ENCICLOPÉDIA EMPÍRICA DA PAUSA

(fotografia, andre nunes, 2008)

Oscilava entre mundos. Entre dormir poucos minutos várias vezes ao dia, e acordar pro trabalho imagético. Seguia o tempo escorrido assim nesse rumar. Tal como se vivesse em: artenarcose.
Antes de aqui se ater para operação passagem, algo relevante é necessário dizer. Depois de preparada a superfície, aplicou duas demãos de uma química tintura branca sobre a matéria viva recentemente refeita.
Agora a chapa de papel estava preparada para receber a descarga desse transitar entre mundos ocupados.
Um verde em folha nascente capturou-lhe a visão um tempo depois de haver descansado de todo agir de preparação. Eram quase 6 da tarde e o sol migrava a seu leito.
Tal como se fosse uma lasca, uma faísca, um espeto, uma agulha, aquele verde da pequena folha da árvore da felicidade que ele plantara num vaso em seu quarto perfurou-lhe a vista abrindo um orifício para entrada da vibração da luz da forma colorida.
Era tocante a cor.
Tocava-lhe como uma espécie de olho Pinhole. Uma técnica primária de grafia pelas partículas carregadas de luz. Um papel quimicamente preparado fica no interior de uma caixa totalmente vedada e escura, tendo um furo como filtro e lente de entrada da imagem. Ativa-se o mesmo operando a abertura do furo, que incidindo luz no papel as escuras produz a reação química do mesmo que reage deixando-se marcar um registro desse contato entre luz, papel e furo através de uma imagem. Esse engenhoso artefato preparado foi que permitiu registrar paisagens em preto e branco na pré-história do processo fotográfico.
Mas agora que seu olho, sua máquina da visão, gravava-lhe além das formas. Que seu olhar em verdade sua capturava a intensidade da vibração coloidal colorida. Ele descobriu nessa da folha, que a abertura da vista lhe proporcionava construir um e outro mundo no interior e exterior da caixa-preta craniana.
Lembrou-se da cena do filme “Asas do desejo” de Win Wenders, exibido durante a disciplina Desempenho profisional IV, no ano de 1997 ministrado pela Bel Ghirardi no Curso de Terapia Ocupacional da USP, quando a trapezista num filme até então em preto e branco, profere a seguinte sentença: Eu desejo. Nesse instante o filme fica colorido.
Mas, essa uma caixa do olho antes escura, após a abertura do furo se via preenchida com o ilusório jogo entre estar e ser visível e invisível nas coisas. Como quem no ato de fazer da visão da folha nascente um ponto de fuga para vista recém aberta. Como quem vendo em phótons permitiu-se ampliar seus conceito de lembrança, de memória, de desejo, de desígnio, de desenhos.
Assim como o verde da folha, poderia a cor ser projeção dos pontos de fuga das representações do real além das vistas? A ilusão do jogo cromático entre visível e invisível projetada pela imagem formada, através da abertura do furo da máquina de ver, ao mesmo tempo em que era projeção de uma idéia de perspectiva gerava um ponto de fuga interna no fundo de vista. A grande relação estava posta então, e essa era a passagem exercida no labor de olhar com cuidado, entre as linhas de fuga derivadas do ponto para fora da visão e as linhas de fuga deviradas dos pontos de fuga no interior da caixa escura da máquina de ver do ser. Era esse um amplo território de fronteira.
Viu, te disse: quando o olhar atina na amplitude das paisagens, buscando no distante horizonte pontos de fuga, há de se perceber que tudo aquilo é espelhamento dos pontos capturados no interior de seu ser. Lá-longe está no interior de sua percepção, a fronteira é um lugar de não lugar. Ocupado: pode entrar !

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