DA MÁQUINA ÀS MÁQUINAS DESEJANTES

Boy with machine
Richard Lindner
óleo sobre tela, 1954

Hm,Hm! Suncê, ish...Ê, ê... Que saúdo os mizifi visitante, ish, na ida e na vorta do verso e reverso dessa coisa maquinária toda, que espia essa aventurança aí, que o que foi que fez cruzá, nas onda dos destino, e na cabeça do mizifi miolo, dois caboclo de nome complicado, de lá de fora. Tal de Deleuze e o otro Guattari, será os nome assim?ish... Que suncê, mizifi visitante, suncê me descurpe, se escrevo os nome errado, que também nunca antes tinha ESQUIZOGRAFADO, essa coisa que assompraro os tar caboclo na minha cachola. Que sou cavalo sem muitas aventura pros lado dos estrangeiro, mas sei conversá direito com os isprito que são daqui, da terra nossa, quando tempo atrás , e foi... Recebi uma tal mensagem dos tar irmão Andrade. Que me expricaro que em tempos bem antes, houve nessa terra aqui um tal dum movimento chamado complicado também. Espia o nome: ANTROPOFÁGICO. Coisa bunita! E veja só, mizifi visitante, que uma cois tem haver com otra, mas hoje te explico isso nãu, senão complico é mais ainda. Vou passar então pra suncê a tal mensagem deixada pelos dois caboclo franceis. Se suncê não crê neu, sarta lá pro fim dessa carta, e confirma todas palavra de uma outra maneira, mais classuda, isso garanto. Taí intão o que me foi dito e o que fiz, foi só esquizografá:
“ ... o que há por toda parte são mas é máquinas, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas com as suas ligações e conexões. Uma máquina-órgão está ligada a uma máquina-origem: uma emite o fluxo que a outra corta... é assim que todos somos 'bricoleurs' cada um com as suas pequenas máquinas. Uma máquina-órgão para uma máquina-energia, e sempre fluxos e cortes...Algo se produz: efeitos de máquinas e não metáforas...Tudo é máquina; Máquinas celestes, as estrelas... Barulho ininterrupto de máquinas...Ser uma máquina clorofílica ou de foto-síntese ou, pelo menos, fazer do corpo uma peça de tais máquinas. Lenz colocou-se para cá da distinção homem-natureza... Não vive a natureza como natureza, mas como processo de produção. Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um processo que os produz um no outro, e liga as máquinas. Há por todo o lado máquinas produtoras ou desejantes, máquinas esquizofrênicas, toda a vida genérica: eu e não-eu, exterior e interior, já nada querem dizer... o Édipo supõe uma fantástica repressão das máquinas desejantes... dado um determinado efeito, qual é a máquina que o pode produzir? E, dada uma máquina, para que é que ela serve?...O que o esquizofrênico vive especificamente... é... a natureza como processo de produção. E o que é que aqui significa processo? ... Esta relação homem-natureza, indústria-natureza, sociedade-natureza, condiciona, na própria sociedade, a distinção de esferas relativamente autónomas a que chamamos 'produção', 'distribuição', 'consumo'. ... a produção é imediatamente consumo e registro, o consumo e o registro determinam diretamente a produção, mas determinam-na no seio da própria produção. De tal modo que tudo é produção: PRODUÇÃO DE PRODUÇÕES, de ações e de reações; PRODUÇÃO DE REGISTROS, de distribuições e de pontos de referência; PRODUÇÃO DE CONSUMOS, de volúpias, de angústias e dores. Tudo é produção; os registros são imediatamente consumidos, destruídos, e os consumos diretamente reproduzidos. É este o primeiro sentido do processo: inserir o registro e o consumo na própria produção, torná-los produções de um mesmo processo... a indústria deixa assim de ser entendida numa relação extrínseca de utilidade para o ser na identidade fundamental com a natureza como produção do homem e pelo homem...o homem como...aquele que é tocado pela vida profunda de todas as formas e gêneros, o encarregado das estrelas e até dos animais que não pára de ligar máquinas-órgãos a máquinas-energia... encarregado das máquinas do universo. É o segundo sentido de processo; homem e natureza não são dois termos distintos, um em face do outro, ainda que tomados numa relação de causação, de compreensão ou de expressão (causa/efeito, sujeito/objeto, etc.) , mas uma só e mesma realidade essencial: a do produtor e do produto. A produção como processo não cabe nas categorias ideais e forma um ciclo cujo princípio imanente é o desejo. É por isso que a produção desejante é a categoria efetiva de uma psiquiatria materialista que entende e trata o esquizo como homo natura. Com uma condição, no entanto, que constitui o terceiro sentido de processo: este não deve ser tomado como um fim, nem deve ser confundido com a sua própria continuação até ao infinito. O fim do processo, ou a sua continuação até o infinito, que é precisamente a mesma coisa que a sua paralisação bruta e prematura, é a causa do esquizofrênico artificial, tal como o vemos no hospital, farrapo autístico produzido como entidade... a esquizofrenia é como o amor: não existe nenhuma especifidade ou entidade esquizofrênica, a esquizofrenia é o universo das máquinas desejantes produtoras e reprodutoras , a universal produção primária como 'realidade essencial do homem e da natureza'.
As máquinas desejantes são máquinas binárias , de regra binária ou regime associativo; uma máquina está sempre ligada a outra. A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva: 'e', 'e depois'... É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que se lhe une, realizando um corte, uma extração de fluxos (o seio/a boca). E como a primeira, por sua vez está ligada a outra relativamente a qual se comporta como corte ou extração, a série binária é linear em todas as direções. O desejo faz constantemente a ligação de fluxos contínuos e de objetos parciais essencialmente fragmentários e fragmentados. O desejo faz correr, corre e corta... fluxos... que são produzidos por objetos parciais, sempre cortados por outros objetos parciais que, por sua vez, produzem outros fluxos, que são ainda re-cortados por outros objetos parciais. Qualquer 'objeto' supõe a continuidade de um fluxo, e qualquer fluxo a fragmentação de um objeto. Não há dúvida que cada máquina-órgão interpreta o mundo inteiro a partir do seu próprio ver-o falar, o ouvir, o cagar, o foder...Mas há sempre uma conexão que se estabelece com outra máquina, numa transversal onde a primeira corta o fluxo da outra ou 'vê' o seu fluxo cortado.
A ligação da síntese conectiva, objeto parcial-fluxo, tem, portanto, uma outra forma: a do produto-produzir. O produzir está sempre inserido no produto – é por essa razão que a produção desejante é produção de produção, tal como qualquer máquina é máquina de máquina...O esquizofrênico é o produtor universal. Não se pode distinguir o produzir e seu produto; ou, pelo menos, o objeto produzido leva o seu aqui para um novo produzir...A regra de produzir sempre o produzir, de inserir o produzir no produto, é a característica das máquinas desejantes ou da produção primária: PRODUÇÃO DE PRODUÇÃO. Produzir, produto, identidade produzir-produto... é essa identidade que constitui um terceiro termo na série linear: enorme objeto não diferenciado. Tudo pára um momento...”
Deleuze e Guattari.
Texto base:
O ANTI- ÉDIPO, Capitalismo e esquizofrenia. Gilles Deleuze e Felix Guattari. Portugal: Assírio & Alvim, 1966

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