XILOACONTECIMENTO-3. CARTOGRAFIAS OCUPACIONAIS- coordenadas da maquinoativação-9


(fotografia, andre nunes,2007)

Ao se depararem com a jóia diamante de P. impressa no papel, repetidas vezes, entintada preta sob papel sulfite branco, formando uma espécie de tesouro repartido, os integrantes daquela grupalidade começaram a despertar-demonstrar um interesse que orbitava frente a um fazer comum a todos.
Depois de impresso o diamante, P. não voltou mais ao ateliê. Ganhara alta de Hospital-noite, e foi para casa, mas deixou a porta aberta para seus companheiros de ação.
Uma certa unidade comum de experimentação, uma comunidade experimental, desdobrada por P. , ganhara espaço de ocupação para os demais. Algo da ordem do desejo parecia ali se grupalizar, algo da ordem do desejo parecia ali tomar a forma coletiva de uma vontade de criar que ganhava potências naqueles que passaram a querer fazer de “uma ação” um meio (ou fim?) que transpassava, e muito, a questão de estarem reunidos, apenas, para gastar as horas no interior de uma atividade do dispositivo clínico. Em torno desse acontecimento divido pelo grupo-oficina, começou a se instalar um movimento bastante particular. Os outros integrantes passaram a querer experimentar juntos: o fazer-xilográfico.
Tudo era novidade, apenas dois integrantes (contando comigo e P.), já haviam gravado em madeira. Mais adiante integraria-se ao grupo A. que também já fizera xilogravura na época anterior de adentrar a instituição de saúde mental em busca de tratamento para seu sofrer. Num primeiro dia, cinco integrantes, sem que houvesse ordenação qualquer, comunicação de tema, enfim, o espaço de criação dado era livre, aberto a inscrição na madeira de qualquer uma composição livre e própria, mostrou-nos algo comum, que mais tarde se repetiu naqueles que adentraram o grupo aberto a novos integrantes.

Não havia na sala qualquer produção que viesse estimulá-los na inspiração de suas composições. O que aconteceu foi algo bastante relevante e particular. Começaram num interesse crescente, e que muito nos surpreendeu- cada qual a seu tempo- sem que houvesse comunicação verbal ou gráfica- a compor, “desenhar”, cavar e imprimir uma imagem-figura de um mesmo símbolo.
Não haviam combinações entre as pessoas. O material era dado, as etapas do processo eram explicadas, e auxiliávamos no fazer-aprendizagem da técnica. A cada dia de trabalho gravávamos imagens novas, que ao término da oficina eram guardadas.
Mas havia ali uma surpresa que a cada encontro, desde os cinco integrantes que iniciaram o processo de experimentação até os novos que entravam, uma surpresa em comum. A primeira imagem gravada por cada um era de uma estrela. E isso se repetiu por um certo tempo, em cada um seu fazer xilográfico era disparado a partir dessa imagem simbólica. O que estavam querendo nos dizer com isso?
Hoje revendo esse acontecimento, e somando ao mesmo outros sentidos implícitos, vemos que de certa forma tudo conjugava uma atmosfera de novidade. GRAVES GRAVIDADES GRAVITANDO EM GRAVURAS. Um universo referencial surgia através dessas ocupações. E as estrelas de cada um? O que estavam mesmo nos querendo mostrar?
A dra. Nise da Silveira, em seu escrito “Estrela de Fernando Diniz” http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/pdfs/estrela.pdf
nos conta um processo vivido por um dos integrantes dos Ateliês do Engenho de Dentro. Nesse menciona sobre os estados de ser presentes na obra de Fernando, sua interação com o ambiente e seus processos de criação. A forma escolhida por Fernando para tamanha expansão de seu processo criativo regenerador é a de uma estrela de várias pontas.
Estrelas há várias, cada qual com seus brilhos, tempos de vida, explosões no tempo espaço, irradiações de luz. Formadas por pontas luminosas, podemos aqui associá-las a alguns de seus significados presentes no Dicionário de Simbolos:
“ No que concerne á estrela, costuma-se reter sobretudo sua qualidade luminar, de fonte de luz. As estrelas representadas na abóboda de um templo ou de uma igreja dizem respeito, especificamente, ao significado celeste desses astros. Seu caráter celeste faz com que eles sejam também símbolos de espírito e, particularmente, do conflito entre as forças espirituais (ou de luz) e as forças materiais(ou de trevas). As estrelas transpassam a obscuridade; são faróis projetados na noite do inconsciente...
Estreitamente ligada ao céu, do qual depende, a Estrela evoca também os mistérios do sono e da noite; para resplandecer com seu brilho pessoal, o homem deve situar-se nos grandes ritmos cósmicos e harmonizar-se com eles.
...estrelas de sete e oito pontas, simboliza a criação, mas de modo algum uma criação realizada e perfeita, e, sim, em vias de se realizar; indica um movimento de formação do mundo ou de si mesmo, um retorno ás fontes aquáticas e luminosas, aos centros de energia terrestres e celestes. Simboliza a inspiração, que vem materializar ou, melhor, traduzir os desejos até então inexprimíveis do artista.” (CHEVALIER,J. GHEERBRANT,A. Dicionário de símbolos, ed. José Olympio, 21a. Edição, Rio de Janeiro, 2007, pgs. 404 e 409)
Cada integrante do grupo de xilogravura inciava seu processo de fazer através da produção da imagem de uma estrela, mais uma vez cabendo dizer, sem que houvesse comunicação verbal ou gráfica de uma composição possível como tema inicial. Eles vinham e gravavam estrelas, estrelas explodiam na madeira, estrelas explodiam nos papéis entintados, estrelas explodiam cheias de vontade de potência, estrelas explodiam nas esperas desses integrantes em talvez esperançar algo diferente e melhor...



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