ENCICLOPÉDIA EMPÍRICA DA PAUSA

(ilustração, andré nunes, dezembro,2008)

Nesse momento era efêmera a duração da sina. Dibicava em algo maior que um instante, e mais intenso que um instantâneo revestido de presente imediato. Sobre sua cabeça pairava um sacrifício próprio. Um advento de consciência para o aparecimento do ser humano que ainda era. Sim, ele deixara-se embrenhar viseralmente pelo desalento de verter ódio incontido de gente tosca como ele.
A tristeza de perseguir uma fantasia inatingível, e uma alegria boba ao sentido que se daria á vida ao ver seu nome associado a uma lista de referências intelectuais. Sim, ele agora, em toda sua superfície-forma, era recoberto por uma narrativa prometeica. Como se vivesse um complexo dilema de ter as entranhas dilaceradas pelas mea culpas feitas dos inexistentes comentários de rapineiras aves universitárias de merda. Era como se vivesse superficialmente um complexo de édipo intelectualóide. Era como se vivesse o grande silêncio do Complexo de Prometeu.
Ao abandonar o solo protegido da Universidade, percebeu que era mais um entre tantos "sem onde" construir garantias hipotéticas. Verdadeiramente era necessário atirar-se ao dilaceramento do inacabado, da precariedade de estar vivendo num mundo que abre mão de algumas certezas do achar ter conseguido vencer.
A construção de seu saber não tinha méritos de titulação. Ele era livre pra pensar errado, podia celebrar o erro caso esse acontecesse. A máquina de guerra, que tanto planejara construir através de seu maquinomovel, tinha mais cabimento fora do espaço acadêmico. E isso aprendera de vez numa lembrança, que agora lhe vinha a superfície da memória caída sobre a cabeça em pleno chão.
O Dr. Bolha, oco em suas experimentações, ocupava um posto inaugural num laboratório do sensível na cidade onde ele residia. Conheceram-se por intermédio de uma antiga colega de profissão.
O fato é que o Dr., desejante de impor seu prestígio no lugar onde recentemente inciara seus trabalhos, convidou ele para “apresentar” uma de suas performances já realizada anteriormente em outro evento.
Aquilo era estranho de se ouvir enquanto demanda. Como repetir uma ação num contexto laboratorial onde o espaço e o tempo tinham como intuito inaugurar uma saleta de aula ? Definitivamente faltava o delicado essencial ao Dr. Bolha. O remédio talvez era, na visão clínica diluída ao meio, mostrar aos envolvidos o quão engessados estavam seus pensamentos, atos e sensações.
O cheiro impestiou o andar do edifício, assim como deve ter firmado nas entranhas de quem ali pode conferir como a sistemática apreendida funciona. Cheira a peixe morto, mesmo que seja engessada numa tentativa de preservação técnica de toda remoção da superfície de escamas. E agora que o dia morto passou, sem mais importar seus assombros, ele podia seguir deixando para trás os escombros desse encontro. A dor diária vinda das aves de rapina criadas , era sacrifício destinado de bem saber que de agora em diante ele não mais precisava se preocupar com esses passados. Mesmo que retornassem em conversas pouco producentes aprendera: Os fantasmas, quando muito, assombram para no fundo se manterem vivos e as vezes até quem sabe se divertir.

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