VAMPIRE


A noite acabou. Ele voltou para dentro do recinto azul da Prússia de seu lar. Tudo tem aparência dupla. O antigo e o por vir concentrados nas formas dos objetos e coisas que guarda próximos a si. Perto e longe são distâncias percorríveis. Maneiras de “como sair” há várias, permanecer é custoso, chegar está para si assentado na espera. Um tempo longínquo, um tempo esticado, um frame demorado de sair da tela plana.
Por vezes encontra-se perpassado pela idéia fixa de rever seus amores novamente, e essa idéia dá a ele um não saber o que irá encontrar nas nostálgicas relações. Nostálgicas por elas serem arquitetadas em histórias que vão e voltam, como pêndulos desorganizados e compassos sinistros. Se o que virá é modificação do que já foi, então ele cai na dúvida de não saber ao que se agarrar. Se ao passado e criar comparações, se a novidade e com ela obter ineditismos. Percebes como fica prisioneiro de uma relação que está em suspenso? O que acontecerá é da ordem da esperança. E sendo esperança alimenta uma tristeza dentro dessa paixão, porque está assentada sobre uma dúvida, um medo, um não saber e um não poder.
Um espelho vazio, é isso que ele tem em suas mãos. Não tem como observar claramente o que vai acontecendo e fica nebuloso com a imagem de si e da atual relação. Se entorpece com inúmeras ilusões e desejos e afetos, ao mesmo tempo que fica na penumbra do que vive nesse agora. E as raivas e vontades, mortes, piedades, compaixões, medos, receios, ansiedades, enfim, um embolado de subjetividades vão criando um corpo monstro.
Dessa vez, pensando em seu retorno, porque monstros sempre retornam, o monstro ganhou a clara forma do conde Wladmir-empalador de corpos. Sentiu-se imerso numa relação vampírica onde sua atenção era sequestrada por uma obsessão em pensar nela. Ela, todo dia em vários momentos, ela, uma loucura, uma prisão, um tormento. Ele queria paz. E não essa tormenta toda de ficar pensando nela tanto tempo de sua vida. Mas agora, que quado foi até a cozinha pegar um copo de sangue de boi, caiu-lhe a ficha porque antes de ingerir o sangue perguntou-se afinal o que era que queria para si. E uma voz da catacumba disse PAZ, e daí pensou que tudo era muito, muito sério. O sol quase raiando. Porque ele não conseguia dizer isso á ela? E a partir do lugar de quem não se coloca na relação, ele ficava aguardando o que ela ia pedir e ia dizer e isso era, antes do sangue, uma espécie de submissão que acontece. E o sol, o sol chegando. Ele nunca deixou claro o que queria com ela. E se submeteu a ir tocando a vida por não ter outra forma conhecida de ir levando a mesma.
Ele aceitou beber o sangue e isso o aprisionou a ela. Daí o vampirismo, essa relação sem imagem no espelho, esse viver em ausência, esse constante ir e voltar, essa sedução grave que é maneira de estar não estando em si. E ele, ele hoje está aqui. Sempre esteve mas nunca reparou. Só reparou direito hoje quando foi pegar bebida na cozinha depois da noite ter ido embora. E pensou, ....” e eu?”
E eu? E o sol? O sol nascendo, eu, eu volto a fumar cigarros, o tempo carrega meus pensamentos e a fumaça abre espaço para uma espécie de matança. Algo como matar um pouco o tempo que é pesado por demais, o sol que é pesado por demais, a brasa do cigarro que queima. E agora? Se o que está fora e o que está dentro, e o que está dentro entorna badaladas de um sino que ocupa o lugar do fora anunciando a chegada do sol. Que ganha terreno para expansão do som, para expansão da voz, pra expansão do querer. E eu? Eu ao certo não sei muito bem o que quero de você. Se tão longe daqui de mim ou se tão perto de meu querer.

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