ENCICLOPÉDIA EMPÍRICA DA PAUSA




(fotografias, andré nunes, 2008)
Ao chegar em casa ele arruma a matéria. Dispõe um dos papéis na mesa redonda do quarto. Como quem fosse se servir de alimento ao olhar. Olha , ver não é engolir.
O material posto em cima da mesma parecia um corpo a ser velado. E de pensar assim entristeceu. Essa fora visão vivida do abismal acontecimento entre pensar e sentir despertado pelo papel morto.
Não que se leia seus pensamentos, mas fácil era perceber que tristeza que ocupava-lhe o campo das vistas. Quem já esteve com outros que pouco se comunicam pela palavra, mas muito demonstram pela presença do olhar, sabe do que aqui se está a dizer.
Ali no olho descortinado pelo corpo do papel velado, havia um acúmulo de tristeza. Era parda a cor, como a do interior das caixas que embalam remediações químicas, como a do interior das perdas quando rompem-se os invólucros dos corpos.
Levantou a mão direita na altura do peito. A esquerda segurava uma lata de pasta esbranquiçada . Com auxílio de uma espátula preencheu o espaço do entorno de uma das folhas. Margeou uma área e depois a ocupou inteira com o emplastro.
Primeiro então era necessário uma massa alva, para tapar as imperfeições pardas, que ao ser corrida pela ferramenta espalhava-a para tão logo secar. Queria uma superfície homogênea. Durante a ação portava-se como uma dessas divindades indianas, cujos braços num movimento excessivo pouco deixavam espaço para estar num único formato. O acúmulo de movimentos tirava-lhe a forma ao mesmo tempo que afirmava presença. Nesse ato lembrou-se de pessoas amigas com quem já experimentara trabalhar e seus vários modos e jeitos de produzir.
A massa que recobria o corpo morto do papel, numa tentativa de reanimá-lo, por fim mostrou a necessidade de outro passo no prosseguimento do agir. Era necessário um certo atrito para remover o excedente. Lixou a massa.
Tudo estava agora, recoberto e lixado. Observou a superfície trabalhada. Micro manchas e levantamentos, palimpsesto imagético do gestual. Zonas onde a massa ao ser removida com a operação lixamento abria feridas no corpo do papel. O papel retornara-se na reforma, mostrava uma espécie de carne celulose nos ragos e feridas abertas, sangrava em seco. Decerto o papel fosse um deserto.
Foi a cozinha. Pôs água para ferver um café, precisava de um contraste para a brancura sólida da massa homogênea. Enquanto aguardava no tempo da pausa da ebulição, observava a zona que se transformara sua morada. Um ateliê móvel onde tudo pertencia a obra aberta do agora. Tudo vibrava num limite tênue: sua arte ocupava a zona do comum possível.
Deitou-se. Aquele abismo entre pensamento e emoção expunha uma valoroza verdade para ele. Uma verdade única, empírica. Não dessas construídas em bancos de estrita pesquisa, nem dessas ensinadas em bancos de rezar e pastoriar almas, ou dessas garantidas em bancos de trocas de valores em papéis. Era uma verdade própria. Era uma verdade apropriada. Era uma verdade de propriedade singular: a luz não rebate em meio opaco. Entre produzir e receber reflexo, o emplastramento homogeiniza qualquer escape de brilho. A matéria sempre é estado bruto.

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