OFICINA - PARTE 2


Termo: oficina e breve histórico

Entendemos por oficina, no campo da saúde mental, um dispositivo clínico-terapêutico no qual uma atividade, ofício ou trabalho estrutura as intervenções experimentadas na reinvenção do cotidiano dos usuários, assim como propicia experimentações sociais, criando, a partir daí diversidades de ser e estar no mundo.
Como afirma GALLETTI: “Assim, as oficinas localizam-se num campo híbrido, móvel, instável, feito de experimentações múltiplas e aberto á intersecção com vários campos e saberes, o que pode garantir a elas um espaço menos restrito – como o de especialidade em saúde mental - e mais criando, assim, uma nova cultura de intervenções, escavada por essas experiências que pouco se intimidam com o discurso técnico vigente e que tentam escapar do modelo terapêutico normatizador”. (GALLETTI, 2004, p.36).
Historicamente as oficinas foram implantadas nas instituições de tratamento de saúde mental como meio de organização de diferentes atividades visando coibir a ociosidade dos internos. Tal pensamento tinha a ver com o modelo asilar de tratamento, pois a concepção era de que as atividades tratavam por ter um valor ocupacional em si.
Com o passar do tempo as oficinas foram ganhando uma dimensão reabilitativa-social, estavam fora da lógica asilar, ou seja, de manutenção do indivíduo no asilo e vinham resgatar a utilidade social do paciente. O tratamento era direcionado a não-segregação do indivíduo, porém ainda havia desvalorização das pessoas, pois o indivíduo estava apartado da vida. A idéia aqui era de que o estar em atividade tem o poder de reabilita-lo socialmente, trazendo o indivíduo mais próximo de uma visão utilitária.
As atividades passaram a ganhar um cunho desenvolvimentista com caráter de funcionalidade, onde se tentava fazer uma leitura, mapeamento, compreensão de como as atividades se desenvolviam e de como elas eram usadas no tratamento para capacitar as pessoas. Como exemplo, sociabilidade: capacidade a ser desenvolvida. Aumentando-se gradativamente as dificuldades das atividades.
Surgem concepções curativas onde o valor das atividades, seu efeito, funciona sobre as doenças. As atividades vão enfrentar a doença e minimizar ou eliminar os sintomas. As atividades vinculam-se aos mecanismos que provocam a doença amenizando ou aliviando as mesmas. As atividades passam a ser prescritas para os sintomas.
Com um maior questionar das práticas surge a concepção inclusiva-conscientizadora, onde a reabilitação se dá através de atividades que visam a inclusão de singularidades e não mais resgate das normas. Retoma-se o termo reabilitação com vislumbres da concepção reabilitativa-social, porém agregando-se valores e combatendo preconceitos. As atividades produzem consciência de valor, de direito, de classe e visam o resgate de singularidades. Essa concepção problematiza questões não resolvidas anteriormente, questões gestadas a partir da saída dos técnicos de seus papéis hierárquicos e também a partir das exigências e demandas da população. Assim, em atividade o indivíduo pode se apropriar de sua capacidade e sair da posição de desqualificado.
Atualmente tem-se pensando as atividades enquanto um território de construção das ações, onde essas são parte de um processo sensível de estar em atividade permanentemente. Estar vivo em algo. As atividades, assim como as vidas, são/estão em continuum. Configuram multiplicidades de mundos que geram afetações nas pessoas enquanto organismos vivos e sensíveis.
A oficina de Xilogravura foi implantada no NAPS no primeiro semestre de 2006 como desmembramento da Oficina de Marcenaria. Dentro do NAPS, já existira uma oficina de marcenaria, que foi desativada após a transferência do técnico responsável para outra unidade. Retomamos a idéia da oficina no segundo semestre de 2005 pensando que essa poderia ter como intuito criar dentro da instituição uma ponte com os trabalhos desenvolvidos nos outras oficinas do NAPS (como exemplo a oficina de fios e tecidos, para a qual produzimos alguns teares manuais) assim como pelo Núcleo de Projetos Especiais, instituição que também compõe a Rede de Apoio Psicossocial (RAP) do município de Santo André-SP, e conta em sua configuração com uma diversidade de oficinas, dentre elas a de Marcenaria e Marchetaria.
Acontecia as 3as. Feiras, tinha um fluxo aberto com possibilidade de inscrição de novos integrantes e prevalência de público masculino.
No decorrer do processo nos deparamos com uma demanda que vinha muito mais ao encontro das necessidades da instituição do que da demanda dos usuários atendidos. Os mesmos vinham à oficina realizar trabalhos que tinham por finalidade suprir um pedido da instituição e, em muito, não se apropriavam da atividade que exerciam ali. Os materiais utilizados provinham de restos de madeiras encontradas na rua ou que estavam em desuso dentro da instituição. Havia falta de ferramentas para a ampliação das ações das pessoas envolvidas.
Fomos percebendo que era preciso criar um maior espaço de expressão das demandas do usuário do que engendrar um contínuo de atividades que acabavam por tamponar os conteúdos existentes. Isso se deu através de alguns trabalhos realizados por alguns usuários que utilizaram a matéria/material madeira como suporte para desenhos e escavações.
“A madeira é um material que resiste àquele que lida com ele- umas madeiras são mais moles, outras mais duras – mas sempre resiste às mudanças que buscamos lhe impor.” (LIMA, BRUNELLO, 2000)
Desse movimento de transição da Marcenaria para a Xilogravura, surgiu uma placa de MDF, comprada por uma técnica do NAPS que encomendou ao grupo um porta-papel higiênico. Com essa encomenda ela deu ao grupo a possibilidade de ter material para criação de algo novo. Outro técnico trouxe algumas goivas e facas que tinha em casa. E com isso um novo movimento se instalou.
A transição primeiramente se deu de uma maneira suspeita, um instante nebuloso dentro do grupo, um instante gerador de estranhamento. Como se algo da ordem do estrangeiro tivesse adentrado a oficina.
Tudo era novidade, apenas uma usuária já havia gravado em madeira. Os demais começaram a demonstrar um interesse crescente. A cada dia de trabalho gravavam imagens novas, e para nossa surpresa uma das primeiras imagens gravadas por cada um dos integrantes era de uma estrela. O que estavam querendo nos dizer com isso?
Continuamos nosso trabalho, gravando e imprimindo novas imagens. Fomos vendo a singularidade de cada gravador em suas produções, as temáticas emergentes, os objetos de interesses que um a um vinham sendo trazidos em nossos encontros nas manhãs de 5a. feira. Cada qual a seu jeito compunha um repertório próprio. Escavavam com esmero singular. Dialogavam entre si, se interessavam nas imagens dos demais. Aguardavam a revelação da P. A (Prova do Artista – primeira imagem impressa na matriz). Cuidavam de suas matrizes. O trabalho foi ganhando força, foi ganhando corpo, como diríamos na linguagem dos gravadores: foi ganhando luz e poética própria.
Como resultado dessa apropriação, eis que surge o convite para expormos no Salão de Arte Contemporânea de Santo André. Faríamos parte da exposição dos trabalhos desenvolvidos pelas diferentes unidades que compõem a RAP. Quando questionados se gostaríamos ou não de expor, todos fomos unânimes: SIM!
O que fazíamos tinha qualidade de arte. Sabíamos, mas ainda assim a dúvida persistia. Como nos apresentar? Como gerar dentro desse dispositivo clínico, outra forma de discurso que não estivesse vinculado ao normatizador, ao terapêutico por si só?
“Para isso, era necessário um ouvido ‘estrangeiro’, pois a prática terapêutica diária muitas vezes nos impedia de escutar uma possibilidade de comunicação existente num pequeno som ou num ruído singular. Muitas vezes, na convivência com psicóticos, entramos em contato com uma multiplicidade de sons ‘estranhos’, que, no dia-a-dia, ouvimos, mas não escutamos mais”.(GALLETTI, 2004, p.102).
Mas como nos lançar sem nome? Se nosso intuito enquanto oficina é o intuito de ser híbrido e poder conversar com outras áreas e campos de saberes e produções humanas como a área das Artes e da Cultura, não fazia o menor sentido dizer: “trabalho realizado por pacientes do NAPS”.
Mesmo porque o que fazíamos ali não tinha apenas a ver com saúde. Lançamos então, juntamente ás impressões feitas em papel arroz, um manifesto. Nesse lançamento nos nomeamos: Coletivo Maquínico Estelar.
Montamos nossa exposição onde fomos elogiados, onde outras qualidades foram dadas ao nosso trabalho. E, onde iniciamos uma conversa com outros setores, outros lugares a partir do lançamento...Outros espaços, outras órbitas, outras constelações, novas siderações.

GALLETTI, M.C. Oficina em Saúde Mental: Instrumento terapêutico ou intercessor clínico?, Editora da UCG, Goiânia, 2004.
LIMA, E.; BRUNELLO,M.I. Oficina de Marcenaria: uma experiência de criação de mundos. In: Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, v.3, n.1, mar.2000.

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