ESTADOS DE CLÍNICA SEM CLÍNICA

(fotografia, andre nunes, barcelona, 2007)
Repare bem, o que agora estou prestes a escrever a mim também é difícil dizer, devido muita ignorância. Digo difícil e ignorância, por não saber a fundo da existência de muitos outros que assim pensam esse chamariz de idéia e composto. E também por não saber das consequências implícitas nessa concepção ocupacional do espaço/tempo. Mas vou tomar essa liberdade de dar vazão ao fluxo do devir, por não me encontrar preso-nem paralisado-nem engessado com modelos e moldes de estruturação desse ideário, e assim estabelecer um fazer que se faz tentando, e ainda ousa associar a isso tudo esse meio ao qual nós nos lançamos ao instaurar o maquinomovel nessa viagem à maionese.
Serei o mais claro possível que puder ser, não só a você, viajante, mas a mim também, porque frente a isso que está por vir, somente posso abrir um campo de conversa contigo ao assumir minha verdadeira condição ignorante frente a esse ato em composição.
De certo que a primeira coisa a fazer é te passar um pouco sobre esse local ao qual estava e que por um encontro diferenciado acabei por sair e aventurar-me para lá da fronteira. Bom, faz um certo tempo, mais ou menos 6 anos, que passei a ocupar um lugar denominado por um curso que fiz de INTERFACE ARTE-SAÚDE. Lá estive presente, e rumei para uma região onde as linguagens e ilusões existentes no campo das artes fortaleciam um pensar saúde e instrumentalizavam operações no campo clínico.
Na Interface, construi para mim uma identidade híbrida de terapeuta plástico/artista ocupacional. Lá compus um texto HÍBRIDO que condizia com a situação na qual estava imerso na época. Contudo, durante essa nossa viagem à maionese na qual o maquinomovel foi lançado, acabei por descobrir algumas particularidades existentes entre o processo de produção do produto- maionese, alguns princípios fisico-químicos que dão consistência a mistura, liberdades poéticas na composição do nOVO misturado ao ÓLHO, e ainda uma espécie de ilusão presente nessa tentativa de representação de uma realidade subjetiva que agrega posicionamentos e ocupações frente a produção de conhecimentos.
Gostaria então de afirmar aqui que, o que passo a fazer desde então deixa de ser chamado clínica de TERAPIA OCUPACIONAL, e nessa também deixa de estar presente numa tendência hegemônica mundial de se formatar a TERAPIA OCUPACIONAL ENQUANTO CIÊNCIA DA OCUPAÇÃO HUMANA - TENDO COMO ÚNICO OBJETO AS OCUPAÇÕES HUMANAS E AINDA A INSTAURAÇÃO DE MODELOS DE OCUPAÇÃO HUMANA E DESEMPENHO OCUPACIONAL. Mas sim, o que faço aqui é outra coisa, quem sabe seja apenas compor texturas e literaturas baratas que podem ajudar a se pensar um modo de terapia ocupacional periférica. Entendendo o termo periférico enquanto multiplicidades de sentidos. Desde as máquinas instaladas nos terminais dessa rede internética, aquilo que se localiza nas bordas e limites de algo supostamentamente centralizado, assim como algo que gira em torno de uma extremidade marginal de proximidade. Como se orbitando um estado de clínica sem clínica.
Quando te escrevi no último texto ENCONTRO, e remeti ao fim da clínica, estava a pensar sobre isso, não a morte dela, mas um limite, uma zona do comum possível, algo distante por em parte se desdobrar sobre a possibilidade afetiva de se configurar uma clínica que prescinda da concepção patológica para poder existir e ainda associado a uma outra posição de diluição do cuidado numa CLINICA DILUÍDA em DEVIR MISCÍVEL.
Volto-me então para a região fronteiriça da Interface arte saúde e digo-te que lá se configura uma atmosfera coloidal também, e quando lá estava tomei conhecimento de um híbrido outro. Um Híbrido presente na obra de Lygia Clark. Uma artista plástica que ao ir desconstruindo uma concepção de obra de arte foi adentrando uma região de fronteira onde pode compor um ESTADO DE ARTE SEM ARTE.
Estou, após alguns anos experimentando ocupações artísticas, prestes a mergulhar no universo da ARTE- ao voltar minhas linhas de fuga para tal campo-, e lá estando saído da clínica, gostaria de levar em meu corpo um certo estado "ocupado:pode entrar" e de cuidado nesse fazer, uma clínica diluída, desocupando um estado de clínica pura- centrada num iscurso patológico, tendo DELEUZE NA CAIXA DE FERRAMENTAS e ainda em perspectiva uma antena-bandeira ressonante do fronte de se construir ocupações POR UMA ARTE MENOR.

Comentários

Rose666 disse…
Oi estou aqui devolta para dizer que gostei muito do que li, ao ler fiquei a pensar e a estruturar ou destruturar essas questões da clínica esuas ações. E ao rever o dia de hoje e te digo , estou a repensar estas questões em todos niveis pois eles estão mais na carnes do que só no pensar. Um jeito meu de fazer e seguir as minhas ondas para depois elaborar e metabolizar. Chama-me atenção este teu pensar/sentir pois ele remete a zona do desconhecido , do estar no campo do é não sendo. Ler o teu texto me ajudou a conjecturar a minha irritação diante das estruturas clínicas massificantes e entender . Esta ressonância me fez sentir mesmo só. Gostaria de ter a tua paciência e compreensão diante do cronificado, da clínica cronificada , ou melhor morta. Pois conceitos e analises que engessam os individuos e os transformam em objetos, transformando suas vivências, prazeres, sofrimentos em diagnósticos,prognósticos e norteam técnicas massificantes são desprovidos de vida . Falam e veem somente a morte e a doença.
A atual clínica cuida da morte e não da vida...
Hoje de uma forma afetada e diria irritada mesmo tenho uma reação diante disto, não sei como muito fazer também , mais sei como não quero mais interagir...não quero repartir e socializar técnicas e conceitos e diagnósticos...quero falar de como sinto as pessoas ...um jeito de falar do que as pessoas sentem e agem...como as apreendo em minha interação ....como as sinto e como me sinto nesta interação...e não me ater a manuais técnicos..o ação com o psicótico é assim ...com histérico é assado...quero levar na minha bagagens a compreensão da vida...como a sinto e apreendo ...bem como os outros pensadores/viventes compreenderam a vida.
Quero uma clínica viva e pulsante ...se isto é um estados de clínica sem clínica ,não sei...só quero estar viva neste exercer clínico
Falo tudo isso porque a tua indagação/texto provocou em mim uma resposta.
Namastê
andre miolo disse…
Rose,gosto desse espaço aqui porque nele podemos com.versar- ou seja, versar com, o modo como você percebeu esse "estado de clínica sem clínica" é um jeito possível. Gostei bastante de poder ver que, apesar do desconhecido nosso(foi assim que me pareceu) há uma vontade de potência de construção de trocas de experiência e conhecimento.
namastê, minha amiga
grande salve e grande saúde a todos nós
andré

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