3.

Antes de prosseguirmos na narrativa da caminhada ao trabalho, realizada por mim naquela terça-feira do passado... e que sendo passado encontra na memória uma ocupação existente, ou ainda, uma área da topologia dessa subjetividade singular, capaz de ativar a subjetividade temporalmente... recordo. Que se recordar não implica imaginar e compor sentido do que se é, não sei o que pode ser!?! Enfim, disse que ia estruturar essa narrativa tentando dialogar com textos encontrados que tratassem da questão do COTIDIANO de alguma forma/modo.
Ao me aproximar de tais construções de outras pessoas, percebo que meu modo de narrar vai também se transformando, assim como o escrito alheio. Vai se fabricando, maquinando e inventando, vai se construindo e re(dês)construindo através dessa operação aqui, dessa narrativa/narração com narração. Não sei aqui dizer de outro jeito, talvez seja apenas meu modo de organizar essa experiência. Talvez faça assim para impor alguma significação a essa ação de estudo/escrita.
Como bem aprendi um dia, num curso de educação permanente, a aprendizagem significativa só acontece quando o aprender de uma novidade faz sentido para nós. E aqui podemos estender o termo para ação significativa visto que aprendizagem é um meio de se efetuar ações. Faz muito tempo, há gente sabendo e dizendo que pedagogia e terapêutica são áreas afins. E o must do momento leva até o nome de Educação Inclusiva, coisa que na universidade pouco se faz e muito se diz... enfim, deixa eu ficar na minha!!!
Eu ia começar o diálogo através do capítulo 1 do livro da Berenice Rosa Francisco: TERAPIA OCUPACIONAL, da editora Papirus, que foi o 1º. Livro de T.O que eu tive acesso na minha formação (e que só consegui comprar uma 2ª. Edição em 2001). E antes dela responder a “célebre pergunta: o que é terapia ocupacional?” (pg.15). Ela faz um levantamento de outras questões numa tentativa de esclarecer , preste bem atenção:” certos mal-entendidos que o COTIDIANO e o SENSO COMUM nos lançam.”
Você entendeu o que ela fez? Ela alertou, que eu achei uma atitude consciente demais para qualquer estudante ou profissional de T.O, daqui ou de qualquer lugar que seja. Você vai enfrentar isso pela sua vida profissional. O senso comum tem obrigação de saber o que é terapia ocupacional? Você sabe o que é cibernética? Ou ainda, o que é filologia? Quem não tem contato com isso no dia-a-dia, tem uma idéia de leve do que possa ser, ou não.
O meu trabalho no cotidiano, envolvido com pessoas do senso-comum, me mostra que elas chegam sem saber o que é terapia ocupacional. Sabe o que eu faço com isso? Eu valorizo o ineditismo! É algo inédito para muitas das pessoas que eu cuido. Se eu explico para elas?
Eu já te disse que aprendi num curso de educação permanente, que o aprender de uma novidade só acontece quando essa faz sentido para nós.E geralmente isso ocorre quando a novidade responde a uma pergunta/questão nossa, e/ou quando o conhecimento novo é construído a partir de um diálogo com o que já sabíamos antes, ou seja, é necessário haver atenção e renovação.
Mas então, vou deixar o livro da Berenice para depois. Porque tem muita coisa atual lá, e merece mais tempo de leitura para eu fazer um diálogo mais bacana!
Hoje eu vou fazer um diálogo com o texto: A TERAPIA OCUPACIONAL NO PROCESSO DE REABILITAÇÃO: CONSTRUÇÃO DO COTIDIANO, de Marisa Takatori. Ele está disponível no site da CASA DA TO.
Sobre a forma de uma resenha apresento tal texto. O lerei de modo a fazer da diferença um valor no sentido de que eu lendo a escrita dela e escrevendo sobre a mesma possa efetivar uma compreensão .
Ao ler, compreendi que o indivíduo, torna-se parte da diferença no contexto da sociedade através de seu fazer singular no dia-a-dia. A relação do fazer do indivíduo e seu cotidiano está instalada em uma metafórica linha de desenvolvimento contínua, que ao se quebrar ou romper produz dificuldades de construção do próprio cotidiano, ou ainda, uma ruptura do reconhecimento entre o indivíduo e o contexto social. Esse rompimento dificulta a Inserção social do mesmo.
A inserção é resultada do poder-fazer singular, cuja forma carrega particularidades do ser em questão. As ações que compõem esse poder-fazer, quando instaladas num plano de realidade compartilhada (interna e externamente), carregam aspectos da pessoa (modos, jeitos, gestos, etc) confluindo para transformações operadas internamente no/pelo sujeito a partir da exterioridade dessa realidade, e vice-versa.
O dia-a-dia é composto por um fluxo contínuo de atividades que fomentam a construção/estruturação do COTIDIANO, através do tempo, do espaço e dos modos de ação do sujeito.
O termo/conceito inserção social é apontado enquanto uma das forças constituintes dos processos de reabilitação assistidos pela terapia ocupacional enquanto saber/área de conhecimento, e ainda visto que sobre ele as dificuldades determinantes dos momentos da vida do sujeito aparecem.
A autora, ao citar Benetton (1999), refere que a exclusão social resulta de uma diferença, tanto pela falta quanto pelas suas repercussões. Esse é um conceito delimitador da população atendida pela terapia ocupacional. O público alvo, formada pelos excluídos, sociologicamente definidos assim, são pessoas com déficit de ordem: social, física ou psíquica.
Ainda segundo Benetton, o sujeito alvo da assistência em T.O é o indivíduo necessitado que vive em certa exclusão social, ou melhor, encontra-se no estado de excluído da parte com significação social das atividades.
Interessante notar que a autora utiliza o termo ATIVIDADE SOCIAL enquanto um lugar no qual as significações das ações acontecem. As atividades, presentes no cotidiano, ganham contorno através do discurso conceitual da INCLUSÃO/(INSERÇÃO)/EXCLUSÃO, como se só houvessem esses dois lados do contexto na sociedade.
Como é possível, em pleno século XXI, “IN/OUT” ou “DENTRO E FORA” serem as partes de um todo maior, uma totalidade inexistente dos contextos que compõem as relações em sociedade? Mesmo os ditos “excluídos” fazem parte de um processo que está sempre em estruturação e desestruturação. Mas ainda, repetindo a pergunta de modo que a diferença apareça: Mesmo os ditos “excluídos” fazem parte, mas como? Através de uma maneira/modo que gera e carrega sofrimento pelo não pertencer... estamos no território das potências do PATHOS, quando o mesmo não encontra forças para divisão/circulação com/na rede relacional evidencia parte dessa ruptura. Esse processo de estruturação e desestruturação é histórico, ou seja, é composto dos tempos, dos espaços e dos modos de ação dos sujeitos. São assim, aspectos ligados ao COTIDIANO, histórias de um tempo singular.
Pelo tempo de hoje, é só isso.
Abraço
andré

Comentários

cris disse…
a gente só aprende mesmo o que faz sentido e, como até já falei num dos meus posts, aprendizado e motivação caminham juntos. tento me lembrar sempre disso, porque é básico para a clínica e para a vida.
e agora, ao ler sobre a tão falada e pouco praticada inclusão, me veio uma idéia: nós TOs falamos tanto disso, mas até certo ponto somos excluídos (sem querer fazer papel de vítima, muito pelo contrário). de um lado, isso nos faz ser capazes de dialogar e perceber os demais sob outra perspectiva; por outro, demonstra a lacuna entre nosso discurso e nossa prática. e essa lacuna, num campo como o nosso, é preocupante, pois mostra a maneira como estamos lidando - ou deixando de lidar - com nosso cotidiano (ahá!) profissional.
abraços,
Cristiane Ribeiro.
andre miolo disse…
Você tocou num ponto ao qual já havia pensado uma vez, da possibilidade de "entendimento e maior aproximação de populações excluídas", de um lado os profissionais e do outro o povão ao qual prestamos cuidados, ambos sabem o que estar-incluso fora do todo maior... tb acho que se fazemos de nossas práticas algo excluso de nosso discurso, e vice versa, acabamos por produzir não só exclusões de nós mesmos, mas grandes auto-enganos.Enfim, valeu pela visita, seja sempre bem, vinda!
abç
andré

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