QUEM? CARTOGRAFIAS OCUPACIONAIS: coordenadas da maquinoativação-2

(fotografia, Berenger e Oliveira, março,2006)
ocupação=substantivo derivado do verbo ocupar.
ocupacional= adjetivo que dá qualidade em relação a verbalidade ocupar. Aí reside a força da profissão.
Lembrança, quando eu era criança, dos filmes e desenhos que assistia, quando algum personagem desfalecia, ou sofria algo parecido com uma crise, uma ruptura, um perder-se em outro estágio de realidade, ao retornar à relação com as pessoas ao redor duas perguntas eram pronunciadas:
_Quem sou eu? Onde estou?
Era sempre a partir dessa dupla dúvida que a reconstrução do estar presente, e assim também do que era possível identificar, redefinia o estado-espaço-tempo de onde aquele sujeito estava ocupando. A dúvida era dividida com alguém que podia falar um pouco, ou mostrar através de atos e objetos e situações, o que havia acontecido. A dúvida só era possível porque havia uma relação em jogo. Havia a construção de uma confiança no outro. Havia uma interação.
Façamos então uma espécie de "pacto fantasioso", pacto no qual hoje nós, terapeutas ocupacionais, caímos desfalecidos da realidade que estrutura nossos paradigmas constitucionais e após um momento de ausência, movimenta-mo-nos, nos relacionamos com uma espécie de retomada de relação conosco e assumimos a dupla dúvida na tentaiva de reconstruir aquilo que sabíamos, mas que após a ausência nos esquecemos. Quem somos? Onde estamos?
Bom, procuramos então nossos semelhantes com os quais conversamos sobre as dúvidas. E quando digo semelhantes, não me refiro apenas a outros terapeutas ocupacionais, mas também a outras categorias profissionais que sofrem com essa mesma questão.
Descobrimos que somos profissionais historicamente vinculados ao movimento de reabilitação de vidas. Profissionais categorizados enquanto terapeutas.
Atendo semanalmente uma senhora que sofreu um AVC há uns 5 anos, e tem como parte das sequelas após esse acidente-ruptura: a perda da senso-percepção e movimentação do hemicorpo direito e perdas de atenção e memória.
Há 3 anos acompanho seu modo de estar na vida. Praticamos exercícios, realizamos atividades culinárias, atividades na rua, no quarteirão, nos clubes da cidade, shoppings, conversamos sobre muitas das relações humanas e não humanas que ela vive, entre tantas outras coisas. Ocupamos nosso estar com coisas assim, bem próximas ao cotidiano dela.
Um dos assuntos que ela tem mais prazer em conversar é sobre religião. Espírita praticante, ela frenquenta centros de mesa branca na tentativa de obter outros entendimentos a cerca de seus processos de adoecimento e recuperação/reabilitação. Tempos atrás, após conversarmos sobre o karma que é viver no corpo/matéria que sente dor incessantemente, ela me pergunta se eu já havia ouvido falar sobre a "escola dos terapeutas"- uma ordem existente nos tempos de Cristo pela Terra.
Respondi que nunca, mas que faria essa pesquisa. E daí veio que:
Desde a ruína de Jerusalém e a dispersão dos judeus, as sinagogas, nas cidades por eles habitadas, servem-lhes de templos para a celebração do culto. Terapeutas (do grego therapeutai, formado de therapeuein, servir, cuidar, isto é: servidores de Deus, ou curadores). - Eram sectários judeus contemporâneos do Cristo, estabelecidos principalmente em Alexandria, no Egito. Tinham muita relação com os essênios, cujos princípios adotavam, aplicando-se, como esses últimos, à prática de todas as virtudes. Eram de extrema frugalidade na alimentação. Também celibatários, votados à contemplação e vivendo vida solitária, constituíam uma verdadeira ordem religiosa. Fílon, filósofo judeu platônico, de Alexandria, foi o primeiro a falar dos terapeutas, considerando-os uma seita do judaísmo. Eusébio, S. Jerônimo e outros Pais da Igreja pensam que eles eram cristãos. Fossem tais, ou fossem judeus, o que é evidente é que, do mesmo modo que os essênios, eles representam o traço de união entre o Judaísmo e o Cristianismo.
Obtido em "
http://pt.wikisource.org/wiki/O_Evangelho_Segundo_o_Espiritismo/Not%C3%ADcias_hist%C3%B3ricas"
Isso me chamou a atenção, porque eles, naquele espaço-tempo já viviam numa interface: judaísmo e cristianismo... transitavam desde então?
Bom, contudo há em nossa categorização terapeuta/terapia um termo que redimensiona o papel exercido por nós. Falo do termo: OCUPACIONAL. Penso que, como já disse lá em cima, é aí que reside a força de nossa profissão. Ocupacional é um adjetivo, enfim é uma palavra que qualifica a qualidade derivada do verbo ocupar, do substantivo ocupação, que surge enquanto palavra-idéia somente no século XV. Ocupacional vem da qualidade de exercer o ato de ocupar a ocupação nas relações de vida. OCUPAR RELACIONAL>OCUPAÇÃO ACIONAL. ACIONAL= da qualidade da ação. ACIONAR...
Aciono os botões da máquina. Deveras andei vagando por dúvidas duplas do "quem sou?" " onde estou?". A via é láctea, o sistema solar, o planeta Terra,o hemisfério sul, o continente americano, o país Brasil, o estado São Paulo, a cidade Santos, o bairro ponta da praia, o imóvel apartamento, o local a sala de estar, o objeto cadeira e mesa, o envólucro é meu corpo ( homo sapiens sapiens/mamífero/bípede/familia nunes...), o século é 21, o ano é 2008, o mês é fevereiro, o dia é 23, as horas =9, minutos 46, estação verão, o clima está abafado e nublado, o relógio biológico marca momento de reflexão, o ritmo é das palavras/dos pensamentos/ da organização da escrita, o movimento tem nas mãos uma força de transformação. Tornar escrita o pensamento reflexivo é se atirar a um gueto do tempo, um salto no rizo-MAR. Quem sou? É dúvida condizente com o momento do paradigma no qual a humanidade se vê presente. A nós, indivíduos ocupados com o ocupar, cabem as pesquisas a cerca das tecnologias do futuro do "eu"... "Nós"...

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