Instruções livro-me lidas: como lidar com o lindo livro-me!

Literatura e escrita de histórias de literatura




ilustração andré nunes, 2002


As muitas formas pelas quais se expressa a arte na pós-modernidade correspondem a muitas faces do discurso de uma sociedade que se tematiza como multicultural. A configuração da arte, em suas múltiplas facetas, como acima descrito, apresenta-se paralelamente, na literatura. Segundo Reis (1987) a literatura contemporânea apresenta nítidas marcas distintivas na arte e literatura produzida no leque pós-moderno:
Descontinuidade; quebra da seqüência previsível; utilização de todas as linguagens[...]; incorporação num mesmo texto, de fragmentos diversos, de vários autores, estilos e épocas, etc., realizando o que se chama intertextualidade; simultaneidade de cenas, imitando procedimentos do cinema moderno; introdução, na prosa, de técnicas de construção de poemas; inclusão, na composição do texto, de posicionamentos autocríticos [...] (86)
Dentre os traços peculiares presentes em todas as modalidades artísticas, destaca-se a tendência a eliminar as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular, com intensa valorização desta última voltada para a cultura de massa. Diluem-se também os critérios tradicionais de definição da estética. O cruzamento de vários textos – a valorização da intertextualidade, a aproximação com obras do passado – determina a confluência de estilos, exibindo e destacando o meio, a mídia, e não o produto final. Alguns autores contudo, tentam listar características específicas da produção literária pós-moderna, como por exemplo Domício Proença Filho (1988).
Tais descrições não são, contudo, a contribuição mais relevante para o sentimento pós-moderno, pois tenta inferir, através de elementos específicos, a pós-modernidade como sendo mais uma escola literária e artística, nos moldes da substituição acima já debatido. A maior importância de um espírito pós-moderno na área das artes e da literatura é exatamente as possibilidades meta-teóricas que as contribuições de discussões sobre relatividade e pluralismo trouxeram e a tematização acirrada de esferas de ações específicas, como a esfera literária. Neste espírito, no fim da década de 80, o interesse na esfera do agir do leitor e os aspectos da recepção tornam-se mais acentuado e as questões pertinentes à configuração social deste ganham força. Nesta época surge a Ciência Empírica da Literatura do grupo NIKOL de Bielefeld/Siegen, na Alemanha. Segundo esta corrente, o agir literário pode ser entendido como toda atividade no interior do sistema de ações denominado literário, correspondendo a uma rede de atividades. Orientadas para e interpretadas à luz de um conhecimento cultural que inclui normas de convivência dos atores sociais, seus valores e suas emoções, as ações literárias são específicas e se identificam com os quatro papéis sociais peculiares ao sistema literário. Estes papéis são a produção, a mediação, a recepção e o pós-processamento literário. Tal postura demanda uma incessante busca por modelos de análise de investigação das ações literárias que ofereçam a chance de se observar a complexidade do sistema literário, a pluralidade dos papéis sociais e suas relações com a literatura, e as relações destas com as outras instancias midiáticas.
No âmbito da escrita de história da literatura, uma série de projetos que apresentam uma proposta que acentua, da mesma forma que os Estudos Empíricos da Literatura, a diversidade, a complexidade e a contradição destas configurações como elementos norteadores da sua construção em oposição a perspectivas globais e homogeneizantes, são propostos. Dois exemplos são A Columbia Literary History of the United States (1988) e A New history of French Literature (1989). Ambos configuraram-se como projetos que problematizavam os modos de representação da historia acentuando sua diversidade, complexidade e contradição, caracterizados como espaços de vozes múltiplas provenientes de várias configurações geoculturais e disciplinares. Um outro exemplo de proposta alternativa ao discurso tradicional da historiografia literária é a obra Em 1926: Vivendo no Limite do Tempo (1999), de Hans Ulrich Gumbrecht, publicação da Universidade de Harvard. Organizada em três seções com 51 verbetes em ordem alfabética a obra propõe uma ausência de hierarquização e cronologia dos elementos que a formam, erigindo sua estrutura através de descrições empíricas, que, como num hipertexto, criam, através da experiência das referências, um estado de contato com a época em questão. Caracterizado como um “ensaio de simultaneidades”, nas palavras do autor, o livro sugere, segundo Olinto, (2000) um “modelo de rede ou de campos de realidades, não apenas discursivas, que moldam condutas e intenções no ano de 1926”.
Uma outra obra que impressiona pela sua proposta e execução, mesmo não sendo ela um exercício de escrita de história literária propriamente dita, é a The Bedford Shakespeare Series (1999). Segundo seu editor, na apresentação da série, a intenção desta é
...resituates Shakespeare within the sometimes alien context of the sixteenth and seventeenth centuries while inviting students to explore ways in which Shakespeare, as a text and as cultural icon, continues to be part of contemporary life (vii)
Com o subtítulo de Texts and Contexts, a obra enquadra uma peça do autor inglês numa rede de materias diversos: imagens, letras e partituras musicais, homilias, mapas, outras peças, tratados médicos, narrativas de viagem, entre outros. Estas ‘referências’ criam uma rede de contrastes entre este material e o texto de Shakespeare, intencionando reconstruir as conexões entre a obra literária e o contexto social da sua produção e das suas próprias referências internas. A edição de A Midsummer Night’s Dream, por exemplo, inclui, trechos do poema metamorfose do romano Publius Ovidius Naso (43 BC- 17ª AD) e condenações por bestialidade de alguns vilarejos ingleses no século XVI, funcionando como hipertextos à questão da transformação do personagem Bottom em um ser meio asno meio homem às possíveis leituras do caso de amor entre este personagem e Titânia, a rainha das fadas, respectivamente. Esta publicação aproxima-se da idéia de um ensaio de simultaneidades, assim como acima descrito.
Tais exemplos circunscrevem experiências que podem indicar uma tendência e uma possível indicação para uma escrita da história pós-moderna. Estas construções demonstram, na sua origem, a necessidade de revogar o poder explanatório das teorias teleológicas da literatura em favor do exame pragmático/empírico do agir literário. Elas pressupõem a temporalidade da consciência e suas estruturas de sentido, capturando nessas a descontinuidade e a simultaneidade dos eventos. Segundo Olinto (2000)
Essa temporalidade não poderia ser segmentada e classificada, no máximo poderia ser narrada segundo um fio arbitrário que costurasse sua matéria instável, a literatura intersubjetivamente reconhecida como tal, e que fizesse as associações possíveis com os dados contextuais, tanto os inconscientes quanto os aparentes. Nesse sentido, o fundamento para essa ação intencional estaria nos vestígios materiais a que ela se dirigisse para dar-lhes sentido, o que reforçaria a função, no sistema assim constituído e constituinte, das fontes documentais primárias.
As obras levam em consideração que, a partir do reconhecimento de que a contrafação dos horizontes de expectativas não depende apenas da concretização destes leitores a partir de normas e de analogias entre obras e panorama literário-histórico ou da colisão entre função poética e exercício da linguagem. Elas exigem o contexto social e histórico da recepção, assim como nos foi observado na contribuição de Jauss (1967, 1996).
Nota-se também que todos estas experiências tem no princípio de construtividade da realidade o seu pressuposto principal. Isso gera a percepção de que os fatos históricos são peças constitutivas de um domínio social específico e um foco particular na descrição do passado. Além disso, toda a combinação de fatos históricos é uma construção dependente do sujeito e das escolhas teóricas por ele feitas, e que deve ser avaliada como pertinente em relação aos pressupostos, interesse e conjunto de valores de seus pares que, interagindo numa comunidade, aceitam uma história de literatura como uma história válida. A criatividade e a imaginação, portanto, funcionaria como instrumento de acoplagem que possibilita a geração de conceitos, organizações de processos cognitivos, de modelos de comportamento e de metodologias para a construção de descrições históricas plausíveis e como possibilidade de encontrar/construir outras fontes e referências. Um outro dado relevante, e a da concepção de seqüencialidade e de organização temporal, que se coloca como uma noção organizacional explicativa, e que não deve ser substituída por uma noção de tempo que se torna um princípio explicativo transcendental e ontológico para as descrições semânticas dos processos históricos da literatura. Seria também uma função do historiador pós-moderno atestar e apontar para as características do seu próprio fazer.
texto linkado de:

Comentários

Postagens mais visitadas