TERAPIA OCUPACIONAL E SAÚDE MENTAL

(fotografia, andre nunes)

Fazer... imagens.
Uma questão tem me motivado nas construções de conhecimento, ou melhor dizendo, em minha tomada de consciência sobre parte do trabalho que cotidianamente realizo. Como se constroe uma imagem de serviço de saúde?
Certo é que na sociedade e suas relações de trabalho, da qual fazemos parte, há um enaltecimento dos processos dos sujeitos que conseguem transformar os conteúdos constituintes de fazeres na vida em informações discursivas. E uma outra parte do mesmo que vive uma desapropriação dos modos de discursar sobre seu agir executados na prática. Ou seja, teoria e prática se intercalam, mesmo sem saber. São dispositivos instalados na configuração de poderes. Como na conversa entre Deleuze e Foucault presente no texto “os intelectuais e o poder” em microfísica do poder. Vale a pena, quem está no fronte direto, se aproximar dessas considerações. Foucault em um momento diz:
“Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem.
Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da "consciência" e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência", do discurso.”
O texto completo você encontra na seção biblioteca do :
http://www.nodo50.org/insurgentes/
Mas o que isso tem haver com a questão da imagem aqui abordada? Te explico. Nos anos de 2006 e de 2007 a instituição na qual trabalho como terapeuta ocupacional, sofreu um processo de intervenção denominado Quali-Caps. Esse foi realizado por parte de alguns acadêmicos de Terapia Ocupacional de uma Universidade prestigiada.
Teses foram escritas, ( e somente hoje descobri a mesma já disponível a leitura) e muito material discursivo foi produzido. Nenhum retorno direto foi dado aos trabalhadores da instituição abordada. Friso: NENHUM RETORNO AOS TRABALHADORES QUE AJUDARAM NA CONSTRUÇÃO DE TAIS CONHECIMENTOS. Vulnerabilidade de relações?
O processo vivido foi truncado. Tanto por parte de quem escreveu sobre , quanto por parte dos trabalhadores no fronte que forneceram informações. Ambas partes se desencontraram.
Hoje, no pé em que estão as relações de poder lá dentro me questiono, será que os trabalhadores que compunham a “massa acrítica” queriam essa forma de saber? Em parte acredito que eles já sabiam de várias das críticas levantadas pelos intelectuais? Será que os intelectuais tinham mesmo real intuito de qualificar aquele serviço ou estavam apenas se qualificando para futuras ações? Quem dalí tirou proveito?
Certo foi que essa experiência serviu para algumas pessoas escalarem outros postos de poder dentro da esfera da Universidade e das políticas públicas ( e das partidárias também) de saúde. O que sobrou foi uma desconstrução e sucateamento de um programa de saúde mental, antes visto como modelo.
Uma vez a mesma profissional que ali interviu na “qualificação” se questionou num artigo, ainda da década de 90, se as instituições e políticas de saúde mental já nasciam com o germe da destruição em si, quando ainda pesquisava sobre a desinstitucionalização na experiência santista. Os fatos atuais vividos, e da informação colhida por elas há dois anos atrás enquanto possibilidade de produção de conhecimento, mostram que sim. A informação produzida já está obsoleta, assim como a “garatuja” que produziram em seus discursos quando puseram em prática aquilo que tanto questionaram?
Digo “garatuja” porque talvez isso tudo converse muito com a produção de imagens, no sentido que desde os homens das cavernas, e seus esquemas de criação de formas que projetavam visualizações, especulações e concepções de mundo, tais procedimentos nunca estiveram isentos dos processos de esquematização, projeção e correção constantes.
Válido é o projeto do que se quer ver? Querer transferir e ajustar o que vive uma “tribo” empenhada em seus fazeres ( e nos homens das cavernas as imagens eram fazeres que envolviam rituais mágicos) não confere aos pesquisadores as mesmas qualidades determinadas por seus caráteres e “estilos” presentes em seus produtos finais como textos e teses. Para saber mais acesse:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5163/tde-05112008-111205/
Aprendi nisso que o conhecimento formatado é apenas uma representação esquemática dos discursos rigidamente admiráveis por gerações sucessivas. Visto que esse quem formará os futuros profissionais, empenhados em reproduzirem informações obsoletas.
Por fim, refinaram seus jargões e esqueceram de construir as formas básicas que possivelmente ofereceriam possibilidades de controle e segurança repetitível. Coisa que os homens das cavernas fizeram em suas descobertas das formas e métodos de cultura cotidianamente feita...
abç
andré

Comentários

Muito provocativo este texto... Estou iniciando um trabalho de supervisão de estágio de TO em um Caps na cidade de Várzea Paulista, fez-me pensar muito e buscar reinventar as relações entre estagiários, trabalhadores, usuários e universidade. PRECISAMOS ESTAR ATENTOS PARA LEVAR A CABO AS PEQUENAS REVOLUÇÕES.
andre miolo disse…
concordo contigo José Otávio, valeu pela visita
abç
andré

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