O QUE VC QUER PARTE 4

Parte 4
E há disfarces que a vida prega em levar. Hoje acordei e fui até o lugar onde você planeja habitar. E eu que bem nem te disse e me confundo nas palavras pois já não sei se é adeus a palavra que substituirá a palavra fim. Sei que não desejo mais a idéia de ter você ao meu lado, mesmo porque você não está ao meu lado. E assim, idiotamente me pergunto: ' o que vou fazer com isso?” Mas que tolice essa minha de achar que é por fazer assim que conseguirei me desvencilhar disso tudo que eu sinto.
Toleimas , eu bem sei, que depois de ter sonhado, e depois de perceber que hoje eu acordei e ter tirado o pé da cama, e ter calçado abrigo, e ter espumado a pasta na tentativa de dissolver o amargo de entranhas e ter proposto chegar ao fim de algo na vida e desejar o fim dessa dor nas costas e ter estranhando os objetos ao meu redor eu, eu sinto que eu, eu me perdi... mas... eu... mas...

... estou procurando, estou procurando quem sabe seja uma pedra o que eu procure. Não, mas aqui não vejo sentido para nada. Pra borra do café coado, pras roupas girando na lavadora, pro vidro quebrado da janela, sim, o vidro quebrado, é a única coisa que ainda encanta. É que nele falta um pedaço, e eu me vi nesse vidro. E se o ponho na cama pra dormir comigo, junto a meu travesseiro, desperto melhor, porque já não dormi sozinho. Mas é um vidro, e está quebrado, pode machucar.
Parece engraçado, mas o fato é que mesmo esse vidro quebrado, mesmo tendo dormido com esse vidro quebrado, não fui ferido como fui ferido por ter dormido com você. Por ter dormido com você e meses depois ter recebido a notícia de um filho vidro quebrado que se foi. E junto com o filho-vidro-quebrado-aborto, foi também o eu-pai-presença-marcada-na vida.
E mesmo assim, ainda fico a me questionar se era desejo estar com você. Mesmo tendo me ferido, eu pergunto se ainda te quero. Mas hoje eu acordei e vi que dentro de mim havia um sádico infernal, que se deleitava em fazer outrem`´mim sofrer. E ele agora me emudece a voz, mas no meio dessa confusão e que pensar que esse sádico é alimentado por esse querer de você. Que sentido há em viver dessa maneira? Será que vou ter coragem de mostrar o que escrevo agora? Será que vou ter prazer em te fazer mal?
Isso gera em mim uma ansiedade medonha, que não me leva a lugar algum, e o que tiver de acontecer, não faz sentido evitar você disso. Por bem ou por mal isso precisa ser dito, mesmo que seja a toque de caixa, em letreiro gigantesco de letras iluminadas-piscantes, em auto, bom e claro som. Eu preciso te dizer, foda-se.
Da minha vida estou perdendo os fios da meada que ainda sobram em minha razão. Pronto para explodir tal qual Unabomber, mas é melhor eu me conter. Viver contido que demanda esforço da alma, de mim mesmo.
E dessa vez eu fui dormir. E mais uma vez sonhei estranho. Eu estava num quarto com pouca luz e meu pai estava lá dentro. Estava velho, doente, me dizia chorando que sempre foi difícil conversar sobre os acontecimentos da vida porque ele não entendia a linguagem dele mesmo. Então, de agora em diante ele tentaria sentir mais aquilo que tinha pra dizer, porque havia enfim percebido a razão de não conversar muito. É que ele e eu nos perdíamos nos sentimentos e pra ele era difícil falar assim, sentindo o que se diz.
E hoje eu acordei e vi que não é só de minha casa que eu quero que você se retire. É da minha vida inteira. Eu acordei, e vi os móveis ao meu redor, e tudo me faz lembrar e tudo me faz sentir, o que eu já não tenho mais como disposição. Cansei de ser um ente depósito, esse lugar cansa, porque é ser algo como um cemitério de esperanças. É como se eu fosse o guardador dos produtos de uma vida que não é minha, de objetos que não são meus. É como se eu tivesse entrado de gaiato numa história que já vinha acontecendo e de repente ganhasse aquilo que foi construído dela. O que eu ganho com isso tudo? O que eu ganho nessa relação miserável? O que eu estou ganhando? Analisando, eu não estou ganhando nada com isso. Eu não ganho nada por estar nesse papel. O que você é de mim hoje? Se pra você eu faço as vezes de ponto, o que eu tenho eu aponto em dizer: ACABOU!
Quando eu peço que você tire as suas coisas de perto, o que estou pedindo é que saia de minha vida. Às vezes a gente trata os assuntos de uma maneira pueril, que é para a situação não ficar muito desconfortante.
Mas hoje eu acordei, e vi que você era puro vampirismo, que ruma sem rumo, que chupa energia, que não consegue enxergar a vida um palmo a sua frente a não ser que a mesma venha lhe trazer algum conforto ou prazer. Vampirismo que dá o ar da graça em períodos esporádicos tentando seduzir com um jeito e uma cara de desamparo. Parece até rizível isso aqui, mas não é. É tragicômico.
Eu descobri um demônio. Você encarnava os pecados que eu temia. Mas hoje, que eu acordei, eu vi que eles eram patéticos. Eu vi que sua luxúria não me desperta mais o interesse. Eu vi que sua cobiça te afasta dos entes queridos. Eu vi que sua preguiça é o que te faz fugir,e te põe na posição de ser errante na vida. Eu vi que sua gula não tem voracidade e que não mais desperta os desejos pela carne. Eu vi que tua avareza é monstruosa, você fica nessa espécie de estado de transe e teme com forças a condição de vivente. Eu vi que sua ira, não é nada frente a minha de agora. Por isso, na condição dessa inveja contida, eu só posso te dizer, foda-se. Pra não fazer com que os dejetos dessa relação apodrecida venham a tona na forma de um vômito incontido de palavras.

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