CARTA AO DESTINO

(ilustração, andré nunes,2008)
Sr. Destino,
Eu venho por meio dessa comunicar algumas questões que venho recebendo do senhor. Também aproveito o momento para emitir, através dessa, algumas inquietações que convergem nas construções e tentativas de manter-me atento a seus chamados.
Como é sabido de sua parte, andei lendo livros cheios de palavras que moldam idéias de outras pessoas. Fiz isso numa tentativa letrada de produzir uma tábua de salvação para minha insegurança frente as ondas do desconhecido. Mas a dias, e todos eles levantados com pé direito para sorte vir a ser, uma interferência de outra ordem vem sendo pronunciada por algo presente em mim. Ando a me questionar: Não é ingênuo demais por parte de mim e das pessoas pensar e crer que as palavras quem salvarão a humanidade?
Tenho estado meio descrente frente a vida. É que essas mesmas palavras, por mim questionadas, acabam por impulsionar essas inquietações que agora passo ao senhor. Sabe, sr. Destino, ao mesmo tempo que elas constroem em alguns momentos (e assim evidenciam estados de espíritos), elas também destroem e ferem aqueles a quem acabam sensibilizando-se com tais aparições em outras ocasiões.
Quando dei iniciativa a emissão das obras que faço nesse contínuo vital, e através do uso de letras fui construindo um meio de me aproximar das outras pessoas, fui percebendo coisas que não sei mais serem certas ou erradas. Fui percebendo que algumas coisas são como é, e sendo assim, já há.
Vou novamente dizer estranho agora, mas não é bem isso também, um dos dilemas que tenho vivido é esse. Ao mesmo tempo que sinto dispor uma idéia através das palavras, e nisso uma busca de aproximação e afirmação frente ao vivo em mim, percebo que por outra parte acabo banalizando esse experimentar existente sem ser escrito.
As palavras são fundamentais e importantes, mas elas dão conta de quase nada. Escuto-me e leio-me, em parte reconheço aquilo que fiz e expresso, mas em outra parte parece que tudo isso também não me diz mais respeito.
Há outros que lêem e vistam todo esse composto em visitas. Se aqui retornam, a esse mundo palavrório, é porque algo buscam através daquilo que expresso. Poucos se aliam na troca de afetos em palavras (namastê!). Mas da grande maioria recebo o silêncio como resposta.
E como é possível haver construção de rede humana sustentada e alimentada de silêncios?
Desde sexta feira, depois de uma conversa tensa e conflitiva que a vida trouxe, percebi algo que apresenta-se contraditório no verbo silenciar. Ao mesmo tempo que ele tem um agente de reparo frente ao sonar vital, tem também um pé-ruído instalado na morte. Sendo assim sr. Destino, eu te pergunto: A morte é por fim irreparavelmente o grande silêncio?
E ao silenciarmos em vida, estamos voltando nossas potências para o derradeiro irreparável?
O silêncio se faz necessário em momentos, mas te digo disso que sou e do pouco com quem no dia-a-dia encontro verdadeiramente: Eu que vivo uma vida silenciada, estarei construindo a mesma sobre a morte? Isso mesmo, minha vida verdadeira está na ordem do silêncio.
Quando se passa por experiências marcantes de ruptura, como a perda de alguém ou de um estado de ser que era raiz existencial, e nisso descobre-se algo novo em vida, que também há um pouco de morte, e ainda que aqui todos estamos em corpos de passagem... então te pergunto, sr. Destino: É assim seu conceber de ordenação maior, vislumbrada por ti, enquanto quem tu és? Fora experimentar e provar o que é vida, que outra evolução agente nos é possivel ser fora viventes-provadores e experimentadores?
Se em parte construímos e produzimos coisas. E nesse produzir destruímos formas vivas transformando o mundo em algo por fim degradável e irrecuperável, o que faz de nós sermos merecedores de tamanha façanha e farsa? De achar que estamos reparando e regenerando algo que nunca existiu e/ou existirá?
Sr. destino, para além da busca humana em saber-se quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que são as coisas, etc. A que se faz presente sua presença, além dessa cruel melancolia? A que tu também te destinas?
Abraços
andré

Comentários

Rose666 disse…
Amigo lá tô meia melancolica e aquela sexta foi deveras marcante e divisoras de águas..se a ti ficar o silenciado ..eu digo a ti não sei o que fazer pois não consigo me silenciar.. e as vezes faço mau uso da palavra.. Agora compartilho do teu sentimento de solidão ao falar, e ainda bem que tenho a tua comapanhia no Dasa Mahavidya e posso aqui falar em tua casa. eu sou assim falo em ququer situação.
Um meio de encontrar calor na vida e talvez poder me silenciar na morte. Volto na memoria uma experiencia de quando entrei em uma caverna pela primeira vez, caverna sobradinho em são tomé das letras, eu e mais duas colegas..lá dentro a sensação é de solidão no sentido de estar consigo , pois mau se vê o outro.e qquer outra coisa..e ouve-se só o eco das proprias palavras e estas assumem uma dimensão não mensurável. sensação é de vida e morte , que só é apazigada quando ouvimos ecos de outras vozes. Agora sinto que é assim que me sinto na vida e isto já faz tempo! Por isso não paro de tentar ouvir ecos de outros ...um só eco diferente do meu basta e me dá carga para continuar a procura do fora deste lugar escuro e solitário. O Sr. destino que dotou de muita energia para não desistir de tentar e acreditar, apesar de as vezes me sentir tão desorientada.
Namastê
E fica com meu eco-colo amigo
Rose

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