PONTE.PONTO


Te disse visitante, a pouco mesmo, que chega o fim do mês e vem com ele a vontade de chutar o balde. Como começar? Por onde começar? Talvez por esse lugar ausente. Olhando bem de perto ele não traz garantias, mas aponta o dedo para dúvidas e mais dúvidas. Lidar com pessoas com graves sofrimentos mentais provoca em quem se aproxima uma contaminação, um trabalho de se ver e sentir nessas pessoas, que muitas vezes parecem estagnadas, e assim perceber que há possibilidades de construção de pontes/pontos para o mundo. Passagens, circulações entre diferentes espaços, transmissões no túnel do tempo. Ponte deles para consigo, pontos de unificações de mundos, aplicações-construções de sentidos. Tudo isso é feito às vezes com sutileza, com leveza, mas há vários momentos onde exige-se uma violência necessária para que se possa pensar as possibilidades de olhar a vida com lentes de aumento para as pequenas ações. Hiper-valorização das pequenas escolhas na vida. É preciso tirar a clínica desse lugar patológico em que ela se identificou. É necessário produzir uma desidentificação dela. Uma clínica ampliada é pouco, precisamos de uma onde não haja mais garantias, uma clínica esgarçada, onde a vida seja realmente produzida, uma clínica diluída onde não mais a vida seja apenas exemplo de uma teoria (como quem recorta o vivo, o vivido e encaixa isso nas teorias e concepções idearias). É necessário que ocupemos um lugar de consideração do COMO se faz, e não mais continuar na pregação do PORQUÊ se faz, afinal, visitante, não há mais motivos de se procurar as causas para isso que estamos habituados a fazer cotidianamente. Já paraste para pensar quem nos cobra esse PORQUÊ (?), esse O QUE É (?), traz consigo um aparato de poder de defesa do status quo, essa é a doença, esse é o sintoma dessa época na qual vivemos, onde as fronteiras estão em constante movimento, mas esses poderes ainda necessitam de hierarquias rígidas. Essas cobranças trazem a tona uma espécie de julgamento, um modo de pensamento que precisa ser justificado a todo tempo, justificativa que se dá como subterfúgio para constituição de pensamentos-garantias. Não é se entupindo de conhecimento que se cresce, mas sim assimilando aquilo do que podemos nos apropriar. Essa apropriação tem haver com modos de fazer, disso nos OCUPAMOS. Todos esses apontamentos vem em forma de perguntas que deixo então postas aqui: qual a possibilidade de ter algo parecido com a “identidade” na errância? Construir um lugar/locus de apropriação? Há existência e exigência de documentos? Como os fazeres se entendem? Como são esses mundos? Como se relacionam com a errância dos outros? Que olhar é dado as pessoas? Que olhar é dado a instituição? Como se forjam as experiências pessoais e vividas, que são fundamentais, com uma função da clínica que é exercer um olhar sobre as pessoas? É possível um olhar que problematize, é possível, visitante.

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