A CUT TO CHANCE IS A CUT TO CHANGE

(fotografia, andre nunes, barcelona, 2007)

Prezadas Moiras,
hei de confessar que essa é a carta última que escrevo aos deuses enquanto formato de expressão dessa busca insólita por sinais que orientem o trajeto final desse blog nessa forma.
Parece estranho isso que hoje faço. E venho por meio dessa não explicar, mas simplesmente reconhecer . A vida tem mesmo ciclos de movimentos instalados em espirais. E as vezes aparentam ser caóticos, mas ao olharmos os fatos de maneira distanciada acabamos por perceber que, tem a vida uma organização própria. E isso se repete de várias maneiras, tal qual a mesma estivesse rodando num centro interno gerador de intro-versões muito particulares. E ainda, dessas introversões irradiam-se linhas-eixos que descentralizar o núcleo, são extra-versões que acabam produzindo uma outra modalidade aparente as demais pessoas. Tal qual uma roda, onde se fiam os fios vitais. O eixo dessa refere-se a interioridade subjetiva de cada ser. A borda, extensão do centro que toca a fronteira com o que não é mais roda, refere-se a aparência da exterioridade subjetiva nas trocas de cada um.
No passado, hoje revendo, tinha páginas de escritos diários em outros domínios dessa grande rede. Aos poucos ia me mostrando, mas ainda não estava preparado para suportar a arrogância exercida por mim e pelos outros frente ao que na maioria das vezes produzia sozinho. Aquilo que tornava escrita afetava as pessoas que ali buscavam referências dessas subjetividades internas e externas. Respostas em outras esferas me eram dadas, as vezes diretamente outras vezes não. E ia percebendo o quão essa tramagem era por demais cambiante, sendo que as trocas realizadas não me conferiam lá muitos ganhos e sim mais perdas porque quem arrogava tomava a posição de auto-referência naquilo que escrevia. E descobri naquela época, que essa era uma das dores e das delícias existentes nas linhas escritas. Havia, como hoje ainda sei que há, poder de influenciar os demais. Daí da palavra ser móvel.
Naquela época ainda não tinha maturidade suficiente para isso perceber, na maneira como esse quase um ano fiz. Dei um tempo ao silêncio. Recolhi tudo que havia postado. E num rumar dinâmico mudei-me para esse espaço maquinomovel.
Algo compus nesse tempo. As várias idéias foram postas a quem quisesse ver um dos modos como produzo vida. Resolvi por fim instalar uma enquete para medir o tamanho da rede relacional que se expressaria nos domínios internéticos. Foram 18 votos, em 7 dias, que me mostraram que tudo isso tinha mesmo um grau de diferença. Nesse composto denominado “viagem na maionese”, desdobrei-me por 1 mês na busca de informações que viessem auxiliar-me na elucidação desse rótulo.
Passada a viagem, resolvi terminar a saga através de uma carta enviada ao Destino. Que esse apontasse alguma saída frente ao que vivia. E o Destino, implacavelmente, disse para eu aceitar suas linhas já traçadas.
Fui tomado por minha hybris, meu destempero. E ousei enviar uma carta outra a Vingança. Essa pediu para que eu prosseguisse. Dialoguei com Nêmesis, Eros, Psiquê, Tânatos, Mania, Hipnos e por fim, num sonho, percebi que mais uma vez o Destino havia sido sábio. E sábia fora sua ação, pois hoje, ao ver-me escrevendo a vocês, sei um pouco mais a cerca da soberba humana.
Essa trama que ocupou essa quinzena foi fiada, medida e hoje, nessa carta, sei que será cortada. Mais uma vez recolhi meus escritos, mas não de repentemente. Após ter-me deparado com o oposto do que é ausência, percebi algumas coisas importantes para levar comigo vida afora. Em primeiro, descobri que, queixar-se de ausência não produz aproximações, mas afastamentos. Em segundo que toda atividade humana dividida nas relações várias existentes na vida, devem ter início, meio e fim para serem realmente completas. Caso isso não ocorra é de ausência que se viverá a sofrer. Tal como se a roda vital estivesse, não girando em espiral, mas sim numa circulação auto-referente a todo momento onde vida (fora de nosso controle) nos atravessa. Em terceiro, que ninguém tem a capacidade de destruir integralmente aquilo que foi edificado no experimental vivido. O sentido subjetivo é sempre muito singular. Por quarto, compreendi o que me incomodava em algumas páginas passadas, e também o que me incomodava na atitude de algumas pessoas que sei visitarem o maquinomovel. Era arrogo caracterizado pela altivez insolente de deixar com que a permanência se desse pela postura arrogante frente a vida. Isso me veio hoje de maneira muito simples. Eu estava no trem, rodando pelos trilhos pensando muito sobre isso aqui. Do quanto também sou arrogante nessa escrita, como muita gente que escreve é. Pensava sobre isso quando senta-se do meu lado um senhor bastante simples, com uma sacola de mercado nas mãos. Esse homem de aparência muito simples, retira de dentro da sacola um livro de filosofia de Decartes. E ao abrir o livro lê aquilo com uma feição muito tranquila, como quem estivesse entrando em contato com algo comum a todos ali do trem. Mas aquela cena me pegou porque essa leitura era feita numa paisagem em deslocamento, que em minha arrogância não conseguia entender, pois a paisagem era composta por um trem de subúrbio cheio de pessoas cansadas de trabalhar o dia inteiro e janela fora favelas e lugares abandonados sem muitos recursos, onde essas pessoas saltavam do trem.
Aquilo para mim foi tão marcante que me fez entender alguns de meus preconceitos. Alguns incômodos frente ao modo como algumas pessoas escrevem e se posicionam frente a isso e “produzem” saberes em cima de vidas assim, cheias de outras carências, mas lidas sobre a ótica de achar-se apenas através do "penso, logo existo".
Mas por fim, me fez entender que foi por orgulho que não li a mensagem enviada por Destino. Desobedeci e hoje, não é atoa, que escrevo essa a vocês, Moiras, visto que de suas responsabilidades uma delas é tecer o destino humano. Talvez nesse momento o olho dividido entre vocês tenha visto deveras que existe medo somado a uma potência do nOVO OLHAR. Podendo eu mover-me agora, ao sair inteiro desse estado queixoso de ausência, ignorante do que venha a ser vazio em devir. Movel para adentrar novas ordenações, mobilidade para posteridade em gerações futuras.
Grato a tudo, e grande salve
andré

Comentários

Anônimo disse…
Sugiro o livro: O Erro de Descartes
Voce vai ver que nao e' preciso pensar para existir.
Sorry pela arrogancia ao escrever pra voce. Beijo e muita paz.
Sancler
PS- vou mandar um email pra voce. To aqui pensando... sera' que o senhor do trem sabia le?
Rose666 disse…
Não sei bem o que dizer, falo muito a partir do eu e de minha afetações. Entendo e compartilho da soberba, eu a vi em mim também. Lá no Dasa Mahavidya a aussencia tbém existe, mais sabe que no fundo ela não me incomoda tanto. Por lado travei uma conversa interna e decide dividi-la ao um universo desconhecido, sem muito esperar.e desta forma as presenças passaram a ter mais importancia que as ausências.
E talvez neste fim, neste corte da moira implacável , eu deixe aqui meu depoimento :
Foi bom travar este dialogo com o maquinomovel neste 1 ano,e conheci através dele um André que a afobação e tarefação cotidiana me impedia de ver, um "poeta" com uma mente sem fronteiras. E gosto de tua irreverencia, audácia, e autencidade.
Começamos juntos esta de criar um blog, eu inicei e voce voltou, após a criação de nosso sabio amigo
Zé e dos afetados pelo zé povão. Lembra foi lá pelo 18 maio!
eu cresci muito de lá pra cá e acredito que me tornei menos soberba e mais humilde diante de enfrentar as minha dificuldades e sair do anonimato soberbo e critico de quem nada arrisca e não expõem .
Deixo pra a imagem do sorriso de nosso amigo em comum . Aquele sorriso indescritivel,desdentado,maroto e sábio!
Namastê
de tua amiga nocotidiano e no virtual.
Rose
Anônimo disse…
NAVALHA NA CARNE, caro né.

e hoje que me instalo com buzanfa e desejo diante do maquinómóvel: ele não mais como vinha sendo.
e noutro dia que entrei era o do engessamento. meu acesso à net ruidosamento tramando para que a nossa relação não seja virtual. será?

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