CARTA



Vou começar como quem não quer nada, desenhar uma história-estratégia desenvolvida em conjunto pelos usuários e pela equipe do Naps no final do ano de 2006. Diz ela de um encontro...
Um encontro, vamos marcar um encontro? Um encontro? O que é ? Um encontro segundo Deleuze (1994) “é uma experiência intensiva com afetamentos, que pode suscitar manifestação derivada, um efeito, a produção de um sentido para essa experiência; uma ficção com a realidade”.
Era uma quarta-feira,e como todas as 4as. feiras aconteceu a assembléia de usuários e técnicos. Essa é uma reunião onde são abordados todos os problemas vividos no dispositivo clínico em seu cotidiano e também são discutidas as relações de institucionalização e desinstitucionalização da vida das pessoas dentro desse serviço.
A maré não andava muito boa para o lado de todos, inúmeros problemas estavam sendo denunciados e pouca resolução estava sendo dada aos mesmos. Falta de medicações, falta de profissionais na equipe, desorganização na gerência, falta de materiais para as oficinas, enfim, várias problemáticas levantadas e pouca ou nenhuma ação resolutiva.
Eis que de dentro dessa assembléia, uma usuária tem a idéia de chamar o prefeito da cidade para um encontro, um café da manhã, um acontecimento que fizesse com que parte das angústias sofridas por todos viessem a ser ao menos escutadas por instâncias acima daquelas já acessadas.
A ela foi dado um empoderamento, de tornar palavra-carta seu pedido. A mesma juntou-se a outros usuários e redigiu uma mensagem em papel sulfite, com a letra meio torta e as linhas da escrita mais tortas ainda fazendo assim um convite ao prefeito, que o mesmo aceitasse se encontrar com aqueles que ali se encontravam.
O coletivo como um todo ouviu as palavras redigidas e apoiou o movimento da mesma, que se encaminhou até o paço municipal e entregou a simples cartinha. Foi sozinha entregar, ao mesmo tempo em que representava um pedido coletivo de ajuda.
Nessa época a chefia direta da unidade estava em férias. E o encontro marcado respeitava o tempo de retorno da mesma.
O tempo passa, quase um mês acontecimento da carta vem a resposta. Um sim foi dado, o prefeito e toda a comitiva de representantes da saúde viriam tomar café com os usuários da mental.
O que era um simples encontro, da possibilidade do prefeito tomar café com leite e comer pão com manteiga (como diariamente são servidos a todos os usuários) transformou-se numa espécie de festa e também praça de guerra.
Explico melhor. Festa visto que com esse sim, os usuários se viram extremamente potencializados em suas ações, viram que existem canais de acesso as instâncias de poder maior e que através de um pedido organizado é possível criar esferas de poder compartilhado. E o que antes seria café com leite e pão com manteiga virou bolos, sucos, pães, desejos e etc.
Contudo, ali também começou a se formar uma espécie de praça de guerra, porque a chefia começou a desconfiar da ação instalada pelos usuários, achando que os mesmo seriam incapazes de tal fato, e uma espécie de perseguição aos funcionários começou a ser feita. Afinal, quem havia preparado essa “cama de gato” para eles? Quem eram os responsáveis pelo movimento de denúncia”? Era uma denúncia? Convidar o prefeito para um café e poder abrir um campo de diálogo com a secretaria da saúde era uma denúncia? Denúncia do que? De que o SUS é feito assim? De que é possível descentralizar o poder das mãos de quem exerce o papel de chefia (seja do serviço, do programa, da região, da secretaria)? Porque tanto medo? Para que serve o medo nessas horas?
Foram dias ruins de se viver, aqueles que anteciparam a vinda do prefeito. Ruins porque a história foi tomando um rumo totalmente diferente daquilo que os usuários preconizavam.
Chegou o grande dia, as 9 horas em ponto o prefeito chega a unidade. Conversou abertamente com as pessoas, fez um discurso falando aquilo que tinha um verdadeiro cabimento para a situação, que o SUS é assim construído, que ele sabe de parte das faltas existentes, a secretaria também falou com as pessoas e todo o movimento de “praça de guerra” se desfez através de ensinamentos a todos os sujeitos envolvidos nessa trama. Os usuários viram que é possível, através de um movimento organizado acionar outras instâncias de poder. Os profissionais viram que quando o poder instituído é questionado, quebrando a lógica predominante e possibilitando a construção de espaços outros de micropolítica um desconforto se cria em seu cotidiano de trabalho, as chefias viram que seus poderes podem ser questionados e que esse questionamento não necessariamente implica na perda de poder, mas sim num movimento efetivamente democrático (afinal foi o povo quem os colocou lá), a secretária da saúde pode conhecer mais de perto o trabalho prestado por sua secretaria e pensar outras articulações possíveis (como depois aconteceu)e o prefeito pode mais uma vez confirmar nesse encontro um ensinamento que assim finaliza essa história: “loucos ou não, somos todos cidadãos”.

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