SEGUNDA INTENÇÃO


Abro a folha branca, hoje é segunda, visitante. A semana recomeça, e eu também. Deixo impresso em sua estrutura os pensamentos altos, de segundas intenções. A pretensão que tenho é da conta de minha curiosidade em descobrir: que palavra virá depois dessa aqui? Não paro de ter idéias e filtrá-las e transformá-las em frases, as vezes mal postas no texto, revelam que em minha textura sou aprendiz de escritor. Quando me dei conta de que escrever me ajuda na organização de minha pessoa, eu voltei a bater à máquina meus discursos solitários. Escrever é uma atividade solitária. Se não mostramos a alguém que seja, periga de irmos aos poucos entrando em processo de extinção. Extinção de um modo próprio de ler o mundo.
O barulho do mecanismo me aguça, porque ouví-lo é sinal de que estou produzindo algo novo. Quando o dedo toca as teclas e vejo na tela essas coisas surgirem, ou ainda, quando o som da impressora transferindo os bits e bytes para a folha branca ecoa nos ouvidos, eu reconquisto o gosto de produzir palavras.
Meus pensamentos livres procuram entre minhas idéias algo diferente do que já disse um dia. As vezes parece tudo meio amalucado o que surge, mas quem dá conta desse ineditismo caótico que é o processo de criação?
Abro o olho pro instante agora, se é dentro, se é fora, pouco sei. Tanto faz essa indistinção, não estou a procura do cerco da mira-laser da Lei. Sei que não cabe nessa tentativa de criação se é certeira a gramática, se dá por feliz seu respeito e admiração, mas concluo as linhas de um fim. Subo alto para planos mais sensíveis, experimento, nado, tudo é meio e mensagem, tudo é meio-surgimento.
Afirmo em palavras tantas um lugar de minha origem, nasci, cresci, criei, me fui. Do outro plano que adentro, quando me deixo ser capturado por essa vibração estranha, espécie de estado hipnótico de ser, algo como deixar-me levar sem me preocupar com o que está sendo porta e posto de entrada que aglomero. Eu vejo que é na busca que me transformo em alguém mais feliz. Posto que felicidade é brinquedo de papel. E as palavras, quando vistas no papel, ganham gramatura outra, diferente das que um dia viraram ondas sonoras na boca e ouvidos de alguém. Se escrevo isso só, agora, é pelo simples fato de querer esvaziar minha cabeça, a segunda intenção te conto sim, visitante, é dar ao novo o direito de obter devires.

Comentários

Linda Graal disse…
"Extinção de um modo próprio de ler o mundo."
Ahhhhhhhhh!
tudo aqui é "meio-surgimento" de constatação inteira de verdade de maior talento!

Compactuo que "felicidade é brinquedo de papel"...e ler-te é uma maneira concreta disto!

Amplexos outros!

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