CO(R-L)AGEM



Na postagem-colagem de hoje, eu queria deixar transcrito anotações de um papel que encontrei numa caixa de papelão em cima do armário da sala. Aquilo deve estar encaixotado faz um bom tempo, desde a época que fiz o curso de Especialização: Práxis Artísticas e Práxis Terapêuticas: Interface Arte-Saúde, do pessoal do PACTO_USP.
A escrita se inicia com uma pergunta: Como utilizar o material numa atividade terapêutica quando em ateliê tem-se um espaço/tempo de ruptura? Como fazer essa articulação, onde o terapêutico possa contribuir com o artístico ( e vice versa)?
Nesse trânsito articulador, quando centra-se a questão em torno da imagem, há quem execute uma redução do processo. Redução entendido como : caminho que abre e caminho que fecha. Fazer a arte caber no terapêutico é redutor, vide nomes utilizados para tanto: facilitador, recurso, dispositivo...
Não se pode falar que esse fazer em si é artístico. O acontecimento, quando de fato ocorre, a gente pode fazer um corte e ficar somente com o terapêutico. É importante ter clareza nisso.
O que é a imagem?
Descobrir, falar, viver e entender isso é um fazer desgastante porém incessante. Arte é, basicamente relação. É ação sobre essa matéria. Animação da matéria, é isso que confere, interage com a matéria, existe essa possibilidade, o status de permanência.
Animar no sentido de investir a matéria de uma essência, dando a qualidade de algo atemporal, um passado que se atualiza. Essa é a questão da permanência.
Se houver a mudança de estado existe a possibilidade de animação, tal qual o mito que fala sobre o nascimento da pintura... memória: que atualiza, que representa. Mais do que lembrança, tem um acontecimento, relação amorosa.
Que estado é o encantamento? Há possibilidade do encantamento sem imagem? A essência se dá pela questão da imagem. Faz-se preciso entrar nesse universo.
Por muitas vezes essa construção efetuada por nós, terapeutas ocupacionais, não é uma construção linear em suas referências, pois a mesma se dá em cima de uma prática e de um exercício de pensamento.
Aqui, uma analogia entre isso e cada crise psicótica, que era como uma guerra interna. Sai-se daquilo que se era, há um estilhaçamento, e tem de reconstruir aquilo novamente. Cada crise é uma guerra.
Na guerra vivemos: período de perda de identificação / ruptura da arte / psicologia de massas/ subjetividade estremecida/ T.O surgiu oficialmente no período das guerras.
Uso da colagem clínica entrou fazendo analogias entre a guerra macro e a guerra micro.
Não dá pra teorizar arte, tem que fazer, para que haja um tempo de maturação, não importa em que campo seja.
O movimento, pelo qual dá-se forma a essa essência e animação, é de vai e volta. O conhecimento vai, e as vezes parece que escapa para se poder falar da potência da imagem. Colagem e Rupturas na superfície, que se encontram dando outro continue. Esses encontros são as fagulhas poéticas. São potências da subjetividade poética, momentos de iluminação quando se dão, esse é o momento de poesia.
Há um provérbio zen que diz: “ A imagem de uma pimenta com duas asas vira uma libélula. O caminho contrário não é válido.”. Arte é plus, é mais, é transbordamento, é excesso.
No exercício da colagem, tem que ter muito material. Esse causa um estranhamento, um desconforto, uma possibilidade de criação, um encontro de dois alargamentos, alterações da matéria.
É preciso querer muito para que as coisas aconteçam.
Como é possível prolongar o tempo de vida de algumas suportes e modos de ação (como a colagem) quando os materiais são muito heterogêneos?
A natureza humana é heterogênea também, é que todo limite pressupõe um depois, um além.

E mais ou menos isso, que a terapeuta ocupacional Maria Regina Marques, do Ateliê Bricouler, agregou em nossos saberes...

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