AO LIMITE...


(Foto: ANDRE NUNES, Lisboa, 2007)

Sempre que mundo aparece desmedido, ele trava consigo uma estranha brincadeira de razão. Suas mãos gelavam, numa corrente nervosa que o percorria, davam ao corpo qualidades enraizadas em primitivas certezas. Eu, eu não quero aqui de antemão contar-lhe o que foi que aconteceu, Absurdo. Quero antes dar vazão a essa tentativa de explanação das idéias e ocorrências que agora se agregam por motivos variados. Parece-me mais prudente abrir as palavras assim fazendo. Abrir as palavras, somente isso.
A entrada do que viria estampava no chão de mármore uma frase imperativa: EXPLORE A CIDADE AO LIMITE. Eu, Absurdo, eu tomei aquilo como pessoal, como se a identidade estrangeira fosse em mim colando-se tal qual papel lembrete. Tomei a frase como abertura do MAPA. Um mapa estrangeiro e eu-estrangeiro por mais que tentasse esforçar em parecer como algo-alguém de local, não, ISSO não carrega seus modos de vigência, as sutilezas que denunciam o estranhamento frente a diferença. Saí da porta que apita a denúncia do terror contemporâneo, saí da porta que dá ao homem atual sua maior garantia- o terror, saí da porta que põe a BOMBA como a maior certeza dos dias amedrontados e poucos passos na idéia livre deram a mim, Absurdo, a coordenada de uma forma outra de liberdade bem-regulada. AO LIMITE... cada qual em cada corpo, cada um em cada gosto tem seus brios e acessos, AO LIMITE. Nessa tarde que cai pela cidade de volta, refaço o caminho na lembrança. Veio nos limites da memória uma coisa que ouvi ecoar em alguns lugares, da cidade e seus limites a mim apresentados. Não me lembro a palavra certa, porque outra cultura demanda uma outra língua, mas lembro bem da idéia certeira, digo certeira porque talvez ela vá ao encontro do imperativo categórico do verbo AO LIMITE do explorar. Vamos a ela na próxima frase porque essa chegou a seu fim.
Veio assim a idéia, numa tarde caminhando por ruas estreitas onde mal 5 pessoas de braços dados em seus LIMITES, onde 5 não comportam o cabimento dos trajetos, veio em uma onda radial sonora uma moça a falar sobre INFLAÇÃO PESSOAL. A narradora começa a dizer que em tempos de globalização as taxas e índices que servem de parâmetros a todos de modo geral, não condizem a realidade individual de cada uma das pessoas. Mas como assim? Seria preciso que cada um calculasse seus saldos e despesas e aplicasse aos mesmos os valores cobrados em suas necessidades individuais. Que talvez um empréstimo, um juros, um lucro, um dividendo, um isso ou aquilo, distorceria por completo a chave geral das contas dando a cada um seu índice próprio de inflação. E meio que ensinava as pessoas a fazer essa conta. Nesse instante passava em frente a um restaurante que no cardápio mencionava os valores dos alimentos em conjunto a uma tabela de gastos energéticos, um convite as papilas valares combinado aos gastos necessários para se desfazer daquele banquete, levava o nome de INGESTÃO ENERGÉTICA PESSOAL. Mais a frente uma confecção cujo slogan promovia em luzes Fortes a marca desigual: no es lo mismo, algo como roupas ajustáveis as suas medidas, MEDIDAS CORPORAL PESSOAL. Tudo foi feita para todo mundo, mas sempre a “medida pessoal”. QUE SERÁ DESSE INDIVÍDUO?
Toda a cidade e suas idéias, te seduz para um consumo extravagante. Suas vitrines e lojas e luzes e formas-conceitos-conteúdos seus ocos e trecos, a cidade te seduz por uma espécie de poder-pertencimento. Eu achava engraçado, porque não tinha muito com quem dividir aquilo visto que minha rede relacional era composta por eu e eu mesmo, me lembrei: Quando eu estava na porta-bomba não era assim que me trataram, na porta-bomba era evidente que todo qualquer corpo estranho, era um rival potencial. Alguém que após deslocar-se em tempos e espaços adentra outro lugar percorrendo AO LIMITE, um certo tempo/estágio ON THE ROAD, e depois retorna porque seu centro maior de interesse não está ali, mas em algum outro local.
Dizia a você, Absurdo, que a cidade te seduz com cacarecos e muitas coisas belas e diferentes, as vezes muito próximas ao familiar o que torna aquilo tudo mais estranho ainda, o que transporta aquilo tudo para além da idéia de TURISMO PESSOAL, aquilo era sim um INDIVÍDUO AO LIMITE...

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