ZÉ POVÃO E A MÁQUINA- MAQUINO


ilustração: José Esteban Rodrigues, 2007

É visitante, tanta coisa acontecendo no fluxo contínuo de atividades no qual há produção de vida que operar um corte nesse fluxo nesses dias está sendo, não só uma ação cuidadosa, como algo que produz uma afirmação de tantas forças e composições entre elas a da maquino-ativação, a da esquizo-ocupação e a da aproximação cada vez melhor do Zé Povão e Dra Delegada Roseli.
Te conto rapidamente como isso que te apresento agora aconteceu e vem acontecendo e de alguns outros acontecimentos concomitantes a essa situação. Bom, na segunda-feira fui a um grupo de estudos na T.O USP onde estamos nos desdobrando sobre um texto de Deleuze chamado “ O que dizem as crianças”. Uma das idéias trabalhadas nesse é a de Mapa, que exprime a identidade entre o percurso e o percorrido, e onde esses confundem-se com o seu objeto, quando na realidade o próprio objeto é o MOVIMENTO. Outra questão levantada é a do MEIO. Deleuze diz que um MEIO é feito de qualidades, substâncias, potências e ACONTECIMENTOS. Que as crianças, por não pararem de dizer aquilo que fazem ou tentam fazer, acabam por EXPLORAR OS MEIOS ( através de trajetos dinâmicos) e TRAÇAR MAPAS CORRESPONDENTES. No caso, Deleuze afirma que os mapas são essenciais á ATIVIDADE PSÍQUICA.
Esses TRAJETOS DINÃMICOS se confundem com a subjetividade dos que percorrem um MEIO, e com a subjetividade do próprio MEIO. E o MEIO se reflete naqueles que o percorrem. Tudo isso diz conta de uma questão de MOVIMENTO e de uma possível CARTOGRAFIA DAS SUBJETIVIDADES existentes nesses MEIOS-TRAJETOS-MAPAS.
Saio desse encontro com o grupo pensando muitas coisas referentes a maquinoativação, porque de certa forma essa "provocações" DITAS E FEITAS por Deleuze potencializam a idéia da máquina enquanto um dispositivo viável. Só pra deixar você, visitante, um pouco mais a par do que vem a ser essa idéia de máquina, que para mim também ainda se encontra em construção.
“ O conceito de máquina é um conceito central nas obras de Deleuze e Guattari. Ele é utilizado por Guattari, já em 1969, para fazer uma diferenciação da idéia de estrutura, visando, a partir desta diferenciação, explicar o funcionamento dos grupos que vinha desenvolvendo em La Borde. Mas é especialmente em O Anti-Édipo (1976) que as diferenças entre máquina e mecanismo se fortalecem na construção do conceito de máquina como sistema de cortes-fluxos que incidem sobre um "fluxo material contínuo". É deste sistema que brota o desejo, estando aí a sua produtividade. O conceito de máquina para Deleuze e Guattari opõe-se a mecanismo, porque um mecanismo, relativamente fechado sobre si mesmo, designa organização de uma organização, como também o procedimento de certas máquinas.
Já a idéia de máquina para eles supera a de organização. Ela é, necessariamente, um sistema de corte de fluxos feitos no acoplamento com outras máquinas. Não há explicação que não seja dada pelo encontro dela com outras máquinas: elas estão sempre no devir. São máquinas abstratas que consistem em "matérias não formadas e funções não formais", trabalhando umas nas outras e no entrelaçamento das linhas diversas que compõem o "mapa" de um agenciamento (linhas molares, moleculares, linhas de fuga). “NEVES, C. E. A. B.
Pois bem, chego terça-feira para trabalhar no Naps, e após dois grupos sento numa espécie de mureta para conversar com Roseli Montanari, uma amiga com quem desenvolvo um trabalho em parceria, e o Zé Povão se aproxima de nós e diz: “Dra. Delegada Roseli, eu não te disse que eu ia fazer o Mapa com o esquema de como sair de casa? “ Começa a retirar vários objetos de sua sacola e de dentro saca um desenho feito por ele. Esse é seu mapa. Um mapa de circuitos maquínicos. Ele me mostra e sinceramente digo:“ É lindo de viver, Zé!” . E ele passa a explicar como esse se desenvolve, suas funções, seus circuitos, e no final proponho que possamos produzir algo com aquilo, ele vira e me diz; “ Toma, é um presente”. Ele me responde enquanto tento lhe dar um abraço de agradecimento: “ E não venha me chorar no meu ombro!”. Naquele momento parecia que ele estava também me agradecendo o dia em que o levei até o lugar de passageiros especiais para retirarmos um cartão que dá a ele a possibilidade de fazer outros trajetos pela cidade, traçar outros mapas, utilizar e misturar-se a novos e outros meios, operar no devir. Digo a ele que nossas máquinas conversam e ele solta uma risada parecendo estar a par dessa daqui, sei lá eu como...
Sei lá visitante, acho encantador esses movimentos presentes na vida, e fiquei tão afetado por esse que aconteceu entre Zé Povão e a máquina, que levei um certo tempo pra conseguir tornar isso um meio-mapa desse dizer aqui que venho tentando fazer.

Textos base:
Deleuze,G. Crítica e Clinica, editora 34, pg 73-4, 2006
NEVES, C. E. A. B. Editorial. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 56, n. 1, p. 2-19, 2004.

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