LOW CURE

(ilustração, andré nunes, 2002)

Mania,
Invertido do céu além, mesmo mesmo para onde for da noite em vão. No sarcófago o gato mia suspeitando sentir fome. Sei disso. Na sala de estar uma gaiola aberta é hospedagem da boneca da menina sem cabeça. O anjo repleto de “daimon” as vezes constrange meu transitar. A cidade, a cidade não é mais a mesma. Tenho nas mãos dedos a mais do que te servem limpar. Perfuro um pensamento constante com um pregar de aço na ponta do osso craniano. Sou Deus, as vezes, e seu oposto também. Já fui o pai, hoje trovejo. A angélica conversa comigo nas tardes sem companhia. A família toda renega os modos de ser que fui guardando em mim. Bordarei mantos de suspensão ao céu além. Confundo-me com os passos que tenho que dar. No ônibus e na vizinhança sempre eles, os outros, a reparar aquilo que tramo no enredo de meu quarto-cela-vida-apartamento. As mulheres do outro lado da rua confirmam minha impotência diária. Acolchoo meus ouvidos com espumas travesseiradas. Sou dono e rainha dos mundos além do infindus. Jogo no jacaré que habita minhas entranhas toda minha esperança de sentir-me ainda viva. Quando tatuei isso na parte do braço que hoje escondo, era nada mais que isso. Sou homem ou sou mulher aonde bem sei estar. O mundo é um travestir-se em travesti. Não me encare assim, o planeta vermelho cuspiu-me aqui nessa sarjeta. Se ao menos eu soubesse como sair do trecho do trevo da rodovia onde me abandonei. Não tem hora certa, não tem, mas as vozes são muito mais intensas a noite. Completo-se hoje quase um ano sem dormir. E essas pílulas remediam esse mesmo a me matar. Como é triste olhar pela janela de vidro sujo e ver que todo esse mundo é cadáver morto E me invejam, me invejam, mesmo sem saber o que tenho assim da propriedade da importância. Sou casada e não sou, e tenho filhos e não os tenho, vivifico e abortejo. Já fui santa nos dias em oração tarde adentro. Vejo assim, pelo mover de seu olhos,essas bolas bailarinas, o quão infecto de descrença você comporta. Daqui ou de lá, do pai da mãe, de língua falada mais alta, são sempre esses diabos que me habitam em cores. Era pavor o que sentia da própria sombra e como era difícil perceber o mundo. Matei e não matei em atropelo as crianças. O mais árduo foi absorver vazio, aquilo são luzes saindo de seu cabeça quando pensa, vazio era estar na vida.
De onde vem não sei também, mas é tudo real, tudo aparente, não percebes? Ali ao seu lado, sobrevoando no canto do ombro direito, nada?
Me diga Mania, por coisa que houver:
o que é A VERDADE?
andré.

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