ARTIFICAÇÃO... NAS SOCIAIS DO BRASIL

( ELES NÃO MORREU!, fotografia, Dalila Pinheiro, sampa agosto de 2007)



OS ESTUDOS DA PERFORMANCE E AS METODOLOGIAS EXPERIMENTAIS EM SOCIOLOGIA DA ARTE

por:
João Gabriel L. C. Teixeira



" Trata-se de reflexão sobre o uso de metodologias experimentais em pesquisas e estudos da performance levados a cabo na Universidade de Brasília. Procura-se descrever os procedimentos utilizados, bem como alguns dos resultados obtidos em experiências desenvolvidas ao longo das duas últimas décadas. Demonstra-se como o diálogo entre as ciências sociais e as artes pode beneficiar a construção de uma estética cognitiva que visa acentuar as afinidades entre os dois campos do conhecimento.


...


5. Artificações21


21. Artificiar: fazer ou executar com artifício ou ardil; maquinar, urdir, tramar. Artifício (substantivo). Conforme está escrito no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1986, p. 177.


Neste ano de 2006, o Núcleo teve a oportunidade de encetar esta forma de experimentação sob a denominação de “artificações”, segundo um neologismo lançado pela socióloga francesa Roberta Shapiro, no Congresso de Sociologia de Língua Francesa (AISLF), realizado na cidade Tours, na França, em julho de 2004. Com este título, uma intervenção artística foi realizada, no horário de almoço, no Restaurante Universitário da Universidade de Brasília, em 27 de julho de 2006.
Em Tours, a autora resumia o tema que propôs para discussão no Congresso afirmando que começou a refletir sobre essa noção num grupo de trabalho de antropólogos e sociólogos de que participara e que, em poucas palavras, esse novo conceito busca denominar o processo de transformação da não-arte em arte. Na ocasião, afirmava:
Em suma, a transformação da não-arte em arte é uma transfiguração das pessoas, dos objetos e da ação... O conjunto desses processos conduz não somente ao deslocamento da fronteira entre arte e não-arte, mas ainda a construir novos mundos sociais, habitados por entidades inéditas e em número crescente 22.


22. SHAPIRO, Roberta. Qu´est-ce que l´artification?. Congrès de l´AISLF. Tours, julho 2004, p.2.

A seguir, a citada socióloga procurava demonstrar que ele não se refere apenas aos objetos, às pessoas e às ações, mas também à reclassificação das mesmas, ao enobrecimento das pessoas envolvidas e à edificação de novas fronteiras. Segundo Shapiro, a artificação implica também modificações no conteúdo, nas formas de atividades e nas qualidades psíquicas das pessoas, permitindo a reconstrução dos objetos, a criação de novos e, mesmo, o rearranjo dos dispositivos organizacionais.
A unificação desses processos, dos quais a nominação e a institucionalização são partes dependentes, conduz não somente a um deslocamento da fronteira entre arte e não-arte, mas também à construção de novos ambientes sociais, povoados de identidades até então inéditas e em número crescente. Adiante, a aludida pesquisadora passa a ilustrar esses processos com exemplos retirados de seus trabalhos e de seus colegas. Embora colocado sob a forma de hipóteses a serem discutidas naquela ocasião, o experimento desenvolvido na Universidade de Brasília demonstrou o seu caráter alternativo e seminal, pelo menos do ponto de vista da experimentação artística.
Existem diversas variantes, nuances e componentes desse conceitoneologismo. Para o Núcleo, ele significou, mesmo inadvertidamente, nesse momento, as experimentações possíveis em sociologia da arte, durante um semestre, no, já citado, curso optativo sobre “Arte e Sociedade”. O pressuposto básico era mostrar mais uma vez como os estudos sobre a performance podem se constituir numa possibilidade de utilização das metodologias experimentais em sociologia da arte. Insistentemente, obcecadamente, imperiosamente. Shapiro também aduzia, no texto em questão, citando Harold Fromm24, que a artificação seria, então, uma função adaptativa específica do ser humano e que a continuidade e a evolução da espécie dependerão, entre outras, das capacidades artísticas dos indivíduos. Em inglês, artificação é igualmente um termo técnico com o sentido geral de bonificação e melhoramento.


24. FROMM, Harold. The New Darwinism in the Humanities. Part II: Back to Nature, Again. The Hudson Review. v. XVI, n. 2. Nova Iorque, verão 2003.


Ele ainda é inexistente na última edição da Enciclopédia Britânica. Sem medo de ser feliz, um alunado de quase trinta alunos de graduação em ciências sociais se jogou na experiência, sobretudo pela vontade de sair da rotina e experienciar os processos comunicativos das emoções e dos sentidos subjetivos dos textos acadêmicos. Nada de seminários ou aulas expositivas, mas a tentativa despudorada de expor o que Evreinoff25, Goffman26, Geertz27, Barroso28, Freud29 e Minois30 suscitaram reflexivamente. A promessa era apenas a da confiança mútua e da vontade de aprender ludicamente, se divertindo muito. O trabalho ora apresentado certamente ficará entranhado no espírito de cada um, “artificadamente”, “artimanhosamente”, astuciosamente.



25. EVREINOFF, Nikolas. O Eterno Show. In: Teixeira, J. G. L. C. (Org.). Performáticos, Performance e Sociedade. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1996.
26. GOFFMAN, Erving. Representações. In: A representação do eu na vida quotidiana. Petrópolis: Vozes, 2002.
27. GEERTZ, Clifford. Um Jogo Absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa. In: A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
28. BARROSO. Op. cit.

29. FREUD, Sigmund. Sobre os sonhos (1901); Cinco conferências introdutórias sobre a psicanálise (1905); Leonardo da Vinci e uma recordação de sua infância (1910); Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905); O humor (1917). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, s/d.

30. MINOIS, George. O riso inextinguível dos deuses. In: História do Riso e do Escárnio. São Paulo: Editora da UNESP, 2003."



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Comentários

Rose666 disse…
André que pelo acompanhei do que foi escrito , levou-me a pensar!ehehe....que a artificação tem muito a ver com que desenvolvemos em vários campos ....talvez para mim ainda não houvesse essa denominação . O texto levou-me a pensar e fazer algumas costuras com o que estou pensando em escrever. Se este é o caminho me diga .
Beijos amigo
E grata pelo seu comentário no Mahavidya.
Inté fui....
andre miolo disse…
Buenas, buenas minha amiga Roseli, bom pra mim esse lance da Artificação, foi um achado que potencializou o pensamento a partir da questão do fazer.
acho que esse conceito é um dispositivo que a gente pode utilizar na composição de novas texturas...
saudações andré nunes

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