É: PALAVRAÇÃO DO PRESENTE ou do ofício de acompanhar pessoas.

Pessoas teimam em insistir nos feitios das coisas que circundam os mundos seus. Nesse fabrico ininterrupto, acabam por descobrir fatos, objetos e atos, que nem mesmo sabendo-se novos, permanecem em estado de limite.
Esses novos, que adentram na ordem, vem, quase sempre, suprir algo que parecia faltar para seus contentamentos. Sei que as frutas estão maduras, sabor de passado que não perde o gosto do que um dia talvez já fossem ou foram. Suculentas em lentidão, as vezes apresentam-se em miúdas lembranças cotidianas, que de tão pequenas a captura nessa constante colheita passam meio que desapercebidas. Cismo mesmo em querer aquilo que está por vir.
Mas é que essas miúdas lembranças cotidianas, são formas milongas, que me são contadas ao pé da palavra, ao pé de letra, nem palavras-verdades, nem meias-verdades-palavras. As milongas são histórias desmontáveis e remontadas pelas falas de outros tantos que não apenas um eu.
E tenho, no engenho de dentro, que saber o que acontece com os outros, com os que estão ao redor, mesmo as vezes me isolando. É jeito meu de estar no mundo. É jeito em tentativa de dar conta desse acontecimento.
É, sei que sendo assim acabo, por vezes, não agradando a todos, inclusive a mim mesmo. Que saio do ovo, do novo do ovo, e também ganho experiências e experimentos, e volto ao ovo.
O que gostaria de deixar expresso aqui se remete aquilo que hoje lembrei durante o acompanhamento de pessoas. Ensinar idéias sobre o que vem a ser desenhar...Desenhar, quem me "ensinou" mesmo foi essa moça aí da foto, Câmbio Cris.
Mas hoje, eu no ofício de acompanhar pessoas, e não é qualquer tipo de pessoa, mas sim algumas a quem falta uma parte de vontade, como que uma vontade amorfa, por ser formada de fragmentos, completamente desconhecidos e desconexos de um eixo que dê suporte, pessoas cujas vidas estão próximas por demais do caos, cujas vidas estão imersas na experiência do enlouquecer... e como se diz a elas que um desenho pode ser uma "abstração da realidade"? Eu sei que o acompanhar foi tão intenso, que como modo de explicar a gente no estar junto com inventou de lembrar e falar do "tio Patinhas", um pato, que fala e tem dinheiro. Na realidade ele existe? Dá para suportar isso de existir um pato milionário, que fala? De que ovo saiu ele? Nesse momento eu lembrei de Câmbio Chris, e de como a gente inventa tanta doidera junto!
Mas voltando, esse papo de suportar( no sentido de viver juntos)-dar suporte, me faz pensar o quão se faz preciso para estar com os outros, suportar as pessoas, as ordens, disputas de poder, treinos de convivência, e o quanto é isso que nos torna humanos.
Quando se passa dos 30 parece que uma balança começa a pender, e se é possível clarear o quanto você e o quanto os outros te seguram um pouco mais nisso tudo que acontece, mas há momentos em que isso é árduo de se fazer também.
Talvez as ordens de vida sejam assim formadas, para que entendimentos comuns se dêem. Agrupamos-nos em torno de fatos, em torno de coisas, em torno de pessoas, em torno de nomeações em comum, e isso é o que parece identificar-mo-nos, identificar atos e portos.
Contudo, algumas coisas sempre escapam e nesses escapes outras formas de diálogos acontecem, visto que nenhum controle controla totalmente. E isso pode ser produtivo ou não, e não tenho pretensão de valorar isso enquanto bom ou ruim... pois ainda não cheguei no aí de lá.
Chegar no lá, isso se dá conforme os ritmos do pensamento que se aglutinam em idéias múltiplas, e de tanto já ter dito, até mesmo o que não sabia haver por dizer, que já não importa tanto o que tenho para isso: resistência/rexistência. Importa as vezes é conseguir permanecer nesse lugar do estar junto com, e isso é trabalhoso por demais. Visto que a máquina desejante nunca pára de funcionar. É muita obra ao mesmo tempo para dar conta.
É um homem que aparece e que não sabe se agrada mais ficar em casa ( e sente vergonha disso) ou se agrada ficar na rua ( e sente vergonha disso também), pois o que sente mesmo é que todos o vigiam, estão a espioná-lo e não se faz preciso dizer isso em diálogos pois sua obra mostra. Em sua obra feita ao estar junto acompanhado afirmo que ele é bom, mesmo, de imaginação. Que faz com que ele se abra a outra "conversa" pelas vias do fazer. Em tom de risco ao desenhar afirma a questão de quando passará a frequentar as pessoas, sente falta de trabalho junto. Foi isso que também viveu: entrou, tratou, saiu, trabalhou, mudou, voltou a entrar para se tratar, para quem sabe sair e trabalhar novamente. É: palavração do presente.
E digo que tanta obra, e a obra é volumosa e extensa, que roubo a idéia da obra ser aberta, por estar aberta em contínuo rearranjo.
Que encontro um homem adulto que num jogo proposto de palavras escritas o leva a duas últimas num espaço de suporte: É e Não. Acompanho e digo que isso me faz remeter a : estar junto e viver em solidão. Ele escapando me diz: _ É!
É: palavração do presente.

Comentários

Rose666 disse…
Vou deixar aqui e agora o que senti ao ler, não só esta escrita mais todas as produções recentes.
Tá bonito de se ver, elas são profundas, repletas de afetos itensos e ao mesmo susves.
Tem profundidade e leveza.
Dá pra ver que ai existe um homem que pensa, ama e vive as suas paxixões alegres e triste.
Grande beijo amigo
Namastê

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