para mim. E eu me sentia amordaçado pelos objetos que estavam ao meu redor. A única garantia que eu tinha agora era uma dor na coluna que não passa há 4 dias. Isso era tudo que eu sentia.
Essa dor era a coisa mais autêntica e verdadeira que eu tinha na vida. Nem o meu nome, nem os meus pensamentos, nem o meu achismo, nem minha forma de criação. Nada disso era real como a dor que eu carregava a exatos 4 dias. Não havia medicamento nem posição que reconfortasse o meu corpo. Eu carregava essa dor. Era simples. E eu já disse que a experiência ganha gramatura e colorido por tentar deixar de ser simples. Mas viver é simples, viver é antes de tudo, viver é antes de tudo perigoso.
O que fazer agora então? O que eu tenho é minha dor na coluna, o que eu tenho é esse estranhamento com os objetos ao meu redor, o que eu tenho é essa certeza de ter tirado os pés da cama e plantados eles no chão, o que eu tenho é essa sensação de ser uma árvore que asiste o movimento ao redor e alimenta as muitas partes que compõem. E eu fui ao banheiro e olhando a boca suja de pasta eu me perguntei;
_ O que eu vou fazer com isso?

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