Estudar para quê?




Eu ia te dizendo em parte que, a crítica surge quando você, enquanto indivíduo, começa a aparecer. Nesse sentido, quando você percorre as letras numa busca, está de certa maneira exercendo uma atividade especializada e unicamente humana. De certo modo, a crítica surge como uma especialização da leitura. E se a gente fala de literatura, e a aqui do maquinomovel é uma do tipo barata, a gente tem possibilidade de perceber quão recente é a LITERATURA em si, porque ela só há porque houve circulação de textos públicos com assinatura de um autor. E esse advento, o da autoria do indivíduo= AUTOR, é fruto do século 18.
É um erro a gente pensar que a literatura vai durar para sempre. E a crítica é quando o valor da literatura já não é mais evidente. Quando em parte você se pergunta, MAS ISSO É LITERATURA? Essa coisa sendo dita, é literatura? O que faz isso não ser literatura?
Por detrás disso, no mundo ao qual pertencemos, há uma ambiguidade presente. Ao nos perguntar-mos se isso é, ou não, estamos tocando em uma questão implícita nos nossos meios e modos de descobrir as coisas. Estamos perguntando indiretamente: O QUE FAZ ALGO NÃO FUNCIONAR?
É que talvez as coisas , nos tempos atuais, já não são mais evidentes. E tais questionamentos nos mostram as condições e possibilidades da literatura na modernidade.
Ela, a modernidade, implica em pensar a historicidade das coisas, as funções implícitas em UM MODO DE PENSAR A MODERNIDADE. E quando assim exercemos tais pensamentos, estamos colocando em questão as próprias condições de produção de um discurso poético na contemporaneidade.
Tudo isso que se produz no século 18, tem haver com apregoação de "VALORES ETERNOS" como o capitalismo, a burguesia, o individualismo, a crença no progresso humano e na invenção de novas formas de sociabilidade.
Na transformação da escrita e da literatura, os questionamentos dos "VALORES ETERNOS", isso tem haver com a formação de um CAMPO DE FORÇAS , que Pierre Bourdier, chama de CAMPO LITERÁRIO. No meio do desenvolvimento da escrita como produção numa sociedade de mercado (cujas BASES são : a educação, papel, impressão, editor, escritor, público, meios de circulação), as pessoas passaram a ter uma série de papéis sociais que tem haver com PRODUÇÃO, CIRCULAÇÃO E RECEPÇÃO da ESCRITA.
E dentro desse sistema, há uma especialização dos papéis, nisso surge o CRÍTICO LITERÁRIO.
Isso que para nós é natural ( ler, tenha quem edite, escreva, etc) só ganha dimensão social importante a partir do século 18. Como já te disse anteriormente, só com esse boom de leitores surge a ideia de LITERATURA.
Como exemplo, ao se pesquisar na enciclopédia de Diderot, o termo LITERATURA, você encontrará 5 linhas escritas. Mas se você pesquisar o termo BELLE LETTERS encontrará páginas . No século 18, nessa época, essa produção é algo que não aparece com esse nome de Literatura.
Literatura e Crítica literária é um movimento em conjunto, surgem juntas. NOMEAR ALGO COMO LITERATURA É UM PROCESSO que terá forte presença do crítico.
Dá para entender então que a briga está armada? Pois a coisa em si só poderá levar o nome de coisa a partir do momento que se admite criticá-la.
Talvez nós tenhamos muito o que aprender com esse movimento, e fazer da literatura algo que possamos utilizar enquanto um MODO DE USAR para coisas outras e áreas tantas da vida.
Nesse sentido, pode-se pensar em LITERATURA, ou Literatura barata, ou arte, ou... deixa pra lá.
Mas voltando, temos que literatura é uma prática social. Não tem uma essência, não é nada essencialmente definível, ou ela pode ser definível como: é o uso que fazemos dela pelo prazer de pensar a literatura. É UM FAZER QUE SE FAZ, SE REALIZA, EM LUGARES DE FAZER. E os modos de fazê-la, são modos diferentes de usar a linguagem, de pensar a liberdade de pensar.
caro leitor, A LEITURA É UMA PRÁTICA.
Grande abraço
André

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