ENCICLOPÉDIA EMPÍRICA DA PAUSA

(ilustração, andré nunes, 2009)

Foco, enfoque. Era isso que ia considerando suas pausas, mesmo que a sensação de estar perdido ainda dormitasse em seu emblema entranhável. A operação visível exalava um odor de corte, superfície rasgada do tecido conjuntivo do olho. A janela aberta trazia luz para o interior que, mergulhado numa tensão, matava de envenenamento todas as qualidades que possivelmente apareceriam, mas ele ainda considerava focar melhor.
Era tudo um pouco confuso, cortes no feitio das montagens dos fluxos, a respiração dada á passagem de toque e os pulmões formados em petrificações inaladas. Eram coisas que a perda do próprio traziam, uma espécie de fúria atávica, que rompendo sobre o mundo traia aqueles que lhe faziam bem.
Tudo era agora visto por todos sem necessidades de revelações. Havia o sombrio exaltado dos pensamentos, esses tornaram-se aliados numa orquestração incerta de refrões expurgados em conflitos mentais, injúrias eram riquezas, todo o não dito transformara-se em substância que agora feria o corpo que o produziu.
Preciso era perfurar-lhe o olho central: órgão mais antigo do intelecto. Preciso era empunhar espadas em seu coração, furando-o na tentativa de verter todo o envenenamento furioso.
Respirou fundo, acalmou seus sentidos. Como quem executa uma vingança assim o fez. O toque gelado da lâmina perfurando as fáscias musculares, adentrando as cavidades coronárias gravaram o primeiro dia do vestígio do todo.
O corpo assombrado jazia no chão, vertendo na perfuração toda indeterminação diluída. Urrou de dor em sua morte, e o grito inaugurado era agora seu novo instrumento musical.
A espada da palavra tinha mesmo dois gumes, ambos afiados pelas lâminas da língua. O coração jazia em seu pulsar final os mais secretos e autênticos sentidos para vida a partir de então.

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