Ela vem chegando

(ilustração, andre nunes, 2009)

Tenho em mãos uma vontade, dela perfaço a escrita. De transtornar a língua dita em algo que transpasse o som e que orbite na esfera óptica parte do entendimento que vivo, e parte do meu não saber. Andei distante do reino das palavras ortografadas, é que escrever é dar forma a algo que se tem intento de mostragem. Apartei dos verbos, mais do que simples ações, que por bem ou não, freneticamente assolam o meio no qual, eu, continuamente componho o viver. Em passagens que despertam em mim essa vontade, e por respeito a meus fonemas, silenciei-me.
Nem tudo que se torna razão, nem tudo que adentra o razoável, tem no já escrito do passado, sustentação. Por vezes, ser inédito a si mesmo é ser aquele que diz saber o não sabido. Eu nessa paragem não sabia tanto mais.
Gastei exemplos não ditos, gostei do silêncio do não dizer. E tudo isso ficou no tempo do antes disso. Pois agora, agora é instante de forma. E dar ao vivente em mim espaço criativo, a ser ocupado com essa linguagem por vezes só, por vezes ininteligível. Ausentei-me do ocupado, por saber que tinha ali um momento seguro.
Há quem diga que o vazio inexiste por completo, que se tu não ocupas, ou se ocupa de algo, perde essa configuração. Mas não, descobri que nem tudo é como ditam os mais experientes, nem tudo é certeza do já experimentado. Meu certo é que se faz necessário passar pelos lados de lá e de cá, transitar intensamente, e após isso, decantar por um átimo, deixar que a vivência ganhe configuração em si. É sempre disso que as formas do vivido se apreendem em suas constituições, sempre desse movimento de expansão e retração. As imagens que produzi nessa época davam a mim tal cumprimento. Transmitiam de seus modos um todo que acontecia em mim. Ao final, após dar a elas minha poética própria, pois derivavam de minhas potências, potências inscritas na singularidade, banhadas de paixões suspensas, e feitas de práxis individuais, elas, as imagens, virtuosamente me mostravam que eu, mesmo que me sentisse só, estava dividindo em meu contexto influências e aspirações que atravessavam meus atos e percepções a todo instante.
Não era fácil nem difícil, simplesmente era assim que se dava ordem ao feito. Como numa espécie de evidência, as visualidades proporcionadas pelas imagens construídas, abarcavam parte de meus processos e procedimentos de realização das mesmas. E isso tinha e tem valor único.

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