PRODUÇÃO DE VIDA

( fotografia: André Nunes, Barcelona, 2007)

Tanto caderno com tanta palavra presa, de folha cheia de palavra-desenho-acesso. Se o que lá está contido pudesse vir a tona, seria forma outra de compôr? Não mais a cópia mas a transcrição-transcodificação da matéria. Penso que talvez isso seja questão de VIDA, e talvez tenha a ver com a tal produção de.
Passo o olho na leitura celulose. E transpondo a grafia para esse movel maquinado, opero processo de binarização do vivido. Fazendo da memória não mais arquivo, mas rede-byte relacional. Pela via infoviária posso fazer desalojamento do que ocupava a estante aqui de casa e passo a mover mais um processo maquinário.
Te posto assim, de relance, a fase origem de quanto a isso tive acesso. Eram idos do ano onde gêmeas torres ganharam destaque e o mundo inteiro parecia assistir um filme hollywoodiano de efeitos especiais. Sessão da tarde em plena manhã de terça feira. Naquele dia daquele ano eu acompanhava uma turma de pessoas da terceira idade num programa intitulado: Lazer com Arte para terceira idade, uma parceria entre o MAC (museu de arte contemporânea-USP) e o Pacto (Programa Arte e Corpo e Terapia Ocupacional- Departamento de T.O da USP-SP). Desconectaram um televisor do aparelho de vídeo, trouxeram uma antena e pedaços de Bombril. O que se via era tão desconcertante que naquela manhã entendi ao vivo e a cores o que era (e/ou ainda é) o tal IMPÉRIO.
Peço licença para prosseguir e tornar acessível a você, visitante, uma aula dada por Peter Pal Pélbart (um filósofo) no dia 21/03/2001, cópia do que foi dito, e que me foi possível escrever, e que penso muito poder instigar esse pensamento sobre PRODUÇÃO DE VIDA.
Pois bem, aqui vão os escritos:

"QUESTÕES DA VIDA
objetivo geral: acompanhar entrecruzamentos de pensadores contemporâneos levando em conta aspectos da política e subjetividade.
VIDA: ANCORAGEM A RESISTÊNCIA POLÍTICA
TEXTOS TRABALHADOS:
IMPÉRIO ( EMPIRE) – Michael Hardt e Toni Negri
CONVERSAÇÕES – Gilles Deleuze
HISTÓRIA DA SEXUALIDADE 1 – Michael Foucault
Tentativa de mapear o contexto contemporâneo através de certos mecanismos de poder contemporâneo da Globalização.

A PRODUÇÃO BIOPOLÍTICA

A sociedade disciplinar funciona através de dispositivos ou aparelhos que regem costumes, hábitos, práticas. Exemplo: escola, família, fábricas, hospital, manicômio, prisões, etc (a sexualidade é um dispositivo).
São dispositivos que servem para por a sociedade para trabalhar, obedecer, mecanismos de normalização/ patologização.
Tais instituições estruturam o terreno social com uma lógica própria. Correspondem ao aparecimento da 1a. fase do Capitalismo.
A sociedade de controle, que se desenvolve no final da modernidade (pós guerra em diante) se utiliza de mecanismos de dominação. Os mecanismos de dominação se tornam cada vez mais democráticos (imanentes ao campo social – esses dispositivos se tornam cada vez mais difundidos nos cérebros e corpos dos cidadãos).
As instituições já não pairam, não são exteriores a elas (as pessoas). Esses dispositivos são incorporados pelas pessoas e são reativados pelas mesmas. No limite prescindem das instituições em sua concretude. Assim, os comportamentos de controle são mais interiorizados por todos os sujeitos.
O poder é exercido nos corpos e cérebros através de máquinas. Exemplo: redes de informação.
Produzem um estado de alienação autônoma (alienação e autonomia seriam antagônicas, ou melhor, seriam contraditórias uma a outra). Tais máquinas não são apenas impostas como também desejadas, reativadas constantemente, de uma tal maneira que a partir delas são acionados sentidos de vida para si mesmo. Exemplo: academia de ginástica: máquina que organiza cada vez mais os corpos.
A sociedade de controle seria uma intensificação dos aparelhos normalizadores da disciplinariedade. Passam a dominar nossa prática. Essa intensificação, ao contrário da disciplina, se dá através de um funcionamento em rede, extensivo, flexível, engendrado.
Na “democratização”, o poder já não tem a geografia vertical, imposto desde fora, teria ganho uma pregnância inédita, flexibilidade, flexibilização, maleabilidade, imanência, está entrelaçado, entrelaçando todo mundo. Através de, entre...
Imanência do poder: Não é uma decisão pessoal, é uma espécie de desejo coletivo. Não privatizar a servidão.
A tendência é essa: A SOCIEDADE DE CONTROLE.

BIOPODER

É uma forma de poder que rege e regulamenta a vida social desde dentro. Trata-se de um poder sobre a vida, poder sobre a vida inteira, a vida inteira da população. Vida inteira: duração e extensão. Só pode ser objeto de poder tão extensiva e intensivamente se cada um a abraça e reativa por conta própria.
Um poder que se encarrega da vida, em sua totalidade. Penetrando-a “de cabo a rabo” e em todas as suas esferas, desde a dimensão cognitiva, psíquica, física, biológica, genética, etc.
Poder que investe a vida de uma ponta a outra. Ou seja, investe e administra. Desde que se encubra de reativar por conta própria.
O que está em jogo no BIOPODER?
É a reprodução e produção de vida. Não é um poder que visa um território. O que importa é a população que vive e produz.
Só uma sociedade de controle pode se encarregar desse desafio de BIOPODER. Uma sociedade disciplinar, ela não conseguia penetrar nas consciências e corpos dos indivíduos, não reativa-se a si mesma.

DIFERENÇAS ENTRE SOCIEDADE DISCIPLINAR E SOCEIDADE DE CONTROLE

Sociedade Disciplinar; relação indivíduo x poder era muito estática, exterior, não podia agarrar a vida em sua extensão.
Sociedade de controle: o conjunto da vida social é radicalmente abraçado e desdobrado pelo biopoder. Ela, a sociedade, é subsumida, dominada na sua integralidade, nos centros vitais.
O que isso configura de novo, nessa relação entre poder e subjetividade, ao mesmo tempo que o poder prescinde das instituições, ás aniquila, atinge, penetra na subjetividade de uma maneira nunca vista, que ele mobiliza em todos os seus aspectos. Ele, ao mesmo tempo, esse poder engendra uma subjetividade coletiva imponderável. Por exemplo: colapso da educação > ascensão da informática.
Colapso da fábrica > ascensão de outras formas desenvolvidas de trabalho.
Poder sobre a vida, o mais íntimo da vida, exploração da força intelectual, imaterial.
Caldo biopolítico: mistura de corpos, inteligências, afetos, subjetividades.
A idéia é que nesse caldo biopolítico, que o poder investe e penetra, explora e ativa como nunca, que emergem modalidades de insubmissão, de contágio, de inteligência coletiva, imprevisíveis, ao abraçar a vida em sua integralidade, o poder cria um inconsciente de coeficientes. Um meio de pluralidades abertas. A produção de corpos e afetos se entrelaçam criando mais coeficientes.
Quando o poder investe a vida, acontece a inversão mais estranha. A vida acaba sendo o capital, com todos os seus riscos e promessas.
O poder investe a vida, BIOPODER. Mas ao mesmo tempo é como se se revelasse o avesso desse. Ou seja, se revelasse uma potência BIOPOLÍTICA, uma BIOPOTÊNCIA.
Para Foucault BIOPODER E BIOPOLÍTICA são iguais, prejorativos pois invadem a vida.
Para Hardt e Negri hã uma inversão ambígua, eles usam o termo BIOPOLÍTICA e usam no sentido avesso, BIOPOTÊNCIA.
(Foucault) BIOPODER = BIOPOLÍTICA = BIOPOTÊNCIA (Hardt e Negri)
Num contexto em que o poder investe sobre a produção e reprodução ( um contexto biopolítico) se forja um corpo biopolítico coletivo. Onde se dá a produção e reprodução própria. Chamam a isso de MULTIDÃO.
A MULTIDÃO é um coletivo heterogêneo de corpos, afetos, subjetividades, material e imaterial; é vida no sentido mais amplo da palavra. MULTIDÃO é vida, produção e reprodução na sua potência hipercomplexa.
A idéia deles é que não basta detectar essas estruturas de dominação, é preciso entender sobre o que repousam, sugam e degustam. Não é só desconstruir esse poder e quais são os processos presentes na multidão cuja potência seria capaz de subverter essas estruturas de dominação.
Multidão não só como vítima do poder, mas como potência. A constituição dessa potência vital é maior do que nunca.
Poder investe a potência vital e essa potência vital pode, ela mesma, ganhar uma indeterminação submissa.
O Império se nutre da multidão, o Império vampiriza a multidão. Precisa de sua produção. Mas essa multidão pode por em risco o próprio Império. Por um lado o Império ativa ao máximo a força da multidão pois vive disso, essa força é uma força própria que pode voltar-se contra o Império.
Todo mundo fala em nome da VIDA. Os que resistem, os que dominam. A VIDA é o grande mote e também o grande objeto. Como pensar essa vida nesse contexto de estratégias que vitalizam e desvitalizam?
O poder produz vida, precisa dela, da criatividade.
O sistema engoliu tudo, sistema aberto, não existe mais dentro e fora. Todos estamos dentro do caldo biopolítico. Esse BIOS SOCIAL na sua pluralidade e indeterminação.
Que coletivos vão emergindo e produzindo coisas? Não é fora, mas dentro de uma pluralidade que vai se infletindo na forma do próprio sistema.
Não tem um sentido histórico, um sujeito necessário.
Talvez não tenhamos ainda inventado essa figura subjetiva coletiva, heterogênea que ao se apropriar dessa sua potência possa se configurar numa espécie de “ o militante biopolítico”.
A pergunta de Hardt e Negri é:
COMO QUE A PRODUÇÃO MATERIAL E IMATERIAL DE CORPOS E CÉREBROS DE MUITOS PODERIA CONSTRUIR UM SENTIDO NESSE CONTEXTO?"
Saudações visitante, até a próxima.
André nunes

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