NO CAOS



O CAOS opera no interior de uma miscelânea de enunciados, de enunciados importantes, de enunciados banais, de preconceitos, de estereotipias, de estados de coisas aberrantes, de uma livre associação cotidiana, do que convém destacar, de um teatralismo familiarista da equipe e das chefias, de engrenagens institucionais, da vida de um grupo de trabalhadores, das relações de poder estabelecidas, de funcionalidades e funcionalismos que vão para além das informações e das comunicações... no CAOS, quem diz a verdade? No CAOS ninguém é cidadão (como canta o Herbert Viana). Se é que há uma verdade única a ser dita...
Não sei por onde começar , porque o que vivo hoje no lugar de onde haveria de estar se operando um processo de planejamento de ações, opera o CAOS com muito mais força.
O que dou conta de fazer é listar vários problemas com os quais os atores envolvidos na construção do trabalho se vêem imersos. Imersos num grande caldo de desorganização e sobrecarga de trabalho.
Todos os dias, há reuniões e promessas. De segunda a sexta uma parte considerável dos trabalhadores trocam informações a respeito dos usuários, das dinâmicas terapêuticas necessárias para a condução dos casos, do levantamento de problemas a serem resolvidos e do esforço que é ter de lidar com instâncias maiores de poder. Todos os dias as pessoas se reúnem e falam, e as falas são anotadas em cadernos, que ao mesmo tempo que auxiliam na organização servem como espaço de registro do que nunca também poderá ocorrer. Por se dar todos os dias essa dinâmica, não há um só dia de trabalho que não haja esse espaço de descarrego pela palavra, criou-se, a meu ver, uma certa banalização das falas dos atores e principalmente de seus envolvimentos naquilo que dizem e se “responsabilizam”.
Problemas e sobrecarga de serviço todos nós vivemos em nossos cotidianos, enquanto parte dos amigos da equipe adoecem por conta da demanda, outra parte sofre por ter de lidar com o excedente. As chefias sabem desse problema, mas acabam esbarrando na escassez de recursos necessários para contratação de novos profissionais, ampliação de serviços e rede, transferência de problemas para outros equipamentos de saúde, etc.
Os serviços substitutivos especializados em saúde mental, abarcam em permanente construção, tratamento e condução de casos de pessoas com graves comprometimentos psíquicos e com sérias perdas de autonomia de vida. Eles, por serem especializados, são portas de recepção e ordenação de todos os demais serviços de saúde que compõem a rede de atenção psicossocial. Ou seja, os encaminhamentos são feitos pelos mesmos ás UBSs, Centros de Especialidades e Prontos Socorros.
As pessoas são triadas e encaminhadas. Todos os dias, e hoje existe uma lista de espera com vários nomes de pessoas com algum tipo de sofrimento menos grave que aquelas encontradas no serviço que deveria substituir o manicômio, mas mesmo assim sofrimento, esperando vaga para serem avaliadas ou atendidas em psiquiatria.

E todos os dias casos novos vem até os profissionais do serviço buscar alguma forma de atenção frente aos destemperos caudados pelos sofrimentos nas ordens dos pensamentos e emoções. Para onde encaminhar no imediato se o sujeito esbarrará em uma lista de espera? O que cada profissional faz com isso? Como as demais instâncias de poder operam na resolução desse problema? Simplesmente não operam. Cada profissional que lide com essa questão a seu modo. E aos usuários o jargão "cada um com seus problemas” serve como resposta anti-ética para a situação, deplorável e deprimente.
Vários recursos foram utilizados na tentativa de resolução desse impasse. Reuniões de equipe, reuniões de chefias, ouvidoria pública, secretaria da saúde, até o prefeito já foi acionado, e ... tudo fica na mesma.
É um problema que pode ser lido de diversas maneiras, visto que está em plena fronteira. E quem habita a mesma são os usuários-cidadãos e os profissionais. Fronteira por estar entre ser “estruturado” e “quase estruturado”. Estruturado porque é da ordem da impossibilidade de encaminhamento e com isso descentralização e acessibilidade ficam comprometidos na gestão do mesmo. E "quase estruturado" porque são problemas complexos, sendo difícil enunciar as multicausas que categorizam o mesmo. Fronteira porque é um problema intermediário e final. Intermediário visto que se vive no cotidiano da organização e interfere na qualidade do produto final prestado. Final porque quem vive ele em maior intensidade é o usuário que não tem seu sofrimento atendido em uma atenção devidamente prestada pelo governo eleito por ele para administrar seus recursos... e assim o nó crítico se enlaça aos nós do CAOS, formando uma rede onde o adoecimento reproduz adoecimentos e as vivências de saúde se vêem despotencializadas na viabilidade de construções outras.

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