Fragmentos (Fora de Ordem) sobre a Duração na Arte Contemporânea e na Idéia de Arte



* Um grande tanque de aço com paredes de grosso vidro temperado. O tanque tem a altura maior que a altura de um homem alto. E seu comprimento é maior que o de um carro. O tanque está cheio de um líquido esverdeado que poderia ser água de mar. Mas como dentro do tanque, no meio desse líquido, está um tubarão imóvel, a boca entreaberta, suspenso no líquido por fios de aço que de longe não se vêem, e como esse tubarão está morto, esse líquido não pode ser água, ou inteiramente água, e sim alguma coisa conservante, à base de formol ou equivalente. Mais precisamente, será uma solução de formaldeído, provavelmente a 5%. O tubarão está conservado no interior do tanque de aço e vidro, parado no meio do líquido. A peça chama-se A Impossibilidade Física da Idéia da Morte na Mente de uma Pessoa Viva e foi pensada, se não feita, por Damien Hirst, em 1991. As pessoas olham o tanque de aço e vidro e olham mais ainda o tubarão ou aquilo que um dia foi um tubarão,. Olham uma representação do tubarão. Olham fascinadas o tubarão, o líquido esverdeado no qual o tubarão aparece suspenso. O tanque de aço e vidro é fantástico ele também, fascinante como o tubarão. As pessoas olham a peça e não conseguem desgrudar os olhos de seus componentes. Não conseguem sair da sala. Não estão vendo o tubarão. Estão vendo alguma outra coisa que pouco ou nada tem a ver com o tubarão. Estão vendo uma obra de arte. Mas, será isso uma obra de arte? Está claro que essa peça não é uma obra de arte, mas o indício de que em algum momento houve uma idéia de arte, houve um princípio de arte do qual essa peça é o que restou. O que restou, fascinante como é, permite entrever quão deslumbrante, quão ofuscante deve ter sido aquela idéia de arte que esteve na sua origem. É esse núcleo inapreensível de arte que fascina e atrai o olho e o prende àquela caixa de aço e vidro com o tubarão em suspensão. Há uma arte em suspensão ali. Ali há uma idéia de arte em suspensão. Como na tela de Mona Lisa: Mona Lisa não é a obra de arte, é o indício de uma idéia de arte cativante, o que restou do conceito de arte que existiu em algum momento na mente de uma pessoa viva. Não se vê a Mona Lisa, vê-se uma idéia de arte. Mona Lisa não interessa, interessa a idéia de arte que a sustenta. A idéia de que o tubarão é uma representação da arte, da idéia de arte, é uma idéia atraente. Uma idéia simpática. E é um resíduo.
É, também, uma metáfora da preservação da arte. Angustiante metáfora.
Em algum momento o tubarão começara a se desfazer mesmo no interior da solução de formaldeído a 5% ou provavelmente a 5%. Partes desse animal se desprenderão do que um dia foi seu corpo – provavelmente se desprendem primeiro pedaços da parte inferior dessa idéia de corpo – e se depositarão no fundo do tanque que, este, levará mais tempo para se desfazer, imagino. Aos poucos o tubarão se desfará e o que um dia foram suas carnes parecerão fiapos de pano. Talvez sua mandíbula se desprenda inteira e caia no piso do tanque. As várias etapas da decomposição do tubarão serão outras tantas obras de arte, outros tantos resíduos de arte. Um dia, o tanque parecerá vazio e em seu piso se verá apenas alguns farelos de alguma coisa irreconhecível. Nesse momento, o tanque será um outro resíduo da mesma idéia de arte. Ou de uma outra idéia de arte. Essa peça mostrará então que sempre foi uma peça de arte viva, que ela sempre esteve viva, e que era impossível admitir a idéia de sua morte. Um dia talvez alguém tenha a idéia de colocar outro tubarão no interior do tanque, um outro tubarão inteiro no lugar daquele que se desfez, pensando que assim ressuscitará a obra de arte que um dia foi. E talvez a obra de arte ressuscite, ela que nunca havia morrido. Alguma coisa, nessa hipótese, terá sido preservada. Ou nada foi preservado e, sim, destruído. A impossibilidade física de conservar uma obra de arte na mente de alguém vivo.

José Teixeira Coelho Netto
Diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e professor-doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

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