SÍLVIA

(Guache, andré nunes, 2001)

O intuito de Sílvia, era fazer de sua vida um bom e velho vale de rosas. A mulher enervada, que sempre se via naquele mesmo espelho que cruzava suas redescobertas nas primeiras horas cotidianas, dessa vez não mostrou o familiar de sempre. Os cabelos desgrenhados, os amarelos dentes postiços, a língua esbranquiçada, os olhos inchados, todo seu corpo ainda não desperto por completude, tudo mostrava á ela que o raiar de um novo momento se instalava dali para frente.

SÍlvia queria, já fazia tempo, e somente naquele instante foi que percebeu, ela queria se ver livre daquilo tudo. Os filhos a chatearem com constantes exigências de atenção, o marido a roncar alto no sufocante lençol entravesseirado da cama compartilhada dioturnamente, eram esses os sinais que mostaravam a ela, cada dia, em cada hora, a cada instante, que por mais bem aventurada que sempre se pusesse nas ordens diárias, Sílvia estaria sempre ligada a eles.

Quando era mais moça, ela queria um diferente rumo, visto que a cada um há encantamento algum, nenhum e sempre por vir. E o dela, dava rumos aos desenganos. Queria sair da casa de seus pais, queria viajar pelo mundo a saber com quantas informações se formam todas as coisas que circundavam suas curiosidades.

Mas houve um momento, e em cada momento se perguntava tantas coisas que cansava-se desse constante questionar. Mas houve um momento que terei agora coragem de dizer, que ela não mais tendo a quem recorrer, recorreu ao que sua familiaridade sempre lhe ensinara: ela casou-se, constituiu família, teve 3 filhos, um casal de gêmeos e uma caçula, ficou anos a se apagar nas roupas sujas, a esquentar a alma no fogão fazendo doces, a ouvir o não elogio da comida, a ensaboar fatos e fatos cotidianos. Sílvia tinha certeza, e certezas também podem ser tristes, teve certeza que a cada dia, depois do dito: SIM, em frente ao padre nosso do rádio, depois do dito SIM, ela teria dali para frente que se reservar em outra pessoa dentro de si. Aquela Sílvia, a que queria sair casa afora, aquela Sílvia se distanciaria da Sílvia que cuidou de crias e criados durante uma vida toda.

Mas não há distância que determine as voltas dos rumos que a vida dá... as distâncias no tempo não são distâncias, são esquecimentos. Que sempre retornam por mais que queiramos apagá-las.

E naquele instante, o instante do espelho, Sílvia se viu como um dia antes se via. Num primeiro momento estranhou a personagem que ali aparecia para ela. E só pode tomar contato com quando lhe tocou a face e viu que o refletido na placa dura vitriforme era ela. Ela reagida pelo tempo que passou no distanciado do esquecimento.

Comentários

coletivo dEVIR disse…
Olá André, muito prazer! Aqui é o Fernando Yonezawa, do blog devirtrans, que vai dar o curso de Esquizoanálise.
Gostei muito do seu blog também! Pelas engrenagens e rangidos em sua maquinaria!
Respondi sua postagem, mas coloco aqui também as informações que pediste.
Haverá duas aulas experimentais (para que as pessoas experimentem a aula), que acontecerão dias 26 e 29 de janeiro, às 19:30, à R. José Vilagelim Neto, 66, no bairro Taquaral, em Campinas.
Após este encontro, daremos início ao módulo 1 do curso, a partir do dia 04 de março, mesmo horário e local.
Venha, será muito bem vindo! Para nós será uma alegria recebê-lo!
Cordialmente
Fernando Yonezawa
Anônimo disse…
ok, valeu pelas informações
andré

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