DA MÁQUINA AO MITO





Pois é, visitante, eu aqui nesse instante de apresentação da idéia da maquinoativação – a máquina do Ø, acabei por linkar tal história a um mito que em parte reforça a idéia do Híbrido, já disposta ao seu acesso aqui nesse blog. http://maquinomovel.blogspot.com/2007/07/hbridos-compostos-onde-o-entre-se-faz.html
Visitante, vamos passar então a algumas reflexões feitas por Luiz Gonzaga Pereira Leal, em seu livro: Terapia Ocupacional: Guardados de gavetas e outros guardados, alguns questionamentos sobre aspectos míticos do ofício em Terapia Ocupacional que dão a nós uma espécie de provocação para ir ao mundo em busca de outros mitos que nos valham alguma forma de entendimento dessa profissão que propomos, cotidianamente, ocupar. Pontua LEAL, que um mito traz em seu bojo um mistério, um enigma, uma complexidade, uma significação. E através da análise do escrito de outros pensadores, ele configura parte de uma revelação. Dizem eles que:
“ O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares.”- Mírcea Eliade.
“...mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se.” Roland Barthes.
“ O rito possui um poder de suscitar ou, ao menos, de reafirmar o mito” Georges Gusdorf
“ O mito é o nada que é tudo” Fernando Pessoa.
Gonzaga Leal, então assim nos “provoca” uma espécie de busca pelo novo ao escrever em seu livro :
“ Através do rito, o homem se incorpora ao mito, beneficiando-se de todas as forças e energias que jorraram nas origens. A ação ritual realiza no imediato uma transcendência vivida. O rito é a práxis do mito. É o mito em ação. O mito rememora, o rito comemora. A reatualização e renovação de atos rituais conduzem, o homem a meditar sobre o que os deuses e os heróis fizeram nas origens. Portanto, é do conhecimento dos mitos que se dá a aprendizagem acerca do segredo das coisas.
Nesse sentido fico a imaginar que refletir sobre os mitos da Terapia ocupacional é trilhar um caminho que conduza a pensar, elaborar e tentar decifrar estes mitos, com vista à construção de novos rituais” Luiz Gonzaga Leal, In: Terapia Ocupacional: Guardados de gavetas e Outros guardados. p.19.
Frente a esse escrito, visitante, o autor nos aponta estratégias possíveis para execução de passagem, sejam elas míticas sejam elas rituais, para conformação da profissão enquanto um campo de saber que questiona-se constantemente. E que ao assim fazer-se, pode obter outras tantas aproximações com fragmentos presentes no amplo campo da Cultura. Cultura entendida aqui , não como aquele saber hierarquizado e dicotômico que tenta estabelecer bases de diferenciação entre natureza e cultura, etc. Mas sim, cultura enquanto algo vivido, algo que remete ao universo das práticas humanas, o universo cultural de cada um. Há tempos, visitante, o Coletivo de Estudos Terapia Ocupacional e Produção de Vida, articulado que a terapeuta ocupacional Mariângela Quarentei promove em Botucatu-SP (e que as vezes migra a Gothan-Sampa-SP), vem apontando que nós, terapeutas ocupacionais, somos profissionais das áreas de Cultura ( saúde, educação, reabilitação, questões sociais, etc.) e que por assim sermos somos detentores de uma linguagem própria que modela e estabelece uma visão particular de mundo. Uma vez que nossos signos linkados
[Signo é entendido aqui como Lotman constrói, segundo Irene Machado, uma semiótica sistêmica. A experiência humana se traduz em signos, um imenso sistema de signos: a cultura. Esta organiza o processo da vida em sociedade criando as regras imprescindíveis à tradução de informações, que são armazenadas ou reinterpretadas quando novas demandas surgem num determinado grupo social. Em outras palavras, a cultura é um sistema de armazenamento, processamento e transferência de informação. ]


nessa composição não representam uma realidade preexistente, mas sim, criam efetivamente essa realidade.
Pois bem, visitante, uma vez, num seminário do Coletivo T.O e Produção de vida, pudemos contar com a presença de Leal em nosso ciclo de Estudos. Lá perguntei ao mesmo, após ler seu livro, quais eram os novos mitos que a Terapia Ocupacional apontava na contemporaneidade. Ele simplesmente me respondeu que: “ um mito é uma espécie de história que nos fazem acreditar.”.
E eu fiquei com aquilo nas idéias, porque já tinha uma história traçada com o Híbrido, e tentava também articular outras que pudessem incrementar a composição maquínica.
Eis que nessas de navegar, melhor dizer surfar-nadar, resolvi trazer até você , visitante, uma idéia que venho tendo a um certo tempo, idéia essa que reforça meus achismos e literatura barata disposta aqui.
O Mito que te apresento, e que também está presente na Terapia Ocupacional é o mito do CIBORGUE.
Preste atenção ao que aponta para esse pensamento:
1)A Terapia Ocupacional estabelecida nos processos de habilitação e reabilitação trabalha com tecnologias assistivas desde a origem de sua constituição. Veja se isso, pesquisa de ponta, não te remete a T.O histórica que "reabilita mãos": http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13300.shtml


2) A Terapia Ocupacional é uma profissão eminentemente feminina, havendo poucos homens em seu corpo de trabalho. E por haver tantas mulheres, encontra no feminismo uma força constituinte.
Manifesto para ciborgues: ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX http://www.comciencia.br/resenhas/2004/10/resenha2.htm


A aproximação da idéia está feita, visitante, nesses inúmeros links postados. A cada um cabe a tentativa de mapear seus trajetos. Aqui deixo inscrito uma parte desse mapa. Cabe a você, visitante, executar o rito de passagem ao mito, ou vice versa.
Saudações
andré nunes.


Blog, uma recomposição do humano. Transmissão híbrida de circuitos nervosos e conexões digitais. O aço e a carne dividem espaços. Chips comandam o que outrora era orientado por uma massa cerebral. Sintético e natural: um jogo, um diálogo. A tentativa de suprir toda e qualquer necessidade criada pela não existência (ou pela perda momentânea) de um sentido, um órgão, de pontos de vista. Modificações perceptíveis, alterações necessárias. Reabilitações.



o conceito de ciborgue tal como explorado em alguns autores, fornece uma metáfora poderosa de uma personagem que escapa a distinções tão comuns como humano/máquina ou natureza/cultura, difundidas em nosso pensamento, ao mesmo tempo em que nos ajuda a compreender um mundo onde tais distinções parecem fazer cada vez menos sentido.



As tecnologias de comunicação e as biotecnologias são ferramentas cruciais no processo de remodelação de nossos corpos. Essas ferramentas corporificam e impõem novas relações sociais para as mulheres do mundo todo. As tecnologias e os discursos científicos podem ser parcialmente compreendidos como formalizações, isto é, como momentos congelados das fluídas interações sociais que as constituem, mas eles devem ser vistos também como instrumentos para a imposição de significados. A fronteira entre ferramenta e mito, instrumento e conceito, sistemas históricos de relações sociais e anatomias históricas de corpos possíveis (incluindo objetos de conhecimento) é permeável. Na verdade, o mito e a ferramenta são mutuamente construídos. (Haraway, 2000:70).
Híbrido de máquina e organismo, o ciborgue simboliza a ruptura e a confusão dessas fronteiras e pode ser apropriado criticamente para se fundar uma nova política.
http://www.comciencia.br/resenhas/2004/10/resenha2.htm


Texto-base:
Reflexões em torno de aspectos míticos da Terapia Ocupacional, In: Terapia Ocupacional: Guardados de gavetas e Outros Guardados, Luiz Gonzaga Pereira Leal, Recife, 2005 : http://www.gonzagaleal.com.br/

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