COMO FAZER SAÚDE?


A essência dessa conversa, visitante, está na busca e desenvolvimento de um processo OCUPACIONAL que possibilite divulgar a idéia de qualidade de vida, e não mais um locus profissional que está preso ao pensamento patológico e a uma intervenção nas doenças que as pessoas apresentam no decorrer da vida. Mesmo porque, vem se apontando atualmente que a compreensão predominante de saúde-doença nas práticas de saúde, estão e são, em sua grande maioria, concepções que definem o corpo enquanto um produto dos modos de como a sociedade se organizou no desenvolvimento de tecnologias que invadem o organismo e tentam desfazer ou eliminar “elementos estranhos que crescem e se reproduzem”, de maneira a produzir um corpo “são” deixando de lado outros aspectos que aparecem no adoecimento das pessoas. Tais intervenções produzem e divulgam padrões científicos, padrões de estética e padrões de vida extremamente excludentes, transformando as pessoas em consumidores implacáveis de mercadorias voltadas a um padrão ideal de saúde.
Ao mesmo tempo, esses padrões ideais apresentam deficitários meios de modificação de determinantes que contribuem para o aparecimento de saúde ou de doença nas condições de vida, de trabalho, na distribuição de renda, nos acessos aos beneficios das politicas públicas (serviços de saúde, educação e moradia), nas relações e situações de miséria e exclusão social, etc. As práticas se limitam ao patológico, são práticas que até sabem que fatores determinantes e condicionantes de saúde tem a ver com alimentação, moradia, saneamento básico, meio ambiente, trabalho, renda, educação, transporte, lazer, acesso aos bens e serviços essenciais. E que tal promoção e cuidado a saúde dependem, também, de acesso à informação, direitos sociais, organização da vida em coletivos, decisões políticas de praticar os princípios que caracterizam uma democracia – equidade, solidariedade, respeito aos direitos, justiça social- operando para o sentido de Integralidade.
Contudo, as práticas realizadas por muitos profissionais de saúde, estão voltadas, quase sempre, a medicalização do sofrimento, a hierarquização de saberes e fazeres, a inflexibilidade de condutas, a ausência de politicas preventivas, entre tantas outras questões que compõem os modos de se fazer “saúde”.
Então, visitante, gostaria de aproveitar a brecha, e começar a tecer uma textura, um texto, a partir de uma visão composta em dupla, um ponto de vista de saúde-doença e de como os acontecimentos e encontros afetam tais configurações processuais. É uma tarefa que evidencia que cada pessoa é ao mesmo tempo única, mas também participa de uma coletividade em permanente construção do grupo humano enquanto um coletivo produtor de culturas. Pois então, vou correr aqui o risco de tomar uma conversa concedida por um usuário enquanto exemplo de outras possibilidades que podem ser OCUPADAS. Porque penso que em sua simplicidade encontra-se parte do caminho a que devemos tomar enquanto profissionais, devemos ser uma espécie de tradutor de inúmeras culturas vividas pelas pessoas em seus processos de enfrentamento do adoecimento, em suas buscas por ajuda e entendimento do que está ocorrendo com cada uma delas nos diferentes momentos da vida, nos quais são capazes de pensar e assumir seus atos e decisões.

'Saúde? É quando a gente está bem sem que a família briga com a gente e nem a gente briga com a família” . (sic)

Essa foi uma das falas que me chamou mais atenção. Veio de um usuário que constantemente se encontra envolvido em discussões familiares que envolvem diferentes temas da sua condição de existência humana, sendo que em tais discussões seus problemas e fragilidades ganham mundo atravessando não só,“suas margens de segurança”, mas também as paredes de seu quarto, de sua casa, o quintal, os muros, os vizinhos, a rua, o bairro, a cidade...
As concepções do conceito de saúde-doença implicam primeiramente, na conscientização de que esse é um processo. E por ser um processo está instalado num dinamismo que envolve situações relacionais afetivas, situações sócio-econômicas, subjetividades, produções culturais, estilos de vida, construções ideológicas ao longo da história humana, visões de mundo religiosas, aparatos e saberes técnico-científicos, além das práticas instituídas do cuidado de si (sejam essas técnicas ou populares).
É interessante notar que, em parte, ao tratar da família enquanto um agente situacional que faz o usuário “definir saúde”, é válido reparar que essa também pode ser vista enquanto um determinante para o mesmo se “sentir doente”. Nota-se que o mesmo institui a família enquanto uma dimensão valiosa e central no seu conceito de saúde. Sentindo assim que a família , constituinte de seu circulo social, está presente em sua rede de relações e convivência, mostra desempenhar um papel importante. Aqui fica evidente o lugar ocupado pela Cultura Familiar e sua relação com os cuidados em saúde e o adoecer.

“Doença é quando a gente perde o controle”(sic)

Perder o controle tem a ver com entrar em crise, no caso do usuário uma crise psicótica, instante no qual o mesmo se vê destituído de parte de seu poder de negociação com seus contemporâneos, instalando-se em um modo de vida gerador de situações de iniquidade. Posto que o adoecimento não é uma escolha do indivíduo, e tal condição de vida está , de certa maneira, imposta a essa pessoa. A doença é configurada enquanto um despotencializador de uma saúde-frágil, em cujo movimento da vida remove parte do “ poder de cada pessoa em tolerar e compensar as agressões do meio. Saúde enquanto, capacidade de cada um, de enfrentar situações novas, como a margem tolerância (ou de segurança) que cada um possui para enfrentar e superar as adversidades do seu meio” ( p. 40).
Assim, nota-se que tanto a saúde, quanto a doença, não são conceitos definitivos nem opostos, mas referem-se a sobrevivência, a qualidade de vida e a produção da própria vida. E dependem do local onde se está, dos tempos, dos contextos e das tensões em que cada indivíduo está inserido. Pensar em intervenções, frente a esse conceito de doença apresentado por esse usuário do serviço de saúde mental no qual trabalho, provoca no corpo técnico da equipe de saúde um questionar referente aos conhecimentos centrados exclusivamente nos componentes objetivos e biológicos do corpo. Pois faz-se preciso aliar-se a uma compreensão mais ampla dos conceitos de doença e de saúde.
É sabido que um dos possíveis conceitos de saúde, e com certeza um dos mais proeminentes, provem do pensamento científico que valida e dá suporte as intervenções que os saberes técnicos podem sugerir como artifícios para suportar seus conhecimentos e produções.
“ 'Sugerir': é necessário que esse 'saber' se disponha a aceitar que cada pessoa o instrua a respeito daquilo que somente ela está capacitada a dizê-lo” (p. 40)

“Tudo afeta a saúde das pessoas, coisas boas e coisas ruins” (sic)

Nessa fala é possível ver que saúde é um conceito amplo, complexo, integral, singular, com dimensões subjetivas, presente em relações que envolvem dor e prazer, escapam a medições, instauram verdades do corpo, e apontam para visões não restritas a um valor universal.

Texto base: Saúde doença: dois fenômenos da vida. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Curso de formação de facilitadores de educação permanente em saúde: unidade de aprendizagem – análise do contexto da gestão e das práticas de saúde./ Brasil. Ministério da Saúde. Rio de Janeiro: Brasil. Ministério da saúde/ FIOCRUZ, 2005.

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