DA ATIVAÇÃO E/OU IARA CANTOU SIM

por:
IARA FLÁVIA AFONSO GUIMARÃES
ANDRÉ (MIOLO) NUNES
(FOTO: José Oliveira,2004)

Eu sou a sereia que canta, destemida IARA.
(Caetano Veloso. Reconvexo)


“Afetações e não saber” assim, naquela tarde de 2005, que Iara Flávia Afonso Guimarães, terapeuta ocupacional, que atualmente desenvolve seu trabalho em Uberlândia-MG, na AACD e na UTI adulto de um Hospital, ecoou uma canção-começo-própria ao trazer aos integrantes do Coletivo Terapia Ocupacional e Produção de Vida parte de suas idéias sobre ATIVAÇÃO. Muito tempo se passou, visitante, fiquei com aquela idéia latejando na cabeça. Faz pouco tempo que a gente pode voltar a se comunicar, e parece tão engraçado o que te conto agora, mas foi mais ou menos assim, ontem, assim que acabei de postar, Iara cantou um SIM, legível para a possibilidade de trazer até aqui parte de sua composição. Eu enviei o seguinte e-mail a ela:


Buenas noches, buenas tardes, ou buenos dias... sei lá eu em que horas esse aqui chegará a vc, mas o que importa é que seja buenas ou buenos... Iara, quem te escreve é andré que estudou contigo no grupo da quarentei no ano de 2005... e o tempo passa mesmo, tem como segurar a oia não.pois então, estou aqui porque naum sei se a Mari chegou a conversar contigo que todos esse anos de estudo em coletivo foram rumando para a construção de uma idéia que pudesse agrupar e ou agenciar as diversas etapas do trabalho que vem sendo feito por todos nós que temos um pé em Botucatu e uma aliança com o pensamento-criação da Mariângela Quarentei.Bom, tantas aprendizagens fizeram com que eu aglutinasse isso numa fórmula-escrita física-matemática que levou o nome de maquino-ativação. Na real é uma máquina no sentido esquizo-analítico, e que encontra ressonância com o pensamento do Marcus Vinícius e a esquizo-ocupação, com a Eliana Furtado do Rio Grande do Sul e a “arqueologia dos saberes-fazeres”, com a Elisabeth Lima da T.O USP., e claro com o jeito único que a Mariângela Quarentei tem de compor em coletivo.Quando fui nomear a máquina, que a princípio nomearia de maquinoatividade, lembrei-me de uma idéia brilhante trazida por você em uma das tardes em que pudemos nos encontrar lá em Botucatu. Era a idéia de ativação, que vc trouxe a todos nós com uma qualidade singular, única de compartilhar entre todos.Bom, Iara, também sou adepto do compartilhar as idéias com as pessoas porque acredito que o novo só surge quando a gente se põe a circular aquilo que em nós tem algum formato e que por ter ganho esse formato necessita de mover-se para que algo possa somar mais forças.Esse ano apresentei ao pessoal do coletivo um desenho da máquina e como não lembrava seu nome inteiro acabei não escrevendo, mas comentei com Quarentei que a idéia tinha surgido de ti e que gostaria de poder conversar sobre ela, com você, e tb, quem sabe, poder compor algo. Por conta desses inúmeros atravessamentos e correria amalucada, acabei não tendo tempo suficiente de entrar em contato. Não sei se contigo a coisa funciona assim e talvez essa conversa tb sirva para esclarecer como se dá seu processo de criação, mas comigo é mais ou menos assim: tem certas épocas do ano em que me ponho a escrever intensamente, sei lá eu porque, vai ver fico ativado! e nessas épocas agora retomei as coisas escritas e a idéia da ativação estava presente numa parte primordial da máquina.Bom, não tenho pretensões de fazer mestrado nem ir para a academia e resolvi abrir um blog pra poder circular as idéias dessa composição, porque creio que assim fazendo tb esteja ajudando a por em movimento esse jeito bastante próprio que é o da Quarentei estudar e possibilitar a gente compor.Bom, voltando, criei um blog de nome maquinomovel, como se fosse uma prateleira onde esses pensamentos podem ser acessados pelas pessoas interessadas . E nesse momento do blog estou rumando para a idéia da maquinoativação. Gostaria então de te propor uma visita lá e que vc dê uma olhada.se curtir gostaria de conversar contigo sobre a idéia de incluir lá parte de sua idéia colocando seu nome inteiro como a pessoa dentro desse coletivo que construiu esse jeito de observar as atividades e os processos de T.O..O que acha? Faz sentido para você?Bom, então deixo aqui o endereço para vc ir visitar o maquinomovel:http://maquinomovel.blogspot.com/e se vc quiser entrar nessa empreitada conosco será muito, muito bem vinda mesmo.fico no aguardo de sua resposta, qualquer que seja, como: andré vc tá maluco, andré pode ser sim, andré vc tá viajando na maionese, enfim...Grande abraçosaude e força pra tiPAZandré nunes


E ontem, assim que postei sobre um outro modo de se olhar para a ativação, recebi a resposta dela;


Que imenso prazer acessar o seu blog (é assim mesmo que fala? não entendo muito de internet) e ver o meu nome lá escrito...
não recebi nenhum email seu... olha aí que deve ter alguma coisa de errado no endereço... só fiquei sabendo que vc tentou falar comigo pq li que fazia 5 dias que vc me esperava "cantar"...
vou te descrever minha sensação agora... eu to com coceiras no corpo todo depois de ler o que vc escreveu... apesar de não conseguir acompanhar bem a forma do seu pensamento, ver que fiz parte deste trabalho que tá se formando foi coçante (do verbo coçar)
tava lendo, te vendo e pensando... Deus, de onde veio esse "menino", em que maquinomovel ele embarcou pra aterrissar aqui na Terra... vc me intriga... aí tava lá babando no escrito, nos desenhos e feliz por ter feito parte do mesmo grupo e de repente, não mais que de repente vejo meu nome e continuando a leitura, vejo um pedido de permissão pra compartilhar a idéia de ATIVAÇÃO com as pessoas...
é claro que vc pode colocar no blog!!!! o prazer é todo meu!!!!
to com pó de mico no cérebro!!!!
fiquei com vontade de te mandar o que escrevi pro laboratório da mari no último encontro... vai ser bom dividir com vc...
quanto a compor junto, o prazer também é todo meu...
Fica com Deus!
Boa noite!
Iara Flavia Afonso Guimarães

Então, visitante, frente a permissão, vou por pra circular como se fosse uma entre-vista, aquilo que Iara Flávia Afonso Guimarães, nos ensinou.
Mas Iara, para você, o que mais faz sentido na Terapia Ocupacional? Ela responde: “Para mim, Terapia Ocupacional é MOVIMENTO, são percursos e processos, porque ao invés da gente ficar sempre se referindo a ATIVIDADE,e se T.O tem haver com MOVIMENTO, eu fico a me perguntar, COMO se põe a atividade em movimento?” Iara ficou a pensar sobre as palavras, Iara deu-se um tempo ao silêncio do pensar. silêncio e canto, silenciação e cantação... e naquela época ela pode logo nos dizer: “_ Por exemplo, quando a gente pega uma palavra terminada em ação, essa palavra pode denominar um movimento. Porque ao invés de atividade... porque não ATIVAÇÃO?” E continuou: “_ Quando dou importância a algo que não é intelectual, sabe? Eu fico meio que admirando isso, de como é bonito se relacionar com algo que com o FAZER, o cuidado de conseguir FAZER COM GOSTO, isso é , é como RE-CRIAR essa ação. É uma vontade criadora, é uma vontade de potência. É uma mistura CRIADORA>PRODUZIR O NOVO. ADAPTAÇÃO> CONFORMAR A OUTRA QUE JÁ ESTAVA ALI. CONSERVAÇÃO > MANTER O MESMO. Mas isso tudo é sempre, por mais que pareça igual, é diferente... E se não sabe a hora, espera a hora de saber... mas aí eu me pergunto: o que a produção da ação de uma pessoa dispara, ativa? ATIVIDADE <> AFETA/ATIVA<> INDIVÍDUO/SUJEITO... ISSO É UMA CRIAÇÃO. Um modo de pensar em como ativar as ações dos sujeitos.”
E lendo o livro ARTISTAS DO INVISÍVEL, de Allan Kaplan :http://www.fonte.org.br/news/abril06/entrevista.htm , Iara Flávia percebeu que essa criação, era ainda segundo ela, “ uma espécie de RUPTURA, uma RUPTURA DE NOVA AFETAÇÃO, e dessa vez uma possibilidade coletiva.
Não mais a pessoa, mas sim
AS pessoas e suas atividades,
afetos , ativação
dardar, dá certo
sair com outro sentido e os lá de fora
reconhecem o MOVIMENTO
o que cria a vida? Relação com a vida.”
E assim como ela mencionou no e-mail, enviou o que escreveu. E tem muita potência de vida. potência essa que com sua permissão cantada, compartilho agora com você, visitante.

ESTAS PALAVRAS FORAM CRIADAS A PEDIDO DA MARI, TAMBÉM FICO PENSANDO EM QUE MAQUINOMÓVEL ELA EMBARCOU PRA DESEMBARCAR AQUI ENTRE A GENTE... E QUE COM TODA SUA PERCEPÇÃO ME PEDIU PRA ESCREVER SOBRE “O QUE TEM ABRIGO NO SILÊNCIO”

No silêncio tem acordo, só em silêncio a gente pode entrar em acordo com o que nos acontece... com o que nos é dito e com o que vamos dizer... é o silêncio de quem abriga uma fala do outro, o silêncio que precede e dá forma ao que é dito... O silêncio abriga e por vezes pode também aprisionar o que deveria ser desabrigado...
O silêncio nos equilibra se for equilibrado... nos afasta e nos aproxima do outro. Pode ser um pedido de “vamos conversar” ou de “me deixa sozinho”. São tantos silêncios... pode ser um silêncio solitário ou um silêncio de estar junto. Alguns silêncios dispensam palavras porque são em si as palavras que não podem se expressar de outra forma... quantos dizeres se diz com um silêncio... o silêncio tira a voz mas evidencia o olhar, o toque, o movimento... porque o silêncio nunca tá sozinho... Resta saber ler o silêncio... porque em silêncio se ama, se briga, se conversa...
Tem silêncio cheio, vazio, branco, colorido, grande, magro, alegre, triste, forte, fraco e de muitos sabores... uns são muito barulhentos já outros muito silenciosos.
O silêncio abre espaço pra se criar, inventar... o silêncio dá um tempo pro pensamento e também um tempo ao pensamento... acho tão difícil silenciar o pensamento... ficar em silêncio é mais fácil, difícil é estar em silêncio...

UM POUCO DA T.O. NO HOSPITAL... (A PEDIDO DA MARI, MARIANGELA QUARENTEI PRO NOSSO DELICIOSO LABORATÓRIO DE IDÉIAS DO GRUPO DE PRODUÇÃO DE VIDA)

È ser torcida, mais um pra acreditar que vai dar certo, pra confiar junto... e comemorar quando o paciente sai de alta. É no meio do corredor encontrar a D. Maria que te dá um abraço e diz que estava te procurando pra dar esse abraço. È ser pombo correio e falar no ouvido do paciente em coma o recado que a irmã mandou. É ser dama de companhia e ir até a capela chorar a morte de um irmão com alguém que você encontra pela primeira vez na vida. È ser professora de caligrafia e fazer o nome em pontilhado pra senhora passar por cima e ao mesmo tempo ser telespectador pois o cuidado com que ela dobrou o papel com seu escrito e guardou por baixo da blusa, como quem esconde de qualquer perigo a chave de um cofre, era das cenas mais lindas de cinema. É ser adivinho e ver num leve movimento de mão um pedido para escrever. É ser costureira e fazer fuxico. É ser como um velho amigo e apresentar o sr. I. para seu cuidador e dizer “ I., mas pode chamá-lo de B.” (o paciente estava em coma mas a esposa contou que é assim que gosta de ser chamado). E por estar em hospital, é mesmo que ser um vírus... que passa por alguns e fica em outros.
SAUDAÇÕES A TODOS.
IARA FLÁVIA AFONSO GUIMARÃES (é esse seu nome inteiro!), SAÚDE, FORÇA E PAZ A TODOS NÓS, VALEU!!!!!
grande salve
andré (miolo) nunes

Comentários

Anônimo disse…
GOSTEI MT!!

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