COM (C)ALMA



(C)ALMA,sinto ater em nós. É que caiu em mim, como a chuva que desagua verticalmente sobre o começo da tarde, essa vontade de colocar na plataforma algo que vingue temperança. Algo que desnivele essa enxurrada de atravessamentos intempestivos que os dias atuais trazem aqueles que me rodeiam nas várias áreas por onde transito.
No trabalho registrado tudo está em formigamento suspenso, meio sem rumo e destino aparente. Como num formigueiro ao qual a rainha acaba de ser tronada e recolhe-se para por os ovos quando todas as formigas já recolheram o que floresceu nos tempos anteriores. Dúvidas sobre o futuro, medo do não mais ter. São episódios que infligem o por fazer. Sem posicionamentos reais e verdadeiros, principalmente no campo que recobre a saúde mental, as ações voltadas a assistência ao próximo perdem muito das potencialidades. Os trabalhadores, como eu, habitam o lugar da dúvida a cerca das realidades que compõem os territórios de seu labor. E a gente sente como se a injustiça estivesse deveras ganhando a batalha quando vê operários sendo removidos de lugar.
Mas eis que assola em minh'alma essa espécie de sentir. Solidifico isso por dentro, não que o coração esfrie, mas no inverno das relações, assim como na natureza, as coisas murcham, caem as folhagens. É tempo de se recolher no mais básico possível, não deixando que as forças que mantem as formas vivas escapem em desperdícios de pré-ocupações. Minha (C)ALMA é aquilo em meu ser que me assegura nisso.
Num dos trabalhos-extra tudo cambia para o retomar em pequeninos retornos. Nele vejo que o sono mal ativado piora deveras os estados da mente, confunde as palavras ainda mais, faz perder uns fios do fazer que suspendiam os recursos cognitivos de quem luta contra a morte do sujeito e sua memória uma batalha árdua em não perder o pouco de história da própria vida que ainda lhe contorna. Como se para o escapar das trevas do esquecimento demencial fosse necessário um verdadeiro arsenal de ocupações e fazeres que, quando não administrados e/ou analisados com cuidado contra-produzissem a saúde frágil que ainda se tem.
E ainda que apostar na certeza do outro, na idéia do outro enquanto um bote salva-vidas gera no investidor uma garantia instável. E se não for assim, como é mesmo se relacionar com as pessoas? Desse mal-estar somos feitos, parece incrível, mas é assim que acontece. Minha (C)ALMA sussurra isso em algum lugar dentro de mim.
Alguns amigos reclamam de minha distância, espécie de ausência que cultivo ao não lhes verem com a frequência que eu gostaria. Mas vejam bem, as vezes digo, quando muita coisa está a acontecer comigo, eu deveras me recolho. Sempre fui assim e eles bem o sabem. Esse tempo que habito sozinho me é indispensável pra suportar aquele outro que atravessa a porta de casa para a rua. Pode não parecer quando aqui deixo essas marcas expressas, mas conversar é algo que deveras acho sério por demais, e apesar de parecer uma brincadeira com os sons e sentidos que exercemos do fazer do pensamento e sentimento tornado palavra articulada pelas cordas vocais e aparelhagem comunicativa, o que escuto, ouço e digo tem peso em mim. Nisso minha (C)ALMA me ajuda.
Minha família que amo, permaneço com eles por vezes em lembranças e esporádicos almoços dominicais. Sei que as vezes sou um ente esquisito que os cuida de longe. E eles me aceitam assim como aparento ser. Nisso minha (C)ALMA tem uma garantia, a de que o amor é uma fagulha que faz todo o gelo do não dito, do invisível, do inexpresso, do intocável se ascender e acender a paz que bem aventura os nossos pensamentos, razões e corações.
E meu Amor, que é onde minha (C)ALMA se aventura por inteiro, assiste a tudo isso com zelo e perseverança, isso que tão longe tão perto, chamamos de nós.

Comentários

mari disse…
com(c)alma minha....
amei essa (c)alma sua em palavras.
escutei, vi, senti... voce!
as senti: águas, abraço, ternura, força mansa.... rumo e prumo.
...
sabe andré ?
voce também é tão solar!

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