TANTOS TÂN~A~TOS

(fotografia, andré nunes, barcelona, 2007)

Tânatos,


São esses mundos esquecidos. Mas apanho meu último cigarro do maço. Fora a foto de um bebe em pote de vidro que hoje habita seus reinos, fui assim, desse jeito acontecido tomando passo de encarar essa mensagem a você. A cantora na música vespertina diz deixar os pulsos como saída de emergência. Apesar de gostar de suas músicas essa deve lhe doer frente ao ocorrido recente em sua vida, quando perdeu da barriga um outro vindouro em gestação. Tal qual aquele estampado na caixa de escolha que agora fumo. Percebi a tempos, isso é matar-se aos poucos.
Mas tenho mesmo tantos outros motivos a te endereçar essa carta. Não sei joga xadrez, o que inviabiliza uma partida dessas contigo. Mas já disputei um jogo de fé em seus domínios. E terei coragem agora de expor isso assim francamente aos demais? Talvez isso me valha ser inteiramente verdadeiro com as pessoas que aqui visitam essas páginas, e acompanham isso que quase diariamente é composto.
Meu processo contigo é longo, desde antes de eu nascer e cheio de seus atravessamentos. Desde antes de eu ver esse mundo outro que agora habito. E no qual hoje na embalagem nicotinada te vi em forma mal gestada. Pois bem, retomo aqui uma das tantas passagens na qual tu esteves presente e que realizaste esse seu trabalho digno frente ao fluxo contínuo vital. Não abarcarei aqui Hades, espécie de seu mensageiro, porque não é dos mortos a que estou me referindo nesse escrito, mas sim da relação que tive e que tenho que carregar aos passos cotidianos lembrando-me sempre que um dia tu voltas a firmar presença. É essa a ordem natural das coisas, não é?
Vou. Vou me permitir ser extenso. Porque incansável é seu trabalho no fretar final. Eu agora, tenho que tomar café. Talvez esteja fugindo dessas verdades. Dai-me esse tempo de elocubrar...
Não estou triste, perceba bem. É que dirigir palavras a você é algo da seriedade que estoura grave nos pensamentos. Porque de certo modo, você quem finda o maior processo de todas as atividades de cada ser vivente que seja. Nessa batalha , que nem sei se é batalha, mas acho mesmo que é um tortuoso desdobrar de indas e vindas, reencarnações e reapropriações de formas variadas sendo necessário para tamanha transformação suas intervenções. Pois bem, nesses acontecimentos desdobrados houve um que marcou em mim algo indelével. E que se carrego nas palavras hoje, é porque amanhã não há como esquecer isso, visto que estará estampado em muitas das casas e vidas humanas.
Dia das mães e faz 15 anos que a minha faleceu. Acho meio esquisito o fato de não mais me lembrar bem como ela era inteiramente. Assim como acho estranho alguém com 30 anos ainda ter mãe. Talvez o esquecimento instalado no tempo da perda sirva justamente para isso, para que a dor seja menor. No tempo que o tempo tem, e traz remediar aos sentimentos mais nobres, percebo que enfrentar a vida tendo nos brios perceptíveis a sua existência modifica totalmente o modo como se encara o processo adiante.
Nhô Eros me disse para confiar no que sentir. E Psiquê amorosamente afirmou que tudo é travessia. Hoje, estava no ônibus voltando para casa e mais uma vez aquele sonho voltou a acontecer. Sonhei que perdia todas as pessoas que conheço, todos estavam mortos, e me via habitando um mundo sem nenhum sentido. Acordei meio afoito, não é a primeira vez que isso ocorre. Ali percebi que tinha seriamente que endereçar essa carta a você. Porque, Morte, você me aparece em sonhos?
Amanhã é dia das mães, vou ao cemitério visitar o túmulo onde a lembrança da presença do corpo, da vida e da história desde o nascimento até o dia da grande travessia da minha se deu. Hoje não sou alguém inconformado com sua existência, sabe? Não sou mais aquele garoto rebelde. Mas de fato sinto receio em saber que você pode a qualquer momento intervir na vida dos que me são próximos. É seu trabalho, ou melhor, isso é você.
E eu , no meu trabalho com pessoas que psiquicamente apresentam graves sofrimentos com relação aos sentidos na vida, as vezes me vejo preso a uma condição tal qual Sísifo. Como se eu, ao aprisionar você em mim, tivesse como ordenação castigada o fato de rolar pedras que foram perdidas, e no final dos processos ver as mesmas voltando a anterior ocupação.
Não sei se esse meu sofrimento é aquele que constitui a minha ferida que não se cura, tal qual Quiron. Que sabia dar conta dos sofrimentos e feridas dos outros mas a seus problemas não sabia como agir, nem o que fazer para curar-se.
Olha Morte, embolei-me nos embrulhos trazidos pela correnteza vital, e descobri algo que também me causou espanto, fora a solidão, a certeza derradeira de sua presença no final de cada processo, há também algo que une as pessoas. Todos comportam em si um grão de Loucura. Fiquei mesmo a refletir se essas escritas contemporâneas que aqui deixo inscritas não seriam parte dessa minha que simplesmente divido com aqueles que aqui buscam algo que não sei. Daí me veio um pensamento, ao firmar o pensar em você, será que tanto terapeutas quanto artistas são corretores e corredores de ocupações da loucura humana? E assim estando nesses locus de operação diluem meios para confrontar você numa tentativa de brecar o irreparável? É essa parte da saga humana?
Finalizo aqui essa carta.
Atenciosamente,
andré

P.S: Não sei o que acontece, mas vou dizer. Tenho reencontrado muitas pessoas do meu passado, amigos que fiz durante o transitar da vida. E percebo que eu não cultivo as amizades como deveria. Isso tem haver com seus domínios em mim?É de se pensar...

Comentários

Rose666 disse…
Entendo e sinto o que diz, e no entanto não tenho palavras para te deixar. Lá Mahavidya estou a falar de uma "força", "uma energia", uma sabedoria contida em Dasa Bhuvaneshwari , a criadora do mundo. O mundo da materialidade tempo - espaço, então nela esta contida o jogo de nascer, viver e morrer. Nascer não controlamos , morrer muito mesmo e será que viver também . Estamos tão ligados a perda do nunca mais , que construímos a todo momentos maneiras de fingir que o nunca mais não existe. Tenho pra dizer que não sei como me curar dessa ferida, tenho tentado e não conseguido.
E de minha parte entro aqui e falo com voce, pois é uma forma se não de buscar a cura , pelo mesmo de admitir a ferida. E me sentir mesmo só nesta enfermaria.

Namastê
Rose
mariquarentei disse…
pra mim é sempre uma conexão....algo a ser posto ao lado a ser deixado...não sei como funciona no outro:
" a beleza essencial - nunca se trata do meramente bonito e agradável...trata-se de beleza como verdade...nela se integram tensões...assim nessa intensidade e autenticidade, as formas se tornam belas,de beleza imanente e vibrante...poder criar beleza representa.....a manifestação de sua consciência sensível"
" Então é assim - sabendo da transitoriedade de sua condição - que desde tempos imemoriais os homens foram capazes de responder à morte? Cantando e dançando para as estrelas? criando belezas?..."
DE Ostrower e de Shakespere.
Quanto ao nosso ofício penso que pode criar belezas...mesmo que ínfimas,mas belezas... e é aí também que se amalgma à produção de vida.
andre miolo disse…
Muito obrigado pela visita, Roseli e mari quarentei!
Grande abraço
andré

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