SEXTA BÁSICA.

(fotografia, andré nunes, barcelona, 2007)


Às 7 horas, ainda em jejum, juntamente ao maleato de enalapril 20 mg e hidroclorotiazida 12,5 mg, ingeri a dose inicial de 0,5 mg de tartarato de vareniclina. Vou te dizer, a vontade de fumar diminue mesmo. A fissura ainda existe, mas é sensível a baixa da intensidade na vontade de colocar um cigarro na boca. Não te digo que não fumei nenhum hoje, mesmo porque não é assim que o tratamento funciona. Escolhi o dia em que paro definitivamente de fumar. Daqui 10 dias. Ou seja, se tudo der certo e eu fizer minha parte, não gasto nem filo cigarro alheio mais.
Por hora, ficava hoje o dia a pensar sobre o que isso implicava minha vida. Estranho isso de apostar tanto numa química.E deixar as vezes de perceber que se não muda a atitude e a idelologia nada feito. Me coloquei e muito no lugar de vários dos usuários aos quais oferto minhas intervenções em seus modos de cuidar de si, e percebi que a outra parte- extra medicamentosa é extremamente fundamental. Essa parte do trabalho de se questionar, de se entender, de se conscientizar, de se reconstruir, de se perceber, de se ver de outro modo, de não mais se adaptar a uma roupa justa já surrada por modos antigos de lidar com devirações novas na vida é de fundamental importância.
Fico em parte feliz porque vivo na pele hoje, algo que em teoria e prática exerço no cotidiano com os outros. Numa espécie de auto-cuidado vejo que novos modos ocupacionais de se estar na vida só são possíveis quando nos encontramos abertos e dispostos a poder.
Poder no sentido de possível. É possível mudar-se quando fazemos algo em nós mudar de locus. Inveatir afetos nessa mudança, e nesse investimento analiso como um acontecimento instalado numa atividade pontual: PARAR DE FUMAR, está ricamente potencializado por vontades potentes de movimentação de meu ser.
Para que isso esteja acontecendo tenho que em parte, ingerir um comprimido, afastar-me do cigarro o quanto suportar, joguei meus cinzeiros e isqueiros fora. Assim, num âmbito material desse acontecimento em minha vida, duas formas apresentam-se com intensidade quase paradoxal. Um comprimido e um cigarro. É sobre elas, essas materialidades, que meu corpo e corporeidade estarão a se relacionar em parte. Forjando novos hábitos assim como reeditando antigos ( porque há 10 anos atrás eu não fumava,e daqui 10 dias voltarei).
Nesse jump dado, algo da esfera criacionista acontece. Algo que estabelece um sub-texto de poiésis. Imbrenhado na poética essa tal poiesis-criação-ação- confecção-fabricação de estágio novo na vida, traz em si um enredo instituido por uma busca de compreender esse algo que remete a uma falta. Quando a substância falta e o organismo-corpomente- passa a sentir essa ausência, é sobre a falta da falta que estamos agindo. Nesse sentido, escrever é um meio de transferimento em palavras de um mundo a se criar. Em meio a escrita realizo uma atividade prática-poética-poiética.
Com um certo quê de PAIXÃO, com um certo que de PASSAGEM, esse acontecimento somente é possível se dar quando efetuado em vontade de potência que eleva o acontecimento a uma esfera de sentimentos que tem a possibilidade de abrirem-se a outros campos constitutivos da humanidade e seus processos de subjetividade/subjetivação: o que se sente é verdadeiro- aqui o PATHOS ESBARRA NO ETHOS, e o que se sente é lógico em seus sentidos- aqui o PATHOS ESBARRA NO LOGOS. Nesse sentido tenho estado apaixonado pelo afirmamento de meu desejo de parar de fumar cigarros, esse sentir dá a mim certa credibilidade no que desejo (ethos) ao mesmo tempo que me evidencia processos lógico associativos presentes nesse agir na vida (logos).
E sobre o agir, melhor dizendo, sobre a PRÁXIS, realizo então algumas ações que potencializam o acontecimento. Apago o cigarro, ingiro o comprimido, respiro mais fundo e me atento pros momentos onde a vontade outra- voltar a fumar -fica mais evidente no transcorrer do tempo.
Para que isso possa acontecer, precisei e preciso dividir, precisei e preciso por o acontecimento para circular, numa rede relacional. Comuniquei amigos mais próximos, informei quem achava importante, escrevo sobre isso. Para que o acontecimento se dê num pólo mínimo de sustentação. Num pólo onde se dá- ou se estabelece- um nó fraco presente em minha vontade singular unindo-se a outros nós em-re-des-cons-tru-ir.
O que há devir? Também não sei...
saudações a todos
SAÚDE, PAZ E FORÇA SEMPRE
andré

Comentários

Anônimo disse…
ai que bom que voce ta tentando parar de fumar...
continue firme ai. Coma chocolate bastante (a vontade) e comida frita. Batata frita, anel de cebola frita, pizza frita. Gordura hidrogenada ajuda muito mesmo.
Fumar, mata. Juro.
beijao pra vc amigo.
daqui.
SLA

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