NONADA RETORNÁVEL

(arte digital, andré nunes, 2007)

Como fazer com que pessoas com sofrimento psíquico, muitas vezes presas em seu isolamento e dor, tornem a se apropriar de sua força vital e expressem o que se passa em seus universos de realidade?
Essa idéia RETORNÁVEL, exposta aqui na sua frente fez parte de um trabalho-expositivo realizado em 2005 juntamente a Débora Rico e os usuário do núcleo de atenção psicossocial-2 do município onde trabalho, Santo André-SP. Num trabalho desenvolvido pelo projeto/oficina "reconstruir a vida com arte", implantado em 1999. RETORNÁVEL emergiu num momento em que frente a escassez de recursos materiais reutilizou-se os papelões que serviam como apoio no transporte de refeições distribuídas cotidianamente aos usuários em hospital-dia.
Na época, a palavra RETORNÁVEL vinha estampada como aviso para que o mesmo retornasse ao serviço que distribuia a comida entre as unidades de saúde.
Esse suporte RETORNÁVEL, serviu como inspiração para a produção do novo tanto nos técnicos como nos usuários. Relembrando e alterando LAVOISIER para quem " Na natureza-HUMANA nada se perde, TUDO se cria, tudo se transforma" e o trabalho desenvolvido pela Dra. Nise da Silveira nas décadas de 40 e 50 do século XX, quando se via frente a falta de materiais para dar continuidade ao seu trabalho clínico/artístico, não pensava duas vezes, reutilizava as folhas antigas de prontuários abandonados no hospital psiquiátrico como suporte para a criação e tratamento de seus pacientes.
RETORNÁVEL, tocou e toca em pontos presentes no cotidiano do tratamento, da arte e da vida seja através de dar forma possível a:
  1. uma reutilização/reapropriação/reciclagem de materiais
  2. uma reinclusão das pessoas ao social
  3. uma rearticulação das potências vitais e de expressão dos sujeitos
  4. uma recriação, rearranjo de modos e meios para que o fazer (ação) das pessoas se efetuem
  5. uma redescoberta de que o mundo é, também, um lugar prenhe de vida
  6. uma reinvenção da prórpia trajetória e de novos modos de existir na vida
  7. uma retomada da potência de vida, que se reapresenta também, pelas vias da saúde e da arte.

Sugerimos que o visitante retornasse os olhos para as obras e assim fazendo teria a chance de rever nos traços, nas cores, nas formas, nas composições, algo do sutil, que as vezes beira o grotesco, o feio, o estranho, o não acabado, o imperfeito, o torto; mas que em nenhum momento podia ser DESCARTÁVEL enquanto VIDA, enquanto VIVO.

O RETORNÁVEL estava lá para ser revisto...

Achei isso escrito as presas numa agenda de 2005. Um texto composto para uma exposição que ocorreu. E logo em seguida escrevia algo que conversava com as questões recém apontadas naquele texto de apresentação.

PONTOS:

  • O que nos permite tratar o outro é a capacidade e possibilidade de se identificar- (sem tornar-se idêntico) na condição de sofrimento deste. Compartilhar desse estado gera uma alteridade que aproxima, algo que permite um reconhecer-se no outro e fazer com que o outro também se reconheça no um. Tratar é uma troca.
  • Há muitos anos os homens vem aprimorando suas técnicas e tecnologias sobre o cuidar de si e dos que estão ao seu redor. As figuras dos curandeiros, pagés, padres, benzedeiras, mentores, susseranos, artistas,etc são exemplos de ocupações emblemáticas na história humana que em parte dialogam com um certo quê de cuidado.
  • Fiquei pensando qual é a função da arte/clínica? Para que serve? Se é uma necessidade, algo que está como a carne para a fome, ou se é uma "extravagância", como uma alcatra com alho mal passada para a fome.
  • Porque penso que tudo aquilo criado pela humanidade, não se esquecendo que a clínica é uma técnica do cuidar, vem, de uma certa maneira, suprir uma carência ( emocional, física, social, química, relacional, etc...) através de seus modos desenvolvidos e manifestados em uma determinada época.
  • A moda, o que é? Sim, isso mesmo, a moda. E pensando agora que a terapia ocupacional tem as mulheres como grande massa de composição de seu corpo de trabalhadores me pergunto: E a saia na história da moda? E a saia envelope? E o uso da cor roxa na saia envelope da coleção primavera-verão de 2005? Seria a relação arte e terapia ocupacional um modismo frente cuidados prestados as pessoas?

Essa idéia de trazer as atividades vinculando-as aos cuidados a saúde dos humanos se deu no decorrer do desenvolvimento técnico e tecnológico de vários processos de diferentes civilizações. Mas a gente começa a ouvri falar de terapia ocupacional mesmo quando já existia um conceito-idéia de clínica. Que de certo modo já enquandrava procedimentos, métodos, técnicas e instrumentos relativos as formas "oficiais" de cuidar.

Lembrei agora de um exemplo que qualquer terapeuta ocupacional está cansado de saber. É certo que surge em dois momentos históricos no qual o conceito de cuidado e de reabilitação (nem sei se existia!) ganhava forma e força, visto que a cultura produzida da sociedade da época demandava esses atos, esses poderes, para com o cuidado da vida das pessoas e de suas roupas.

Quando PINEL, em 1791 na França, libertou os ditos loucos de seus grilhões e ousou transformar as relações estabelecidas com essa população, pretendiam pôr em prática conceitos vigentes para a época, tais como utilizar as ocupações como forma de tratamento aos doentes. Não estava apenas inventando um passatempo, estava fazendo MODA. Porque isso se propagou e difundiu pela Europa e pelas Américas, reinterando o caráter humanista presente nesse cuidado. Mas isso não foi posto sozinho, ao mesmo tempo em que outros valores e impactos tecnológicos iam sendo estabelecidos, como a revolução industrial e uma expansão cada vez maior do positivismo e dos métodos das ciências físicas.

Mas queria voltar ali, na França, naquele tumulto todo, só pra ver coisas combinantes hoje, acontecendo. Digo isso porque esse jeito de cuidar, baseado nas ocupações, perdurou na França até a primeira década do século XX, lá pelos idos de 1906... por aí... e o que é mais interessante é que começa no final do século XVIII, e se projeta por um pouco mais de um século. Até que se oficialize os ergoterapeutas enquanto categoria de trabalhadores. Mas então, eu queria voltar para aquele ponto nevrálgico, ali, lá pela metade do século XIX, e poder abrir ali um espaço pra expiar o que estava acontecendo na Moda da época.

Isso mesmo, nas indumentárias que revestiam as pessoas, como elas se ocupavam confeccionando seus trajes para sair as ruas, seus trajes para frequentar o ambiente público, seus trajes que de certa maneira revestiam também seus papéis profissionais. Sabe o que acabei descobrindo nessas de busca? Que essa história de ALTA COSTURA, quando a coisa passa a funcionar de outro jeito, surgiu ali em Paris que centralizava-se enquanto pólo emissor de tendências ao mundo, naqueles idos de 1857 com um costureiro chamado Charles Worth.

Ai vocês devem estar achando, que isso tudo aqui é nonada pura. Pera aí pra ver o porque associo essas coisas. O que o Charles fez? O Charles na área da moda, e se isso acontecia com as roupas imagina o que acontecia com as pessoas!?! Então, o Charles institucionalizou todo um sistema de produção de roupas através de casas de costura, através da autoridade dos costureiros, através da renovação sazonal das coleções e dessa forma ele criou uma tendência aos modos de funcionamento que já regaim as aparências da época. há quem aponte que o que se entende pelo termo moda no contenporâneo, tenha surgido aí.

Engraçado isso não? Porque pensa bem, o cara teve que institucionalizar, nesse sentido precisou centralizar em um pólo para que a criação institucional pudesse ocorrer de forma efetiva, ele teve que fechar seu processo para tendenciar as aparências... não é engraçado que com a loucura ocorreu um movimento parecido? Meio século antes, ali também na França, os caras desacorrentaram as pessoas mas elas permaneceram trancadas, agora sobre o institucional de trancar para tratar. E um proceder sobre as ocupações e seus processos formou-se enquanto tendências as aparências de tratamento.

Vou te dizer, tem surgido no Brasil agora uma tendência de veicular terapia ocupacional e arte . Por conta até de um movimento maior da cultura em disseminar os trabalhos existentes entre arte e saúde. A relação entre as duas já existia há um tempo, mas muitos trabalhos ficavam escondidos, sendo feitos precariamente, e terapeutas ocupacionais timidamente mostravam a cara, não sabem o que perdem!... Muita gente acha que isso é um modismo, é uma modalidade, é moda. Sabe que eu concordo: tem de ser MODA. Terapia Ocupacional é MODA. Quisera Deus fosse verdade!

E tomara que seja um dia, porque se a gente aqui do Brasil, conseguir bancar essa onda, tem muito mesmo a contribuir pro mundo. E eu vou terminar hoje dizendo que faz um dia que não fumo cigarro. Eita coisa boa! E ainda deixar aqui embaixo uma provocação de Flusser sobre o "jeito de ser brasileiro"...

Um abraço a todos

andré

“Na mistura os ingredientes perdem parte da sua estrutura para unir-se no denominador mais baixo. Na síntese, os ingredientes são elevados a novo nível, no qual desvendam aspectos antes encobertos” (p. 52). As sínteses, ao contrário das meras misturas assimilativas, são criadoras de novas formas, formas compostas de heteróclitos, formas férteis, onde as diferenças permanecem visíveis, ainda que modificadas. Essas sínteses são observáveis não apenas nas incontáveis combinações raciais (a tal ponto que tornam inviável o próprio conceito de “raça”), como também nas inúmeras constelações culturais presentes no país, que incorpora desde a culinária japonesa até o misticismo espanhol, passando pelo positivismo francês, o idealismo alemão, o pragmatismo norte-americano, a ironia judia, a música napolitana, etc. Essas sínteses são visíveis ainda na pesquisa científica (métodos europeus com tecnologias norte-americanas), na pintura (concretismo geométrico com abstracionismo), na literatura (regionalismos com filosofias existencialistas), na música (ritmos africanos com harmonias schoenbergianas) (cf. ibid, p.88). A capacidade de sintetizar opostos por métodos espontâneos seria outra das grandes qualidades da cultura brasileira e representaria uma alternativa para a crise da história ocidental.
Finalmente, a principal forma de escapar do niilismo poderia ser localizada na habilidade do brasileiro de brincar criativamente. Conforme Flusser, os europeus só saberiam jogar de duas maneiras, ou para ganhar (arriscando muito) ou para não perder (arriscando pouco). Os brasileiros, ao contrário, desenvolvem uma terceira estratégia: jogar para mudar as regras do jogo, um tipo de atitude inusitada, presente mais no carnaval do que no futebol, que pode servir de metáfora para um novo tipo de pensamento, ainda por vir. Flusser aposta na possibilidade de surgimento de um novo homo ludens: “Um homem para o qual a arte é melhor do que a verdade, para falarmos nietzschianamente” (ibid, p.101). O homo ludens brasileiro é capaz de escapar à tradicional alternativa entre trabalhar ou jogar, pois pode trabalhar brincando e brincar trabalhando. “Brincar” significa tanto “jogar alegremente e sem regra” como “agir com facilidade”. Entre vários exemplos dessa capacidade espontânea para a brincadeira, Flusser menciona que o projeto brasileiro de felicidade não é progredir ilimitadamente, tal como o europeu, mas chegar a um ponto em que se pode abandonar o progresso e “gozar a vida”. O projeto de deixar de trabalhar, que poderia ser interpretado como sinal de indolência para um observador do ponto de vista da ética protestante capitalista, ganha sob a ótica imigrante de Flusser outros significados, a saber, uma alternativa de extrema importância para a humanidade toda, ao se colocar contra a avareza burguesa ocidental, que conhece apenas o progresso contínuo, a todo custo, como meta: “O verdadeiro engajamento brasileiro portanto não é no progresso, mas em meta não-progressista alcançável apenas se o método do progresso foi aplicado até certo ponto” (ibid, p.125).



Comentários

Anônimo disse…
Eu to me mijando de rir da moda da saia roxa da colecao de 2005...
Adorei este texto. Ta bom mesmo, porque eu entendi tudinho. Eu especialmente gosto dos exemplos que voce da'.
Boa semana pra voce.
beijao da
Vera Fisher

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