XILOACONTECIMENTO-5.*ponto de encontro dos pontos* CARTOGRAFIAS OCUPACIONAIS - coordenadas da maquinoativação-11

(ciências, arte digital, andré nunes, 2008)


“o espírito não tem centro” ( Delgado, 1972,p.310)
“A descoberta da ignorância de si
é uma conquista frágil e recente
da consciência de si”
(Morin, 2001p.246)



Diante de todos esses apontamentos levantados,visitante, chegamos ao ponto onde todos os termos referidos na tessitura desse hipertexto coletivo acabam por se encontrar. Mas afinal o que é um ponto?


O Dicionário Aurélio -Século XXI, traz ao idioma português mais de 45 definições sobre o termo. Pra iniciar ficamos com a primeira de todas elas, na qual se diz:
“Ponto. (do lat.punctu.) S.m. 1. Picada produzida com a agulha que se enfia no tecido, couro, plástico, etc., para passar o fio de costura, bordado, etc.”.
Cada termo aqui apresentado diz respeito a um campo do saber humano. Não procuramos estancar nossos interesses em seções herméticas de explanação. Somos adeptos da polifonia, pois vemos nessa a possibilidade de integração de várias vozes que co-existem. Como um dia escreveu Guatarri: (1998)


“Não existe totalização personológica dos diferentes componentes de Expressão, totalização fechada em si mesma dos Universos de referência, nem nas ciências, nas artes e tampouco na sociedade. Há aglomeração de fatores heterogênicos de subjetivação. Os segmentos maquínicos remetem a uma mecanosfera destotalizada, deterritorializada, a um jogo infinito de interface...” ( Caosmose, p.43).


Quando nos deparamos com o desenho dos pontos-termos apresentados e as possíveis ligações existentes entre os mesmos, as idéias de interface e hibridismo ganharam notoreidade através daquilo que tateamos enquanto “clínica ampliada”.


Para a realização das oficinas dentro do Naps, tomamos por base a Portaria/GM no. 336, de 19 de fevereiro de 2002, Art.4o. parágrafo 4.3.1 que inclui entre as assistências prestadas ao paciente no CAPSIII o atendimento em oficinas terapêuticas executadas por profissional de nível superior ou nível médio, e nós, que cotidianamente compomos atividades grupais de socialização, expressão e inserção social através de ações como: costurar, bordar, xilogravar, dançar, tricotar... sabemos da importância dessas na condução/realização/invenção de nosso trabalho.


Como resultado dessa apropriação, eis que surge o convite para expormos no Salão de Arte Contemporânea de Santo André. Faríamos parte da exposição dos trabalhos desenvolvidos pelas diferentes unidades que compõem a RAP ( Rede de Atenção Psicosocial) do município. Quando questionados se gostaríamos ou não de nos expor, todos fomos unânimes: SIM!


O que fazíamos tinha qualidades de arte. Sabíamos, mas ainda assim a dúvida persistia. Como nos apresentar? Como gerar dentro desse dispositivo clínico, outra forma de discurso que não estivesse vinculado ao normatizador, ao terapêutico por si só?


“Para isso, era necessário um ouvido ‘estrangeiro’, pois a prática terapêutica diária muitas vezes nos impedia de escutar uma possibilidade de comunicação existente num pequeno som ou num ruído singular. Muitas vezes, na convivência com psicóticos, entramos em contato com uma multiplicidade de sons ‘estranhos’, que, no dia-a-dia, ouvimos, mas não escutamos mais”.(GALLETTI, 2004, p.102).


Mas como nos lançar sem nome? Se nosso intuito enquanto oficina era o intuito de ser híbrido e poder conversar com outras áreas e campos de saberes e produções humanas como a área das Artes e da Cultura, não fazia o menor sentido dizer: “trabalho realizado por pacientes do NAPS”.
Mesmo porque o que fazíamos ali não tinha apenas a ver com saúde. Lançamos então, juntamente ás impressões feitas em papel arroz, um manifesto (em anexo). Nesse lançamento nos nomeamos: Coletivo Maquínico Estelar.


Montamos nossa exposição onde fomos elogiados, onde outras qualidades foram dadas ao nosso trabalho. E, onde iniciamos uma conversa com outros setores, outros lugares a partir do lançamento...Outros espaços, outras órbitas, outras constelações, novas siderações.
A xilogravura define-se pelo “processo de gravura a partir de matrizes de madeira, no qual se faz o desenho em uma tábua lisa que é depois desbastada com formão, de maneira a sobrarem as partes que se quer imprimir. A matriz resultante é tintada com um rolo e pressionada sobre papel umedecido com uma prensa. Desse modo se consegue a gravura com cópia impressa. Com matrizes complementares, que devem ser confeccionadas em separado para cada cor, pode-se imprimir uma gravura policrômica”. (MARCONDES, 1998, p.303).

Constituição do coletiv0- manifesto


“A compreensão do coletivo como fortalecimento de objetivos e potenciais, além da dissolução de problemas e divisão de etapas de trabalho, sem que com isso o individual se dilua, é o próprio desafio do homem global e sua prática na cultura contemporânea. Não se trata de massificação igualitária e utópica, mas igualdade de condições e possibilidades geradoras. É o coletivo que afirma a individualidade e a potencializa em direção a uma relação aberta com o mundo”.
Trecho do Manifesto Horizonte Nômade.


Manifesto Coletivo Maquínico Estelar


Nós, integrantes do Coletivo Maquínico Estelar, viemos através dessa exposição apresentar o primeiro lançamento de algumas das imagens produzidas durante o breve período de nossos encontros, realizados ás 5a.s feiras pela manhã, nas dependências do Núcleo de Atenção Psicossocial-2 localizado na Praça Chile, Parque das Nações, município de Santo André - São Paulo- Brasil.
Nesses encontros desenvolvemos o ofício de gravadores de imagens utilizando a linguagem-produção da xilografia/xilogravura enquanto elemento viabilizador de nossas poéticas próprias.
Nosso nome decorre do fato das primeiras produções, em grande parte, terem se dado através da imagem de uma estrela enquanto produto inaugural do registro de cada integrante. Vale ressaltar que não houve, naquele momento, nenhuma comunicação verbal ou gráfica entre nós, mas à medida que começamos esse oficio uma das primeiras imagens gravadas era estelar.
Para esse evento selecionamos um conjunto de composições realizadas sobre o prisma inaugural do desdobramento emergente disparado através do encontro com algo novo. Algo que se inaugura em nossas vidas através de uma explosão luminosa que aparenta manter-se na mesma posição, contudo ao ser observado pela vista desarmada apresenta uma certa cintilação.
A todos que aqui se encontrarem maquinamos desejar duas potências vitais: SAÚDE E FORÇA.
Afinal, assim como vocês, somos também constituídos do mesmo elemento fundamental da formação do Universo, aglomerados nessa associação corrente coletiva da qual o vivo urge e a vida constela. Saudações Maquínicas a todos.
Boas Visões!


textos citados:



DELGADO,J.M.R.Le conditionment du cerveau et la liberte de l‘ espirit. Ed Dessart,Bruxelas, 1972.
GALLETTI, M.C. Oficina em Saúde Mental: Instrumento terapêutico ou intercessor clínico?, Editora da UCG, Goiânia, 2004.
GUATARRI, F. Caosmose, Ed.34, São Paulo, 1998
MANIFESTO HORIZONTE NÔMADE, mimeo
MARCONDES, L. F. Dicionário de Termos Artísticos , Edições Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1998.
MINISTERIO DA SAÚDE. Legislação em Saúde mental 1990-2002, 3a. edição revista e atualizada,Brasília, 2002.
MORIN,E. O método 2, a vida da vida, Ed. Sulina, Porto Alegre, 2001.


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