E LÁ VAMOS NÓS




A noite, as luzes da cidade acendem-se formando um imenso sendeiro luminoso que aos poucos, no avançar veloz da máquina dumoniana, forma na constante subida um imenso bordado de pequenos pontos acesos. O mapa impresso na memória percorrida das ruas vai tomando outro formato, diminuindo a possibilidade de visão micro-relacional. Pessoas-postes-carros-casas-prédios-ruas-avenidas- a venda da esquina- o ônibus- o sapato- e o corte de cabelo inaugurado pela moça que conheci naquele dia- tudo vai perdendo a captura do pensamento visual. Ao mesmo tempo que é guardado na memória, que assim como o avião, também se eleva. A minha barriga gela, por tantos motivos novos, tantos porvires, uma mistura desenfreada de muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. O oceano em frente, o chão distante, o além das nuvens, uma escuridão que ganha forma, a história dos meus antepassados, a ajuda financeira de meu pai, o cuidado de minhas irmãs, meu amor voa comigo, meus amigos a me esperar, e uma cidade-experiência ao contrário da história de meu país. Daqui de onde saio chego lá amanhã. Agora as únicas luzes presentes são as dos painéis dos comissários, o serviço de bordo fala minha língua atravessada pelo sotaque. É português ainda assim. Serei hoje um Harold Crick em estilo Vaz de Caminha? Tudo é novidade, até a forma ganha pelas palavras desse relato, sobre a literatura barata que componho, é barata porque senão a fosse veiculada de graça só, alimentaria aos insetos do quitinete que habito. Hoje começou o tempo de alargamento da visão, daqui a pouco mais de horas, o que me aguarda é não sei.
Tudo teve início numa revista. Tornei a olhar a imagem, revistei meus quereres, e aquele vidro todo era muita beleza para ser desconsiderada. Disse a quem comigo estava junto: “ quero ir lá ver de perto isso.”. Era um abuso de minha parte, abuso de enfrento a minha covardia. Ter chegado aqui nessa condição e ter alimentado planos por tantos anos de ir lá conhecer outros mares e trás dos montes, e me desconsiderar de minha vontade, sempre relevando ao futuro naquela frase:'Um dia vai acontecer!”. Naquela noite com doses de cerveja e música com meus amigos, resolvi, vai acontecer esse ano, porque é esse meu presente. Meu aniversário distante em outro lugar dentro da Terra.
Incrível ver o sol nascendo em pleno ar, o céu azul-amanhecer e o chão imerso no enorme azul-recobrir das águas do Atlântico surge assim, como uma bola laranja jogada para o alto. Como se ali estivesse a brincadeira certeira do tempo que passa. Sobe o sol e dura um tanto seu rastro sobre a abóboda iluminada. Avança-se o tempo, duas horas a diante do relógio onde saí muita gente ainda dorme, aqui o povo já despertou em seu cotidiano. A cidade de Lisboa vai chegando até meus olhos, Dona Clementina e Seu José vieram daqui, tudo isso que eu fiz em horas eles levaram outro tempo navegando. Que coragem de enfrentamento! Saíram daqui casados? Conheceram-se no Brasil? Porque foram? Nada disso eu sei, é só minha curiosidade de neto ganhando espaço. Chegamos, no aeroporto de lisboa há três especies de guichês. Um para quem tem passaporte europeu, fila rápida, mais acessos, três para quem vem de outras nacionalidades, e dois para quem fala PORTUGUÊS. Chamam de CPLP ( leia: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA). Na fila, um tanto quanto grande, misturam-se brasileiros (que por si mesmo já são uma mistura diversificada demais) e africanos (que são muitos também chegando).
A fila demora em média 45 minutos até que chegue a hora de enfrentar a primeira barreira cultural. Um pouco antes disso, dois rapazes africanos cortam a fila, estão nervosos, sei lá porque, o guarda que organiza a fila do aeroporto percebe o nervosismo, pergunta se eles falam português, um deles entende o outro não. O que entende responde que sim, o outro fica mais nervoso, é visível que tudo aquilo era de muita pressão psíquica, tanto para os que chegaram quanto para o guarda. Respondem ao questionamento do guarda que de cara pergunta se eles vieram para se tratar de problemas de saúde. O que não entende arregala os olhos, o outro responde: Ele (e meneia a cabeça em direção ao que não entende a língua) veio para estudar. O policial pede seus passaportes, e separa os dois rapazes. O que entende eu vi passar, o outro não.
O homem-policial português atrás do vidro, chama e pede os documentos. Pergunta a mim o que faço na vida. Na hora do confronto direto recuei para polidez, respondendo o kit oficial da sociabilidade, mas meu pensamento de ironia estrilou na cabeça, porque ele correu um risco de perguntar a um terapeuta ocupacional : O QUE VOCÊ FAZ?
Mas assim, respondi que trabalhava num centro de saúde mental no Brasil, e que estava ali para turismo. Para onde Onde você vai? Para Barcelona. Onde você vai ficar? Dei um papel com nome do hotel, ele olhou, pegou meu passaporte e carimbou. Depois disso perguntou quantos dias ia ficar, respondi e ele me entregou os documentos.
Os aeroportos são lugares estranhos de se passar. Você vê gente de tanta nacionalidade diferente, você vê pela cara, pelo modo como se locomovem, pelos trajes, e ouve línguas de vários lugares, sotaques. Todo mundo parece ter cara de estar meio perdido, ao mesmo tempo que segue um rumo- fluxo. Tanto na ida quanto na volta, tira-se todos os adornos com metal do corpo,parece que você está na fila de entrada de um banco no Brasil, só que o Banco aqui não tem Real, é um Euro Banco. Seus pertences de mão passam por raio-x. É estranho ver mulheres com bebês, senhoras e senhores explicando-se sobre medicações, líquidos, etc. Mesmo que você passe pelo detector de metais ainda assim te vasculham. O policial me parou, queria me revistar. Levantei os braços como se fosse um assalto. Ele abriu e abaixou meus braços num ângulo de 90 graus em relação ao tronco. Pensei naquela hora: será que aqui é assim a “geral” da polícia ? Imaginei se fosse assim no Brasil, os indivíduos que a gente costuma ver levando “geral” (geralmente mulatos ou negros) da polícia, todo mundo de braço aberto como se fosse uma homenagem ao Cristo Redentor. Eu sei que não é assim no Brasil, e pode ter outro lugar no mundo que também seja assim, quando a polícia te revista a sua mão estará ocupada segurando a parede ou a sua cabeça.

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