ENCICLOPEDIA EMPÍRICA DA PAUSA



(ilustração, andré nunes, 2006)

Ele fazia um esforço na experimentação da barbárie que era tentar domar as forças visuais. Os olhos por vezes não obedeciam e orbitavam com impulsos que clandestinamente rompiam as fronteiras existentes entre interioridade e exterioridade desejantes. A todo instante conferia realidades, num dinâmico jogo dos espaços vazios em varreduras negativas da forma. Isso era feito ao perceber não as coisas e objetos apenas em seus contornos, mas saber transladar os olhos pelas regiões do entorno e ver nesse interim de relação "espacial" mais do que a forma-coisa em si, ver o que de acontecimento ali se fazia. Ver, assim como respirar, acontecia devido a essas varreduras exercidas pelos desejos e desenhos dos órgãos corporais.

Nesse sentido o corpo era mesmo um grande templo de experimentação e prova do vivo. A respiração nesses momentos era cultuada enquanto aura posta para diminuição de um sintoma aparente de ansiedade. O ar vinha ao encontro dele por dar conta do volume extenso de estímulos e informações que lhe chegavam aos campos das percepções em estar presentificado no ver coisas, em ocupar-se desse viver, em terapeuticamente ocupar sua produção de vida.

No respiro percebeu que o ar tinha um gosto adocicado, estava cheio de micropartículas de água que combinavam-se ao território líquido da saliva, do suco, do sangue. Ver não era engolir. O que estava sendo engolido na camuflagem dos atos era a respiração, que nutria nele uma certa maneira de alienação do existir. O tempo urgia contra o espaço, ocupando o mesmo de uma engenhosidade de forças e matérias que ganhavam formas por vezes imperceptíveis devido o grande acúmulo ininterrupto de ações. A rapidez não tinha cheiro. A pausa sim.

O cheiro disposto na órbita atmosférica rememorava nele fatos e sentidos esquecidos no tempo. Aquilo entranhava no passado do corpo como o sabor de um bolo em cozimento. Que numa vagarosidade própria, conferida no preparo, sustentava-se enquanto devir. Um vir a ser forma prazeirosa de espera. Era disso que ele precisava, não do bolo, mas do sabor de saber degustar o cheiro que a visão da pausa tem. Visagens...

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