CARTA Á NÊMESIS, ou como se tornar seu arqui-inimigo.

(ilustração, andre nunes, 2008)
Cara Sra. Nêmesis,
Apelei a seu meio-irmão Sr. Destino, que de seu trono soberano referiu-me não ousar desobediências a suas leis escritas antes de todas essas criações. Mas sei que eu, ao atravessar mais uma Noite, sob o olhar de Nix (sua mãe), acredito que tu decerto ouvirás meu lamento.
Fora o silêncio e a escuridão consagrada desses dias em que rumo para o vazio, de onde tudo surgiu, apelo a você que interceda frente a minha hibridis desmesurada e aponte um caminho mais certeiro frente aquilo que hei de encontrar adiante.
As questões referentes aos modos de sustentação de uma rede silenciosa hoje não mais me afetam, como num passado próximo faziam, sinceramente não mais me afetam. Quero mesmo hoje que pese sobre mim algo de seu poderio ético frente as situações de misérias existenciais enfrentadas por vários humanos que circundam meu cotidiano.
Pois bem, Sra. Nêmesis, é que a luta debastada de poder, somada a realidade velada pela loucura alheia, vem sendo aos poucos removida e já não tenho mais como deixar de ver coisas antes escondidas.
Dois episódios marcaram-me com tamanha intensidade o passar do tempo carregado pelo dia esquizogênese, que nem sei bem ao certo como intervir neles a partir de uma condição mais ética possível. A primeira configura-se enquanto um entrave na vida de titânicos operadores de realidades e subjetividades. Esses, nos quais me incluo, depararam-se com uma situação limite onde as forças moventes de seus atos encontravam-se com conteúdos de fúrias escondidas de um outro vivente. Ter por fim de usar a força física, segurando nos vários braços que o sujeito em crise exigiu e instalar um viés de violência na contenção daquele corpo e espírito foi deveras marcante, enquanto um ação frente a estados perigosos do ser. Como pode o humano em proximidade a loucura, escorrer pelos poros, palavras e posturas seus mais recônditos segredos-verdades e mentiras frente ao viver? A loucura explode o ser?
O outro episódio mostrou-me algo triste da vida. Como é possível alguém, estando nela, entregar-se a tamanho abandono de sua morada? Uma casa muita suja e praticamente despida, onde poucas coisas firmavam aquele espaço de estar enquanto lugar de residência. Uma cama velha, uma mesa cheia de lixo, um armário aberto pelo peso de roupas encardidas, portas arrombadas em crises do existir, 2 luzes funcionando -uma lâmpada acesa para todos os 5 cômodos e uma lampadinha iluminando uma imagem de uma santa, ausência de água somada uma privada cheia de dejetos e fezes secas até a borda, muitas bitucas de cigarro espalhadas pelo chão e uma imagem de jesus bordada num pano sujo que flamejava ao sabor do pouco vento que adentrava as frestas de uma janela fechada...Do que adianta usar medicamentos de última geração científica e palavras e discursos acadêmicos requintados quando aquilo que é mais básico inexiste nas vidas dos sujeitos? Como propor um projeto de vida se essa há muito foi abandonada? Como fazer de todas essas questões meus conhecimentos arqui-inimigos?
Grande abraço
andré

Comentários

Rose666 disse…
É amigo diante de tanta afetação cotidiana de hoje, no limpar as merdas das instituições e dos projetos e falas acadêmicas . Várias foram as vezes que adentrei a estes lugares e vivi dias como esses de invasão e abuso da lucura do outro. Quando hoje após 12 anos ainda tenho que lançar mão dessas últimas opções , fico mau a me questionar.
Entende, por que várias vezes ir e ver o que vistes , eu ainda seguro a minha mão em não entregar este poder e me obrigo a ficar neste lugar que não é meu e não tenho a mínina vocação para essa tarefa! A minha vocação é ir aos lugares que foi, qtos ele permitiu à entrada em sua morada que mais se configura aos nossos olhos de inferno em vida. O sonho era de deixar pessoas que continuassem a construção dos alicerces que plantamos. De ir aonde que voce foi e partir dessa realidade questionar os projetos -vaidades -academicos.
em um mês vislumbro que isto é um sonho apenas, estou lá pra administrar vaidades e joguinhos de poder. Prefiro a merda endurecida das privadas sujas , as merdas frescas que limpei hoje . Merdas de vaidades pessoais, instituicionais que nada tem haver ou prioriza as necessidades de quem cuidamos. O sistema é muito maior do que minhas intenções, ele tá tão podre , que não é só vitima da contaminação pela peste emocional. Hoje ele encarna a propria peste.
eu estou com medo de ser contaminada!!! E triste abrir mão do que mais gosto lá dentro e fora . A vida que construi fora de lá , e que amo muito também, tá correndo sério risco de se desestruturar. E será que tal sacrificio vai valer a pena !
Na segunda-feira o que segurou a minha mão foram as privadas sujas de merdas antigas e ressecadas!
Acredito que este comentário, que se configura em mais um texto, não só mais uma lamuria e sim uma denuncia da podridão escondida abaixo dos projetos acadêmicos. E uma forma de te dizer que bom, existes sementes férteis, que eu não precisei semear ! Isto me traz um tanto de esperança e fé! Deve existir mais André's !!!
Namastê
Rose

Postagens mais visitadas