CLARICE E A MÁQUINA



O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as
teclas secas na úmida e escura madrugada. Há muito já não sou gente.
Quiseram que eu fosse um objeto. Objeto sujo de sangue. Sou um objeto que
cria outros objetos e a máquina cria a nós todos. Ela exige. O mecanismo
exige e exige a minha vida. Mas eu não obedeço totalmente: se tenho que ser
um objeto, que seja um objeto que grita pedindo socorro. Me faltam lágrimas
na máquina que sou. Sou um objeto sem destino. Sou um objeto nas mãos de
quem? tal é o meu destino humano. O que me salva é grito. Eu protesto em
nome do que está dentro do objeto atrás do atrás do pensamento sentimento.
Sou um objeto urgente. (LISPECTOR, 1973, p. 104).
EXTRAÍDO DE CORTE FEITO EM:

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