RR : REDE RELACIONAL

(fotografia: andré nunes, barcelona, 2007)
Hoje, acessando a rede em busca de material para composição da maquinoativação, encontrei esse brilhante texto escrito pelo Prof. DR. TÚLIO BATISTA FRANCO, onde o mesmo aponta de forma clara os processos de produção de cuidados em saúde e a composição de redes relacionais necessárias tanto para a construção do que ele denomina "cuidado cuidador" quanto para efetiva constução do Sistema Unico de Saúde. São exemplos como esse, acessiveis a todos os internautas, que fazem com que a possibilidade de construção de rizomas novos possam ser feitas no processo contínuo de produção de vida. Aqui deixo então, somente para instigar o visitante desse maquinomovel, as conclusões obtidas pelo estudo do professor.
Vale muito a pena conferir. O texto base, visitante, você encontra no final desse post.
saudações,
andré

"Conclusões

A conclusão vem ao encontro da caracterização de uma rede na saúde, de caráter rizomático como a que foi discutida neste texto, uma rede que opera na micropolítica do processo de trabalho em saúde, tendo o trabalho vivo em ato como elemento central
nessa atividade produtiva. Ela teria as seguintes características.

1ª. Conexões multidirecionais e fluxos contínuo

Qualquer ponto da rede pode ser conectado a outro, isto é, a lógica da rede não deve ser a mesma da matriz burocrática que define a hierarquia das conexões ou a direção dos fluxos, mas acontece pela ação dos trabalhadores no cotidiano, quando se colocam em relação com os outros, operando a todo tempo na alteridade. Esse agir na micropolítica do processo de trabalho pode estar sintonizado na idéia de produção do “cuidado cuidador” e está articulado a uma forma de trabalho centrada sobre o mundo das necessidades dos usuários. As redes se formam em certos sentidos sobre uma suposta linha de cuidado, que é expressão de projetos terapêuticos, isto é, do conjunto de atos assistenciais pensados para resolver determinado problema de saúde do usuário
(FRANCO, 2003b).
Os campos simbólicos, acessados pelo sujeito trabalhador, podemos assim dizer, são um primeiro vetor de organização da ação do mesmo para a produção do cuidado. Outro vetor é a subjetividade que se manifesta na ação desejante de cada um, que opera sobre o mundo do trabalho em saúde. O plano simbólico e da subjetividade aplicados à produção do cuidado são constitutivos das tecnologias mais relacionais.
O simbólico pertence ao mundo do conhecer, isto é, saberes, cultura, valores, história, artes, linguagem e às n expressões da realidade, difíceis de enumerar tal sua magnitude. A subjetividade pertence ao mundo do ser, o que não é necessariamente sabido, mas extremamente expressivo na produção do socius, que no caso da saúde é expressão do meio social de trabalho e produção que para o sujeito trabalhador é repleto de significações.

2ª. Heterogeneidade

Uma rede rizomática pressupõe conexões com os diferentes, pois o mundo que articula o campo da saúde é por si só heterogêneo, permeado por relações de poder, sistemas sociais de produção de subjetivações, e essa complexidade do “mundo da vida” se expressa em diferentes modos de compreender a realidade e de nela atuar.
A heterogeneidade pressupõe capacidade de convivência, pactuação, manejo de conflitos e alta capacidade de auto-análise, pois é mais difícil e complexo lidar de forma produtiva com o diferente do que com o igual. Esse esforço é importante para a rede não operar na antiprodução, mas manter-se ativa na superfície de produção em relação à realidade.

3ª. Multiplicidade

As redes rompem com a idéia de uno, ou seja, uma direção, um sujeito, uma diretriz, etc., articulam a de múltiplo. Isso pressupõe suportar diversas lógicas, podendo operar sobre lógicas que são determinadas pelas representações simbólicas e a subjetividade que determinam as singularidades dos sujeitos.
O princípio da multiplicidade é associado à idéia geral de não-exclusão, podendo cada um fazer conexões em várias direções e muitos outros sujeitos que estão também operando no interior desses fluxos. A diversidade multiplica as possibilidades de fluxosconectivos, o que permite a linha de cuidado se realizar.

4º. Ruptura e não-ruptura

A rede, quando se rompe, consegue se recompor em outro lugar, refazendo-se. Uma rede pode se romper, mas se encontra com outras conexões ou mesmo é capaz de produzir novas, como se tivesse vida própria que lhe garantisse atuação suficiente para sua auto-realização. Uma ruptura em certo lugar pode significar abertura de linhas de fuga para outros sentidos não previstos anteriormente. Isso significa uma alta capacidade de produzir a si mesmo, que é próprio das redes rizomáticas.

5º. Princípio da cartografia

As conexões vão produzindo mapas através dos fluxos nos quais transita a ação dos sujeitos singulares que aí atuam. “O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social” (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p. 22).
A cartografia que se produz é aquela do trabalho vivo em ato, que é como um sistema aberto, não modelar e não serial, com muitas entradas e saídas, operando de forma não estruturada sobre a realidade. "


TEXTO-BASE:


As Redes na Micropolítica do Processo de Trabalho em Saúde.1
(Referência: FRANCO, T.B.; in Pinheiro, R. & Matos, R.A. “Gestão Em Redes”, LAPPIS-IMS/UERJ-ABRASCO, Rio de Janeiro, 2006)
TÚLIO BATISTA FRANCO



ACESSADO EM :27/01/2008

Comentários

Rose666 disse…
Valeu André ...ótimo achado ...vou acessar o site .
ai tem coisas pra pensar e até ver um pouco de fazemos de forma organizada
beijos
Rose

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