DO MITO À MÁQUINA


(Infinitivos, técnica mista, andré nunes,2006)

Partimos desse ponto, posto ontem a você, visitante, no qual expusemos uma forma de nos situarmos no mundo via um mito, que não é só uma história, porque se assim o fosse perderia por completo sua força. Vou fazer então um grande apanhado-cópia (visto que o texto o qual dispomos não tem como ser linkado de outra forma) de temas expostos por ARANHA E MARTINS, e cujo texto base você encontra mapeado no final dessa textura aqui.
Um mito, para muitos, é um modo ingênuo, fantasioso, anterior a qualquer reflexão crítica que serve para explicar parte de fenômenos naturais e construções culturais. O mito é pois, uma primeira fala sobre o mundo, uma primeira atribuição de sentido ao mundo, sobre a qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel, e cuja função não é explicar a realidade, mas acomodar o homem ao mundo. O mito primitivo é sempre um mito coletivo, sobre a qual a sobrevivência de um grupo deve ser assegurada.
Com o desenvolvimento do pensamento científico a partir do século XIV, e com o Renascimento, o pensamento crítico e reflexivo ocupou o lugar do conhecimento condenando a morte o modo mítico de nos situarmos no mundo. No século XIX, o positivismo , cujo fundador foi o filósofo francês Augusto Comde, explicou a evolução da espécie humana em três estádios: o mítico (teológico), o filosófico (metafísico) e o científico. Sendo esse último coroado como superior aos outros, mas também como o único válido para se chegar a verdade.
Assim razão e mito se opuseram e o positivismo de seu lado empobreceu a realidade humana. O homem moderno , tanto quanto o antigo, não é só razão, mas também afetividade e emoção. Se a ciência é importante e necessária à nossa construção de mundo, não pode oferecer a única interpretação válida do real. Ao contrário, se assim fizer, a própria ciência pode virar um mito, quando somos levados a acreditar que ela é feita à margem da sociedade e de seus interesses, que mantem sua objetividade e que é neutra.
É certo que a ciência mostrou-se capaz de compreender a realidade de forma mais rigorosa, tornando possível fazer previsões e transformar o mundo. E a medida que assim foi fazendo, passou a desprezar outras abordagens, não só como o mito, mas também a religião, o bom senso da vida cotidiana, a vida afetiva, a arte e a filosofia. A confiança total na ciência valoriza a racionalidade científica, como se fosse a ÚNICA forma de resposta ás questões que o ser humano se faz e a ÚNICA capaz de resolver os problemas.
Como decorrência do cientificismo, desenvolveu-se o mito do especialista, cuja consequência é a TECNOCRACIA: apenas teria capacidade de decisão o técnico competente; E portanto, SABER É PODER.
A técnica é um poder cujas consequências nem sempre estão muito claras no início do processo, por isso é válido lembramo-nos da precaução a que fins a que ela se destina. O técnico não pode ser apenas técnico, ele deve ser capaz de refletir a respeito dos valores que envolvem a aplicação da técnica. O primeiro sonho do maquinismo foi a liberação do homem das tarefas mais árduas e repetitivas. Hoje temos batalhões de pessoas operando ordens mecanicamente. O que se tem visto, ainda hoje, é que os frutos da tecnologia não tem sido distribuídos de forma igual entre os homens. A divisão do trabalho em linhas de montagem, fez com que os trabalhadores perdessem seu saber técnico, cabendo somente executar o que foi concebido em outro setor, separando assim concepção e execução do trabalho. Em decorrência disso, surge a figura do técnico especialista, de saber qualificado, como engenheiros, administradores e porque não dizer também artistas plásticos e terapeutas ocupacionais(?).
O maquinomovel e a maquinoativação que te apresento, visitante, é fruto do imbricamento entre homo sapiens e homo faber. O homo sapiens enfatiza as características humanas de conhecer a realidade, de ter consciência do mundo e de si mesmo. O homo faber é da capacidade de fabricar utensílios, com os quais se torna capaz de transformar seu meio. Ambos são aspectos da mesma realidade humana. PENSAR E AGIR SÃO INSEPARÁVEIS, isto é, o homem é um ser técnico porque tem consciência, e tem consciência porque é capaz de agir.
Gutemberg, você o conheceu? Quando inventou, no século XVI, os tipos móveis, a imprensa passou a desempenhar papel decisivo na difusão das idéias e na ampliação da consciência crítica, o que alterou por completo o conhecimento que o homem tinha e tem do mundo e de si mesmo. No século XX, aperfeiçoou-se o telefone, o telegrama, fotografia, cinema, rádio, televisão, comunicação via satélite, computadores e internet... certamente isso tudo vem mudando a estrutura dos pensamentos.
São utensílios, máquinas e autômatos. Três “etapas” fundamentais do desenvolvimento da técnica. No início o utensílio é um prolongamento do corpo humano. Quando deixa de usar apenas a energia humana, a técnica passa ao estádio das máquinas pela utilização de outras energias ( hidráulicas, elétricas, atômicas, por exemplo). O estádio mais avançado, o autômato imita a iniciativa humana, porque não repete “mecanicamente” as funções preestabelecidas. A partir de certos programas, é possível grande flexibilidade nas “tomadas de decisões”, o que aproxima as “máquinas pensantes” do trabalho intelectual humano, já que são capazes de provocar, regular e controlar os próprios movimentos de pensar e agir
“ a máquina é o instrumento que atua por si mesmo e por si mesmo produz o objeto.(...) no artesanato o utensílio ou ferramenta é somente suplemento do homem. Neste, portanto, o homem com seus atos “naturais” continua sendo o ator principal. Na máquina, ao contrário, passa o instrumento para o primeiro plano e não é ele quem ajuda ao homem, mas ao contrário: o homem é quem simplesmente ajuda e suplementa a máquina. (...) o que um homem com suas atividades fixas de animal pode fazer, sabemo-lo de antemão: seu horizonte é limitado. Mas o que podem fazer as máquinas que o homem é capaz de inventar é, em princípio, ilimitado.” ( Ortega e Gasset)
Isso que estou prestes a te apresentar é Uma fórmula, e não a fórmula, mas UMA que irrompa tantos pensamentos e ações quantos forem possíveis,
“Na verdade, os conceitos designam tão-somente possibilidades. Falta-lhes uma garra, que seria a da necessidade absoluta, isto é, de uma violência original feita ao pensamento, de uma estranheza, de uma inimizade, a única a tirá-lo de seu estupor natural ou de sua eterna possibilidade: tanto quanto só há pensamento involuntário, suscitado, coagido no pensamento, com mais forte razão é absolutamente necessário que ele nasça, por arrombamento, do fortuito no mundo. O que é primeiro no pensamento é o arrombamento, a violência, é o inimigo, e nada supõe a filosofia; tudo parte de uma misosofia. Não contemos com o pensamento para fundar a necessidade relativa do que ele pensa; contemos, ao contrário, com a contingência de um encontro com aquilo que força a pensar, a fim de elevar e instalar a necessidade absoluta de um ato de pensar, de uma paixão de pensar.”... e agir (1988, p. 230) DELEUZE, G. Diferença e repetição.
textos base:
ARANHA, M.L.A.; MARTINS,M.H.P. Temas de Filosofia, Editora Moderna, 1992.
DELEUZE, G. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

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