ZÉ POVÃO


SIM, disse ao início da noite. Entre o passo que advinha e o passo adiante, eu caminhava de volta para casa e em meio aos pensamentos, afetos e cenas que ia ali vendo eu ia revelando e relembrando as tantas outras passadas no transcorrer do dia de hoje. Eu estava assim , meio a flor da pele como diria o Baleiro poeta, não a ponto de chorar mas SIM dar risada tamanha era o estado de alegria que carregava. Pensei entre o fim da rua e a esquina meio escura, se era pertinente repartir isso com você, visitante. Eu juro que eu pensei muito bem antes de estar aqui. E achei um “por que não?” que faltava. Veio a ponta da vontade que faltava quando girei a chave na porta de casa e no chão haviam cartas e na tela haviam mensagens e na secretária meu pai me dizia: - você esqueceu da gente mesmo. Não esqueci não, meu pai, eu lembro de vocês todos tantas horas do dia, que não seria aqui nessa textura que o tamanho desse amor seria comportável. Mas eu decidi então, pra ver se a tônica desse discurso meio estranho que travo agora com meus pensamentos transfigurados de afetos tantos, eu decidi dividir todo esse atravessamento que insurge nas mínimas e máximas coisas nas quais percebo tantas outras coisas, e é tudo de um tamanho gigantesco que por vezes me assusta, num receio de saber se realmente suporto essa maestria estranha que a vida tem em seus rebentos espontâneos de existência. Vou assim começar de vez, de um modo que atravesse esse meio, do meio da escrita surge isso, como se fosse mais ou menos, porque nunca é mesmo do jeito que foi, mas sempre há um mais ou menos nas tentativas de dar conta, junto agora esse mais ou menos com o “porque não?” que encontrei e, acordei pela manhã, sabia que o dia teria um ritmo diferente dos demais, era um dia de grande encontro. Era um encontro, meu pai, um grande encontro entre eu, zé povão e o mundo. Tu sabes o tamanho disso? Nas ordens do relógio acordei em madrugada, tomei banho, me troquei, saí em meio a chuva guardado no guarda-chuvas que ao fim do dia esqueci na bolsa do amigo estrangeiro. Mas tenha calma que essa parte que também reparte essa narração ainda há de vir. Pois bem, que subi a serra do mar, como todo dia bom ou ruim eu faço. Cheguei ao trabalho e procurei ele. Onde andas Zé povão? Temos tempo e hora marcadas, entre contra-tempos tantos que as vezes os atropelamentos não gestados nos acometem. E lá pelas horas, quase fim do café matinal, surge ele. Ele e todos seus papéis e documentos secretamente guardados em embalagens plásticas evitando se molharem na chuva mais ou menos, e porque não dizer na quase chuvarada que ia e vinha. Disse a ele numa prepotência suposta que o tal veículo no qual iríamos ao grande encontro era o coletivo de metal eletrônico. Numa risada que só ele tem, o zé povão me disse, um : _é, troleibus em dia de chuva é uma lata de sardinha! Rumamos rua afora, de cara ele me diz: você compra um isqueiro pra mim? Pra eu não ter que ficar fritando seus ovos da paciência toda vez que precisar. Foi ai que me calei, porque ele na lata adivinhou, que na minha prepotência tosca eu pensava: hoje é dia de paciência! Porque não? Me perguntei, claro que compro, Zé povão. Se fosse um isqueiro quem fosse salvar a todos nós nos encontros que temos na vida, se fosse um isqueiro de um real que salvasse a humanidade, eu faria como prometeu sim, roubava o fogo e o daria dividindo isso tudo novamente a todos. Mas zé povão, não estava de brincadeira no dia de hoje, porque esses encontros tem no meio do caminho tanta histórias pequenas e grandes, que eu , visitante, eu não podia deixar de dividir essas com você. No ponto do coletivo no aguardo do carro-móvel, zé povão me vira e diz: O real tem mais valor. Foi minha mãe quem me ensinou o valor que o real tem. Se tem gente nessa vida que paga por um café 50 dólares, eu não pago, com 50 dólares eu compro um carro. E Zé povão entrou no ônibus, que estava apinhado de gente. Virou para mim e mais uma vez disse: _ não ria de mim nesse meio de lata de sardinhas. Disse a ele que não ria mesmo, porque sabia e muito o que é enfrentar diariamente o transporte público da cidade. E rumamos ao terminal, e todo o caminho ele foi me contando sua vida de estudos, sua vida de engenhos, sua vida eletrônica, suas máquinas e maquinações. Tamanha sua sabedoria, que eu queria ali dizer : _ Obrigado pela aula que me deu. Eu aqui, na prepotência de achar que sei falar de máquinas e móveis, nunca tinha ouvido alguém falar delas assim, com tamanha desenvoltura. Fios, fontes, correntes, pólos, registros, propriedades, jogos, luzes, acertos e erros, cargas, medidores, amperagens, voltagens, condutores, tramas, circuitos, potências, e uma infinitude de vocábulos e idéias o zé povão destravou-me na sua língua própria. Era tudo uma alegria muito grande nossa conversa. Chegamos ao destino primeiro, um papel que dizia que ele não tem rendimentos. Como assim? Não tem dinheiro algum na caixa. Fomos então ao encontro do mundo da paciência. Você, visitante, já enfrentou uma sala de espera para autorizações de viagens para passageiros especiais? Ali o tempo não passa. O tempo nem arrastado é, é um tempo de espera completamente oco. Nada se faz, nada se diz, nada acontece a não ser prestar atenção a um placar eletrônico que anuncia com um “bip” o número e o guichê correspondente. E as horas, as horas se perdem em meio a tantas caras e corpos de sofrimento. Tudo ali é forma de doença. A doença do existir humano ali está arreganhada a quem quer que seja. Mas eu fui nesse encontro na companhia de Zé povão. E o zé povão não é um qualquer. O Zé povão não é o Zé ninguém. A gente combinava nossas horas de vigia ao placar. A gente combinava nossa troca de turno do prosseguir na paciência. A gente combinava muita coisa sabe como? No silêncio e num afeto, num toque de mão, num olhar discreto, num falar bem mínimo, num falar respeitoso de conceder quando um dizia ao outro: _ Agora, é sua vez! E um entrava na grande fila, e o outro saia pra arejar as idéias. E astronaves passavam baixo pela fila de espera, e muitos olhos esbugalhavam num receio do drama coletivo recém inscrito na história da cidade. “SIM, Todo mundo tem saudade!”, disse por fim o Zé povão. Parecia que todos nós, eu, o zé povão e o mundo estávamos em vigília pelos passageiros que foram e os que ainda virão.

Comentários

Rose666 disse…
É Sr.André, assim somos afetados pelo Zé Povão. A verdadeira afetação. Aquela que nos afeta no coletivo e no suor dos suvacos.
Apesar do incomodo e do forte cheiro azedo, prefiro esta, verdaeira coletividade, a do povo aglomerado,misturado, contaminado.
Enojada,hoje, com as minhas proprias ações, fruto da afetação erudita,prepotente e onipotente . Volto a desejar neste instante sofrer apenas a contaminação do afetos do Zé Povão. Impossivel!!!não mereço este privilégio, hoje só posso ser espectadora.
Rô666

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